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Almir ICyborg Man, 38 anos, deficiente auditivo. Personal trainer nota 1000!

“Porque ainda existe uma crença social de que o indivíduo deficiente é incompleto, diferente e menos apto para executar qualquer função ou gerir a própria vida”

Quando falamos em oportunidades, sabemos que elas são para poucos. O que dirá em relação às pessoas que têm algum tipo de deficiência. Transporte, dificuldade de deslocamento, falta de acessibilidade e, principalmente, falta de qualificação profissional são questões que levam algumas empresas a relutar quando o assunto é contratação para algum tipo de trabalho.
Para que haja qualificação o caminho é árduo. Lutar contra o preconceito de que não é capaz, concluir etapas no âmbito escolar e conquistar um diploma universitário, dentre muitas outras. Almir Lopes Amado Junior, o “Almir ICyborg” como gosta de ser chamado, venceu todas essas barreiras e tornou-se um exemplo para muitos que buscam o seu lugar ao sol, independente da sua condição.
Seu amor ao esporte e sua persistência fizeram com que se formasse em Bacharel/Licenciatura de Educação Física. Através do seu trabalho na Prefeitura de Vitória e a um canal no YouTube, procura mostrar a outras pessoas que tudo é possível se você buscar conhecimento.
Com essa linda história de superação e vitórias, ele concedeu essa entrevista para Ser Esporte.

Natação para pessoas com deficiência (Foto: Arquivo pessoal)

Você tem uma deficiência auditiva…
Eu nasci ouvinte numa cidade no Centro de Brasília e, quando eu tinha cinco meses de vida, peguei uma pneumonia, com febre recorrente, e tive que tomar medicamentos muito fortes. A partir de um ano de idade, já estava de mudança da minha terra natal para Vitória/ES, quando minha mãe começou a desconfiar que havia algo errado com minha audição, devido a várias tentativas de comunicação, de falta de respostas e ausência de percepções de barulhos ao redor. Até um ano e dois meses de idade, o que mais chamou a atenção da minha mãe, foi eu não acordar com barulhos que qualquer bebê da minha idade acordaria.
Depois de muitos médicos, meus pais tiveram que me levar a uma consulta do otorrinolaringologista especializada em surdez, no Hospital Bonsucesso no Rio de Janeiro, onde fui diagnosticado com ‘neurossensorial bilateral’ severa a profunda causada por medicação ototóxica. Assim, deste então, sou considerado surdo de nascença, antes de aprender a nomenclatura correta, ou seja, pré-lingual. Dos três até os nove anos, minha mãe Catharina Villar Amado foi muito importante na minha vida. Ela fez um treinamento auditivo comigo para que eu desenvolvesse a fala com métodos que ela mesma criava, apesar de nunca ter se formado em fonoaudiologia. Ela pesquisou e estudou muito para se dedicar integralmente ao meu desenvolvimento auditivo. Depois de dez anos, fiz um tratamento que durou três anos com uma fonoaudióloga profissional. Hoje, sou um surdo que ouve, usuário da Tecnologia Implante Coclear (ouvido direito) e aparelho auditivo convencional (ouvido esquerdo). Em ambos ouvidos, tenho perda auditiva neurossensorial profunda.

O deficiente ainda é descriminado nos dias de hoje. Na sua opinião, por que isso ainda acontece?
Hoje não se compara à década de 80. Apesar de estarmos no século 21, a discriminação ainda é velada. E o rótulo de “deficiente” remete a uma pessoa inválida e incapaz. E a cultura é de que, para ser aceito, deve-se ter um corpo perfeito e que siga os padrões impostos pela sociedade

Você conseguiu se formar em um curso superior. A sociedade está preparada para acolher esses profissionais?
Provavelmente a grande maioria não, porque ainda existe uma crença social de que o indivíduo com deficiência é incompleto, diferente e menos apto para executar qualquer função ou gerir a própria vida. Mesmo que a pessoa deficiente tenha uma profissão promissora, sempre há uma grande resistência para se tornar um gerente, chefe, diretor ou outro cargo importante em uma empresa.

Quanto aos meios de comunicação, as pessoas com alguma deficiência têm a atenção e o espaço que deveriam ter?
Falar sobre pessoas com deficiência é amplo, abrange e engloba, em todas as leis regidas pelo Estatuto de Criança e Adolescente (ECA), Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (LBI) e outras providências. Então, a partir do momento que se tem consciência de que ser diferente é normal, essa atitude de exclusão deve deixar de existir. Neste sentido, a luta dos deficientes é um precursor ativista que faz algo e busca a sua necessidade de sobrevivência.

Quais os seus maiores desafios na profissão de educador físico?
O maior desafio é provar, todo dia, que sou um profissional competente para aqueles que não me conhecem e que me olham como diferente através da comunicação orofacial (leitura labial) e pelo meu sotaque “surdo”. Sempre faço o meu melhor, transformando toda essa desconfiança em algo positivo para superar todas as minhas dificuldades, obstáculos e desafios.

Você tem um canal no YouTube onde faz consultoria on-line como personal trainer. Quando e como surgiu essa ideia?
Durante 11 anos da minha carreira, sempre trabalhei como personal trainer e outras atividades esportivas. Veio a pandemia mundial e tive que me adaptar às mudanças para trabalhar em home office, por isso veio a ideia de trabalhar com consultoria on-line e também faço o trabalho de voluntário para ajudar os indivíduos e pessoas com deficiência para praticarem atividades físicas em casa durante a pandemia.

Musculação Melhor Idade (Foto: Arquivo pessoal)

Você possui dois vínculos na Prefeitura de Vitória. Fale-nos sobre as suas atribuições?
Antes da pandemia, atendia em dois espaços em funções distintas: na Academia Popular, que tem como objetivo proporcionar aos munícipes de Vitoria mais qualidade de vida e prevenção da saúde. No espaço de Natação Para desporto, o objetivo é a inclusão de pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida.

Qual é a importância da natação para uma pessoa com algum tipo de deficiência?
A natação para deficientes tem fim terapêutico, recreativo ou competitivo, proporcionando uma melhora na saúde física e mental e, além disso, estimula o convívio externo e previne as enfermidades secundárias à deficiência.

A natação paraolímpica brasileira é uma das mais vitoriosas em jogos olímpicos. Na sua opinião a que se deve esse sucesso?
Segundo o Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB), o Brasil já conquistou 102 medalhas sendo 32 de ouro, 34 de prata e 36 de bronze na natação em Jogos Paralímpicos, que hoje é a segunda modalidade que mais medalhas deu ao Brasil, atrás apenas do atletismo (142 medalhas). Na minha opinião, é um grande avanço e marco na história brasileira, mas existem muitos profissionais que ainda estão sem patrocínios. É preciso ter mais recursos, mais espaços de treinamento como clubes, academias (treinamento de musculação), consultórios multi-interdisciplinar, dentre outras. Dessa forma atenderia melhor crianças, adolescentes e adultos.

Deixe uma mensagem de otimismo para que as pessoas com alguma deficiência, lutem pelo seu espaço na sociedade
Não bastam apenas palavras ditas e, sim, ter representatividade. Mostrar para a sociedade que nós construímos grandes histórias e não se deixar abater por suas limitações. Vá além disso e voe! Para finalizar, deixo aqui uma mensagem escrita por Neil Marcus: “A incapacidade não é uma luta ou coragem valente diante da adversidade. A deficiência é uma arte. É uma maneira engenhosa de viver”.

Acompanhe esse grande profissional no YouTube.
Canal: Almir Lopes Amado Junior
Ou agende uma aula pelo telefone: (27) 98857-3312

Laércio Fraga

Laércio Fraga

Professor de Educação Física.

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