Comportamento

Amigo

Para que serve um amigo? Para rachar a gasolina, emprestar a prancha, o disco, o batom, dar carona para as festas, passar cola, passear no shopping, segurar a barra…?
Sim, todas essas situações são válidas, porém isso não basta para guardar um amigo do lado esquerdo do peito.
Milan Kundera, escritor tcheco, escreveu, em seu último livro “A identidade”, que a amizade é indispensável para a integridade do próprio eu. Chama os amigos de testemunhas do passado e diz que eles são como nosso espelho e que, através, deles, podemos nos olhar e vai além “toda amizade é uma aliança contra a adversidade, aliança sem à qual o ser humano ficará desarmado contra seus inimigos”.
Verdade, verdadeira. Amigos recentes custam a perceber essa aliança, não valorizam ainda o que está sendo construído. São amizades não testadas pelo tempo, não se sabe se enfrentarão com solidez as tempestades ou se serão varridos numa chuva de verão.
Um amigo não racha apenas a gasolina, ele divide as lembranças, as crises de choro, as experiências, a culpa e os segredos.
Um amigo não empresta apenas a prancha ou o batom. Ele empresta o verbo, o ombro, o tempo, o seu calor e a jaqueta.
Um amigo não recomenda apenas um disco. Recomenda cautela, um emprego, um lugar.

Amigo é coisa pra se guardar (Foto: Pexels)

Um amigo não dá carona apenas para festas. Ele te leva para o mundo dele e topa conhecer o seu.
Um amigo não passa apenas cola. Passa contigo um aperto, passa junto o Réveillon.
Um amigo não caminha apenas no shopping. Ele anda em silêncio na dor, entra contigo em campo, sai do fracasso ao seu lado.
Um amigo não segura a barra apenas. Segura a mão, a ausência, uma confissão, segura o tranco, o palavrão, o elevador.
Duas dúzias de amigos assim ninguém tem. Se tiver um, amém!

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