Meio ambiente Saúde

Quarentena na Aldeia Comboios

A aldeia está em confinamento há mais de vinte dias e não tem nenhum caso ou suspeita de coronavírus

No próximo dia 19, estaremos comemorando, no Brasil e em vários outros países do continente americano, o Dia dos Povos Indígenas e no dia 09 de agosto o Dia Internacional dos Povos Indígenas.
A equipe do Fatos & Notícias antecipou-se e foi até a Aldeia Comboios, localizada no município de Aracruz, para entrevistar o cacique Pyndoboçú, que falou um pouco do momento que estamos passando e de como está sendo a vida na aldeia com essa onda de coronavírus e, também, sobre os rastros deixados pelo maior crime ecológico do Brasil, porque não dizer do mundo, que foi o rompimento da barragem de Fundão, na cidade de Mariana, em Minas Gerais.
“Segundo o cacique, a palavra pyndoboçú, significa “palmeira grande” na língua tupiniquim, essa espécie tem muita importância para nós porque é com ela que que confeccionamos artesanatos, utensílios, material de pesca e colheitas, entre outros coisas”, explica.
“Historicamente, a comunidade chama-se Aldeia Comboios porque na época que nossos antepassados produziam mandioca, cana, abóbora, farinha, faziam filas de canoas na travessia da aldeia para esse lado do rio, onde estamos e, em seguida, colocavam esses produtos nos lombos de animais (burros) para levarem, também em fila, em comboios, para os comércios de Barra do Riacho”, afirma.
“A nossa economia gira em torno da pecuária e da produção de mandioca e abóbora, mas, nos último anos, estamos centrados mesmos na preservação ambiental. Temos outro terreno que chamamos de Córrego D’ouro, uma aldeia que nós reivindicamos na época da luta pelas terras com a Aracruz Celulose e, lá, produzimos outras culturas. Hoje, juntando as terras de Comboios e de Córrego D’ouro, totalizam 2.800 hectares, onde vivem 380 famílias com aproximadamente 700 habitantes”.

Rio Comboios, onde fica localizada a aldeia de mesmo nome (Foto: Haroldo Cordeiro Filho)

“Em 2012, ocorreu a enchente, que deixou a comunidade desabrigada, e, em 2015, veio o rejeito de minério. Com o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), que atingiu nossa praia e o rio Comboios – que é ligado ao Rio Doce por um canal construído em Caboclo Bernardo – e nos deixou sem a pesca. No ano passado, veio a confirmação, por meio da empresa Polifônica, pela Fundação Renova, com apoio do Ministério Público Federal e autorização da Funai e participação da comunidade indígena, para fazer o Estudo de Componente Indígena (ECI), para mostrar os impactos do rompimento. Por azar, descobriram que o nosso rio, o Comboios, está completamente contaminado… todos os componentes tóxicos liberados com o rompimento vieram parar também aqui no nosso rio e isso causa impacto não só no meio ambiente, mas também no social e no econômico”.
Ele lembra que a aldeia tinha um cronograma de pesca, “a cada mês pescávamos uma espécie de peixe, o mês do baiacu, da arraia, do barbudo e assim sucessivamente. “Hoje as famílias recebem dois salários mínimos mais 20% sobre cada membro da família e um valor de cesta básica, dando um total de R$ 2.500,00 por mês para cada família, porque não podem mais pescar no mar e nem no rio”, garante.
Perguntado como a comunidade vem se comportando com relação à quarentena, o cacique disse que a aldeia está completamente confinada.
“Quando vimos a gravidade, nos reunimos com os agentes da Secretaria Especial de Saúde Indígena (órgão federal) que nos deram palestras alertando sobre o perigo. Então, achamos melhor não deixar nenhum idoso, nenhuma grávida e nenhum adolescente sair de casa para ir ao posto, os agentes de saúde é que vão até eles em suas casas. Na educação, por decreto, nossas crianças e jovens, tiveram suas atividades escolares suspensas e a cada quinze dias, nos reunimos para fazer avaliação dos avanços e dificuldades dessas ações”.
“Internamente, criamos algumas regras: Não deixar ninguém entrar ou sair da aldeia; paralisar todos os compromissos com instituições, ONGs e empresas que prestam serviços na comunidade como a Vale, a Suzano, a Arcelor e a Metame. Essas medidas estão tendo resultados positivos porque até agora não tivemos nenhum caso ou suspeita na aldeia. Nesta terça-feira (7), me reuni com o pessoal do Ministério Público para cobrar da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), combustível, álcool em gel, medicamentos e máscaras. Temos que atacar na prevenção. Enquanto líder, tenho o dever de cobrar responsabilidade das instituições das esferas de governo pelo bem-estar dos que vivem aqui na aldeia”, conclui.

Haroldo Filho

Haroldo Filho

Jornalista – DRT: 0003818/ES Coordenador-geral da ONG Educar para Crescer

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