{"id":3865,"date":"2020-04-30T15:39:10","date_gmt":"2020-04-30T18:39:10","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalfatosenoticias.com.br\/?p=3865"},"modified":"2020-04-30T15:39:15","modified_gmt":"2020-04-30T18:39:15","slug":"desenvolvimento-afetivo-como-nos-tornamos-humanos-parte-iii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalfatosenoticias.com.br\/index.php\/2020\/04\/30\/desenvolvimento-afetivo-como-nos-tornamos-humanos-parte-iii\/","title":{"rendered":"Desenvolvimento Afetivo, como nos tornamos humanos \u2014 Parte III"},"content":{"rendered":"\n<h6 class=\"wp-block-heading\"><em>Para muito al\u00e9m da configura\u00e7\u00e3o f\u00edsica, colo \u00e9 acolhimento, colo \u00e9 prote\u00e7\u00e3o, colo \u00e9 seguran\u00e7a, colo \u00e9 acalanto, colo \u00e9 limite, colo \u00e9 cura, colo \u00e9 aconchego<\/em><\/h6>\n\n\n\n<p>A dif\u00edcil tarefa de traduzir afeto em palavras deixa sempre o gostinho de \u00e9 mais do que isso. Mas, talvez o colo seja a palavra mais dif\u00edcil de definir. Para muito al\u00e9m da configura\u00e7\u00e3o f\u00edsica, colo \u00e9 acolhimento, colo \u00e9 prote\u00e7\u00e3o, colo \u00e9 seguran\u00e7a, colo \u00e9 acalanto, colo \u00e9 limite, colo \u00e9 cura, colo \u00e9 aconchego. Mas colo tamb\u00e9m \u00e9 n\u00e3o, colo tamb\u00e9m \u00e9 desespero, colo tamb\u00e9m \u00e9 viol\u00eancia.<br>Colo talvez seja a figura que mais se aproxima do conceito afeto. O colo e a necessidade dele permanecem. \u00c9 um equ\u00edvoco associar afeto com carinho, beijos e abra\u00e7os. Como tamb\u00e9m \u00e9 equivocado pensar que v\u00ednculo afetivo familiar \u00e9 resultado de conviv\u00eancia. O v\u00ednculo afetivo \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o que processa v\u00e1rios elementos por vias sensitivas, todas, viv\u00eancias, constru\u00e7\u00e3o que sediar\u00e1 o alicerce de todos os v\u00ednculos que surgir\u00e3o durante a vida. A import\u00e2ncia da sensa\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a prazerosa \u00e9 a primazia do desenvolvimento afetivo.<br>O afeto tem roupas e formas variadas. Mas s\u00e3o as suas qualidade e intensidade que v\u00e3o se aglutinando em constru\u00e7\u00e3o, e que o tipificam. O afeto, em sua qualidade predominante recebida, \u00e9 constitutivo de car\u00e1ter. Afetos de raiva, de inveja, de desprezo, v\u00e3o aglutinar atitudes correspondentes, que desenhar\u00e3o o perfil de resposta de algu\u00e9m, agressivo, invejoso, insens\u00edvel. Ou seja, a crian\u00e7a que sofre car\u00eancia de colo\/afeto, car\u00eancia de cuidados b\u00e1sicos de qualidade, ser\u00e1 um adulto que pouca ou nenhuma capacidade emp\u00e1tica ter\u00e1. Para se defender da dor do abandono sentido, mesmo que haja presen\u00e7a f\u00edsica, ela pode n\u00e3o ter satisfeitas suas necessidades afetivas, e cristalizar esta defesa para se anestesiar da dor. H\u00e1 um ressecamento afetivo, que funcionar\u00e1 como um terreno defendido do \u201crisco\u201d de afeto. Sentir afeto passa a ser arriscado, n\u00e3o sabe o que fazer e percebe como se passasse a perder o controle da situa\u00e7\u00e3o, como se o outro passasse a ter o dom\u00ednio.<br>Por vezes, a dureza da realidade afetiva \u00e9 dif\u00edcil de ser suportada, ent\u00e3o a mente lan\u00e7a m\u00e3o do imagin\u00e1rio como sa\u00edda em momentos cr\u00edticos. N\u00e3o raro a crian\u00e7a maltratada ou que sofre abandono intrafamiliar, busca consolo em sa\u00edda imagin\u00e1ria. Fantasia frequente \u00e9 que ela \u00e9 filha de rei e rainha, que vir\u00e3o resgat\u00e1-la a qualquer momento, porque assim ela diminui a dor, aqueles n\u00e3o s\u00e3o seus pais verdadeiros e por isso n\u00e3o gostam dela. Mas, mesmo usando a imagina\u00e7\u00e3o como defesa, ela n\u00e3o se perde da realidade, mesmo que dolorosa.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1000\" height=\"583\" src=\"https:\/\/jornalfatosenoticias.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/menino-se-sentindo-abandonado-pela-familia.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3866\" srcset=\"https:\/\/jornalfatosenoticias.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/menino-se-sentindo-abandonado-pela-familia.jpg 1000w, https:\/\/jornalfatosenoticias.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/menino-se-sentindo-abandonado-pela-familia-300x175.jpg 300w, https:\/\/jornalfatosenoticias.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/menino-se-sentindo-abandonado-pela-familia-768x448.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><figcaption><em>Menino se sentindo ignorado pela fam\u00edlia (Foto: BM)<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>O colo\/afeto permanece e nos acompanha por toda a vida. Costumamos pedir colo, a algu\u00e9m da confian\u00e7a afetiva, quando, na vida adulta, nos deparamos com uma decep\u00e7\u00e3o amorosa, por exemplo. N\u00e3o devemos considerar isto uma atitude de regress\u00e3o, \u00e9 saud\u00e1vel deixar que a dor tenha fluidez, possa ser sentida e, da\u00ed, elaborada para que uma nova organiza\u00e7\u00e3o afetiva ocorra, nos proporcionando a supera\u00e7\u00e3o do processo de luto por um amor findo. Este movimento foi aprendido na inf\u00e2ncia quando uma queda com um machucado, uma frustra\u00e7\u00e3o dif\u00edcil de suportar, nos levou ao colo de quem podia nos consolar e fortalecer, nos colocando, ap\u00f3s o tempo adequado de sustenta\u00e7\u00e3o, de volta para a batalha da vida. Se este processo de nutri\u00e7\u00e3o afetiva de qualidade foi bem executado, podemos enfrentar as dores da vida.<br>No entanto, se este processo foi falho, intermitente por algum motivo, ou foi interrompido, consequ\u00eancias nefastas podem se constituir como defesas contra o sentir. E \u00e9 este processo edificar\u00e1 nossa mem\u00f3ria afetiva. N\u00e3o esquecemos jamais as experi\u00eancias de fortes e intensas emo\u00e7\u00f5es. Uma crian\u00e7a pode guardar uma imagem, por exemplo, a repetida imagem do avi\u00e3o que levava o corpo de Tancredo Neves, rec\u00e9m eleito, percorrendo algumas capitais brasileiras. Lembram? A crian\u00e7a tinha apenas 5 anos, n\u00e3o sabia quem era Tancredo, n\u00e3o sabia o que era elei\u00e7\u00e3o, n\u00e3o sabia ainda muito sobre a morte. Mas, a emo\u00e7\u00e3o que ela captou da m\u00e3e, do pai, o sil\u00eancio paralisante daquele momento, fez com que aquela imagem na televis\u00e3o tivesse um lugar em sua mem\u00f3ria afetiva. Precisamos entender que, ao longo da inf\u00e2ncia, v\u00e1rias partes de ocorr\u00eancias s\u00e3o arquivadas, \u00e0s vezes em forma de imagem, \u00e0s vezes, com mais complexidade de compreens\u00e3o, em forma de luminosidade, \u00e0s vezes em forma de som ou de cheiro, ou gosto. Os sentidos produzem mem\u00f3rias para nosso acervo, muitas vezes de dif\u00edcil encaixe, mas sempre verdadeiras porque foram as experi\u00eancias de afeto poss\u00edveis naquele ponto do desenvolvimento.<br>Assim como a mem\u00f3ria guarda estas lembran\u00e7as afetivas, ou peda\u00e7\u00f5es delas, a cogni\u00e7\u00e3o \u00e9 muito importante para o bom armazenamento dos afetos, e a elabora\u00e7\u00e3o dos efeitos danosos que marcam nossa mente. Poder pensar um epis\u00f3dio afetivo \u00e9 de grande valia para a sa\u00fade mental. N\u00e3o falo em supremacia de nenhum dos vetores do desenvolvimento, o motor\/neurol\u00f3gico, o lingu\u00edstico, o cognitivo e o afetivo. Refiro-me aqui \u00e0 sintonia, ou \u00e0 desconex\u00e3o de aspectos da mesma viv\u00eancia, que se sedimentar\u00e3o favorecendo ou desfavorecendo a sa\u00fade mental da crian\u00e7a.<br>A mem\u00f3ria afetiva, este arquivo de nossas viv\u00eancias, as mais genu\u00ednas, \u00e9 respons\u00e1vel pela nossa humanicidade. \u00c9 o que nos torna humanos, capazes de estabelecer rela\u00e7\u00f5es entre os iguais e os diferentes.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para muito al\u00e9m da configura\u00e7\u00e3o f\u00edsica, colo \u00e9 acolhimento, colo \u00e9 prote\u00e7\u00e3o, colo \u00e9 seguran\u00e7a, colo \u00e9 acalanto, colo \u00e9 limite, colo \u00e9 cura, colo \u00e9 aconchego A dif\u00edcil tarefa de traduzir afeto em palavras deixa sempre o gostinho de \u00e9 mais do que isso. 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