{"id":5589,"date":"2020-06-17T10:26:49","date_gmt":"2020-06-17T13:26:49","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalfatosenoticias.com.br\/?p=5589"},"modified":"2020-06-17T10:26:55","modified_gmt":"2020-06-17T13:26:55","slug":"como-a-ciencia-contribuiu-com-machismo-e-racismo-ao-longo-da-historia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalfatosenoticias.com.br\/index.php\/2020\/06\/17\/como-a-ciencia-contribuiu-com-machismo-e-racismo-ao-longo-da-historia\/","title":{"rendered":"Como a ci\u00eancia contribuiu com machismo e racismo ao longo da hist\u00f3ria"},"content":{"rendered":"\n<h6 class=\"wp-block-heading\"><em>A suposta \u201cinferioridade feminina\u201d foi defendida por nomes como Arist\u00f3teles e Darwin, atingindo patamares ainda mais graves nos s\u00e9culos 18 e 19 em rela\u00e7\u00e3o a mulheres negras<\/em><\/h6>\n\n\n\n<p>\u201cO homem \u00e9 mais poderoso em corpo e mente que a mulher e, no estado selvagem, ele a mant\u00e9m numa condi\u00e7\u00e3o de servid\u00e3o muito mais abjeta que o faz o macho de qualquer outro animal; portanto, n\u00e3o surpreende que ele tenha ganhado o poder de sele\u00e7\u00e3o\u201d, escreveu Charles Darwin no segundo volume de A Origem do Homem, publicado em 1871. O trecho, que hoje seria considerado inadmiss\u00edvel, n\u00e3o chocou a classe cient\u00edfica da \u00e9poca, ocupada demais em criticar a rela\u00e7\u00e3o de parentesco entre o ser humano e outros primatas, proposta pela mesma obra. Mas n\u00e3o dava para esperar muito: a ideia de que as mulheres seriam inferiores aos homens era amplamente aceita na \u00e9poca.<br>At\u00e9 o s\u00e9culo 19, infelizes coloca\u00e7\u00f5es como essa foram muito comuns entre grandes cientistas e pensadores, como Rousseau, Schopenhauer, Vogt, Nietzsche e Freud. Na verdade, a ideia de \u201cinferioridade feminina\u201d, remonta \u00e0 Gr\u00e9cia Antiga. N\u00e3o por acaso, \u00e9 desse per\u00edodo que data a palavra misoginia, que define o \u00f3dio (mise\u00f3) ou avers\u00e3o \u00e0s mulheres (gyn\u00e9).<br>Arist\u00f3teles, aluno de Plat\u00e3o, foi uma das autoridades da filosofia grega que manteve um discurso focado na diferen\u00e7a entre os g\u00eaneros. \u201cA vis\u00e3o de Arist\u00f3teles \u00e9 baseada na quest\u00e3o de ordem e hierarquia\u201d, contextualiza a historiadora Ana Paula Vosne Martins, professora da Universidade Federal do Paran\u00e1 (UFPR) e especialista em hist\u00f3ria das mulheres. \u201c\u00c9 com essa perspectiva que ele analisa o cosmos e a natureza. Os seres humanos, como parte dessa natureza, tamb\u00e9m s\u00e3o ordenados em categorias hier\u00e1rquicas. Masculino e feminino, quente e frio, seco e \u00famido, reto e curvo etc.\u201d.<br>Do primeiro s\u00e9culo da era crist\u00e3 at\u00e9 o surgimento do Renascimento, a vis\u00e3o aristot\u00e9lica teve grande influ\u00eancia sobre a ci\u00eancia, a filosofia e a forma de organizar a sociedade ocidental. O m\u00e9dico romano Cl\u00e1udio Galeno, que viveu durante o s\u00e9culo 2, foi um dos mais antigos cientistas a compartilhar a vis\u00e3o de Arist\u00f3teles sobre o mundo e as mulheres \u2014 essa categoria \u201cimperfeita\u201d da natureza.<br>Idealizador do modelo do sexo \u00fanico, o fisiologista acreditava que havia apenas um sexo que podia ser considerado padr\u00e3o de perfei\u00e7\u00e3o para todos os seres: o masculino. A justificativa para isso estava na falta de \u201ccalor vital\u201d das mulheres que, al\u00e9m de frias e \u00famidas, tinham uma genit\u00e1lia \u201cvirada para dentro\u201d. Os homens, por outro lado, eram quentes e secos e, por isso, seu calor vital havia feito com que desenvolvessem \u00f3rg\u00e3os externos e \u201cpotentes\u201d.<br>A descri\u00e7\u00e3o do corpo feminino como uma vers\u00e3o menos desenvolvida do masculino pode ser vista at\u00e9 o s\u00e9culo 19, permeando inclusive \u2014 e principalmente \u2014 o surgimento de campos de estudo como a ginecologia e a obstetr\u00edcia. Por muito tempo, essas \u00e1reas da medicina foram importantes para refor\u00e7ar o papel maternal das mulheres, dificultando que elas se posicionassem sobre qualquer assunto ou ocupassem espa\u00e7os que n\u00e3o fossem o lar.<br>O s\u00e9culo 19 foi marcado pelo determinismo biol\u00f3gico, a cren\u00e7a de que comportamentos e desigualdades puramente sociais poderiam ser justificados por caracter\u00edsticas fisiol\u00f3gicas e gen\u00e9ticas de certos grupos. Crescia, assim, o ramo da ci\u00eancia sexual e da ci\u00eancia racial, bem como t\u00e9cnicas pseudocient\u00edficas para reunir provas contra grupos minorit\u00e1rios e justificar sua suposta inferioridade.<br>Entre elas estava a frenologia, que assimilava o tamanho de determinada regi\u00e3o do c\u00e9rebro \u00e0 capacidade que uma pessoa tinha de executar ou desenvolver certa habilidade. Outra t\u00e9cnica sem fundamento muito comum foi a craniometria, que comparava o tamanho e o formato de cr\u00e2nios de outras etnias e g\u00eaneros com o padr\u00e3o do homem europeu. Pesquisas nessas duas \u00e1reas serviram como base para muitos discursos racistas e sexistas da \u00e9poca.<br>\u201cA gente sempre considera a ci\u00eancia como o terreno da neutralidade, onde n\u00e3o existe discrimina\u00e7\u00e3o. Mas boa parte da ci\u00eancia produzida no s\u00e9culo 19 criou ou fomentou preconceitos existentes nas sociedades daquela \u00e9poca\u201d, afirma Vosne. Nesse sentido, pode-se dizer que muitos estudos eram utilizados para validar a ideia de que certos grupos, como as mulheres ou os negros, seriam inferiores e, por isso, deveriam estar \u00e0 deriva da subordina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, social e intelectual.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Sexismo e racismo se encontram<\/h4>\n\n\n\n<p>Pesquisas produzidas ao longo dos s\u00e9culos 18 e 19 foram especialmente cru\u00e9is com mulheres negras, cujos corpos se tornaram objeto de pesquisa de cientistas e naturalistas interessados em estud\u00e1-las principalmente do ponto de vista sexual. \u201cEram corpos intensamente racializados, sexualizados e objetificados\u201d, diz a professora da UFPR.<br>Um dos principais exemplos disso \u00e9 o caso de Saartjie Baartman (tamb\u00e9m conhecida como Sarah Baartman), uma mulher sul-africana do grupo khoikhoi, de tradi\u00e7\u00e3o n\u00f4made. Analfabeta e sem fam\u00edlia, ela teria assinado um contrato com colonizadores da Cidade do Cabo: o cirurgi\u00e3o brit\u00e2nico William Dunlop e o showman Hendrik Cesars, um homem negro e livre. Em 1810, Baartman foi levada at\u00e9 Londres e apresentada \u00e0 plateia do Piccadilly Circus como parte de um freak show (show de aberra\u00e7\u00f5es). O motivo de sua exposi\u00e7\u00e3o era o interesse dos colonos por suas n\u00e1degas protuberantes, fruto de uma condi\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica que causa acumula\u00e7\u00e3o de gordura no local, algo comum entre popula\u00e7\u00f5es da \u00c1frica Meridional.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1000\" height=\"761\" src=\"https:\/\/jornalfatosenoticias.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/sarah-baartman_preconceitp.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5590\" srcset=\"https:\/\/jornalfatosenoticias.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/sarah-baartman_preconceitp.jpg 1000w, https:\/\/jornalfatosenoticias.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/sarah-baartman_preconceitp-300x228.jpg 300w, https:\/\/jornalfatosenoticias.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/sarah-baartman_preconceitp-768x584.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><figcaption><em>Ilustra\u00e7\u00e3o de Saartjie Baartman retirada do segundo volume do livro Illustrations of the Natural History of Mammals. Em 1815, foi estudada como &#8220;mulher da ra\u00e7a B\u00f4chismann&#8221; por \u00c9tienne Geoffroy Saint-Hilaire e Georges Cuvier, respons\u00e1veis por criar teorias a cerca da inferioridade de etnias n\u00e3o europeias (Foto: Biblioteca Nacional da Fran\u00e7a\/Wikimedia Commons)<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Baartman passou anos transitando entre Inglaterra e Irlanda, por onde foi exibida como atra\u00e7\u00e3o em feiras e em casas de membros da elite que pagavam para poder tocar seu corpo. Diante da rotina degradante, Baartman se viciou em \u00e1lcool e fumo. Em 1814, ela foi levada \u00e0 Fran\u00e7a e comprada por um treinador de animais chamado S. Reaux, que a prostituiu e, mais tarde, ofereceu-a para um grupo de cientistas que pretendiam estudar sua anatomia e entender a rela\u00e7\u00e3o do ser humano com outros animais. Fazia parte desse grupo o naturalista franc\u00eas Georges Cuvier, \u201cpai da paleontologia\u201d, professor de anatomia comparada e pesquisador do Museu de Hist\u00f3ria Natural da Fran\u00e7a. O cientista dan\u00e7ou com Baartman em festas organizadas por Reaux e dissecou seu corpo ap\u00f3s sua morte em 1815, aos 26 anos, sem causa determinada. Os estudos influenciaram outros cientistas a compararem o corpo da sul-africana com o de mulheres brancas, numa tentativa de reafirmar a sexualidade primitiva da \u201cmulher selvagem\u201d.<br>C\u00e9rebro, esqueleto, genit\u00e1lia e outras partes do corpo de Baartman ficaram expostos no Museu do Homem, em Paris, at\u00e9 os anos 1970. Em 2002, seus restos finalmente retornaram \u00e0 \u00c1frica do Sul, a pedido de Nelson Mandela, em respeito \u00e0 mem\u00f3ria da mulher.<br>Al\u00e9m dela, muitas outras mulheres negras foram submetidas a experi\u00eancias desumanas em nome da ci\u00eancia do s\u00e9culo 19. O m\u00e9dico norte-americano James Marion Sims, considerado o pai da ginecologia moderna, por exemplo, realizava cirurgias sem anestesia em escravas que, por estarem nessa condi\u00e7\u00e3o de explora\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tinham o direito de consentir ou recusar os procedimentos. Em seus relat\u00f3rios, Sims descrevia como as mulheres choravam de dor durante os experimentos, que visavam \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de uma t\u00e9cnica de corre\u00e7\u00e3o de f\u00edstulas vesicovaginais e retovaginais, que s\u00e3o conex\u00f5es anormais entre a bexiga, a vagina e o reto. Uma de suas \u201cpacientes\u201d, chamada Anarcha Westcott, chegou a passar 30 vezes por esse procedimento.<br>Westcott vivia no Alabama e apresentava deformidades na pelve causadas por raquitismo, o que dificultou seu parto aos 17 anos. Devido \u00e0 malforma\u00e7\u00e3o anat\u00f4mica, a mulher passou tr\u00eas dias tentando conceber seu filho, sem sucesso. Sims foi, ent\u00e3o, convocado para intervir e, ap\u00f3s ser informado das f\u00edstulas que restaram como resultado do parto, Westcott se tornou a primeira cobaia do m\u00e9dico.<br>Na \u00e9poca, acreditava-se que mulheres negras eram mais resistentes \u00e0 dor do que as brancas \u2014 mito que surte efeitos ainda hoje. Segundo um levantamento publicado em 2017 por pesquisadores da Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz (Fiocruz), em compara\u00e7\u00e3o a pacientes brancas, mulheres negras t\u00eam uma probabilidade duas vezes maior de n\u00e3o receberem anestesia ao passarem por uma episiotomia (procedimento em que se corta uma parte do per\u00edneo, regi\u00e3o situada entre a vagina e o \u00e2nus) durante o parto.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Um dos principais exemplos disso \u00e9 o caso de Saartjie Baartman (tamb\u00e9m conhecida como Sarah Baartman), uma mulher sul-africana do grupo khoikhoi, de tradi\u00e7\u00e3o n\u00f4made. Analfabeta e sem fam\u00edlia, ela teria assinado um contrato com colonizadores da Cidade do Cabo: o cirurgi\u00e3o brit\u00e2nico William Dunlop e o showman Hendrik Cesars, um homem negro e livre. Em 1810, Baartman foi levada at\u00e9 Londres e apresentada \u00e0 plateia do Piccadilly Circus como parte de um freak show (show de aberra\u00e7\u00f5es)<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Subordina\u00e7\u00e3o intelectual<\/h4>\n\n\n\n<p>Enquanto a sexualidade feminina e seus \u201cmist\u00e9rios\u201d recebiam toda a aten\u00e7\u00e3o de m\u00e9dicos e cientistas, quaisquer refer\u00eancias ao intelecto das mulheres eram ignoradas ou subestimadas.<br>\u201cPara que a mulher atingisse o mesmo n\u00edvel que o homem, ela deveria, quando quase adulta, ser treinada para a energia e perseveran\u00e7a, e ter sua raz\u00e3o e imagina\u00e7\u00e3o exercitadas ao m\u00e1ximo\u201d, acreditava Darwin, ainda em A Origem do Homem, sugerindo que as mulheres precisariam de um esfor\u00e7o extra para atingirem a capacidade intelectual supostamente inerente ao homem. \u201cE depois, provavelmente, ela transmitir\u00e1 essas qualidades, sobretudo, para suas filhas adultas. Todo o conjunto das mulheres, contudo, n\u00e3o poderia ser elevado dessa maneira, a menos que durante muitas gera\u00e7\u00f5es as mulheres que se destacassem nessas virtudes robustas fossem casadas e produzissem filhos mais que as outras mulheres\u201d, conclui. Ignora-se aqui o fato de elas n\u00e3o terem acesso igualit\u00e1rio \u00e0 educa\u00e7\u00e3o. Com essa abordagem, o problema de ordem social \u00e9 transformado em uma quest\u00e3o de ordem biol\u00f3gica, o que teoricamente tornaria quaisquer mudan\u00e7as na sociedade muito mais dif\u00edceis e demoradas.<br>Assim como na Idade Antiga, a filosofia do s\u00e9culo 19 tamb\u00e9m contou com grandes autores que fizeram coro \u00e0 ideia de que as mulheres eram inferiores e deveriam estar subordinadas aos homens. \u201c\u00c9 evidente que a mulher \u00e9, por natureza, destinada a obedecer e a prova disso \u00e9 que ela se liga, n\u00e3o importa com que homem, para que ele a dirija e domine, pois ela precisa de um senhor. Se \u00e9 jovem, procura um amante, se \u00e9 velha, um confessor\u201d, escreveu Arthur Schopenhauer em 1900. Conhecido por sua \u201ctotal descren\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 possibilidade da evolu\u00e7\u00e3o feminina\u201d, como descreve Vosne em seu livro Vis\u00f5es do Feminino: a Medicina da Mulher nos S\u00e9culos XIX e XX, o fil\u00f3sofo alem\u00e3o foi um dos autores mais radicais e citados por m\u00e9dicos e cientistas da \u00e9poca na defesa da subordina\u00e7\u00e3o feminina. Assim, Schopenhauer ajudou a consolidar a ideia de que a mulher era o segundo sexo, sendo a casa seu lugar e a maternidade, sua fun\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>O m\u00e9dico norte-americano James Marion Sims, considerado o pai da ginecologia moderna, por exemplo, realizava cirurgias sem anestesia em escravas que, por estarem nessa condi\u00e7\u00e3o de explora\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tinham o direito de consentir ou recusar os procedimentos. Em seus relat\u00f3rios, Sims descrevia como as mulheres choravam de dor durante os experimentos<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Reviravolta<\/h4>\n\n\n\n<p>Mas foi tamb\u00e9m durante o s\u00e9culo 19 que pensadoras e mulheres cientistas come\u00e7aram, em casos isolados, a ingressar em universidades e a construir conhecimento \u2014 muito por conta do surgimento do movimento sufragista e feminista nos Estados Unidos e na Europa, que contou com nomes como as irm\u00e3s Sarah e Anna Grimk\u00e9 e Mary Wollstonecraft.<br>No Brasil, uma das pioneiras foi Josefa \u00c1gueda Felisbela Mercedes de Oliveira, que, ao final da d\u00e9cada de 1870, recorreu ao Governo da Prov\u00edncia de Pernambuco para receber um aux\u00edlio no valor de 100 mil r\u00e9is que seriam destinados a seus estudos de medicina no exterior. Ao mesmo tempo, Maria Am\u00e9lia Calvacanti de Albuquerque tamb\u00e9m buscava por apoio acad\u00eamico na prov\u00edncia. Ambos os casos tiveram seus direitos conquistados ap\u00f3s muitas discuss\u00f5es pol\u00edticas, que abalaram os governantes da \u00e9poca, resistentes em liberar o acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres.<br>Para alcan\u00e7ar o direito de estudar medicina, as futuras m\u00e9dicas contaram com o apoio de pol\u00edticos reformistas, como o jurista e deputado Tobias Barreto. Inicialmente, ambos os pedidos foram reprovados pelo m\u00e9dico Malaquias Ant\u00f4nio Gon\u00e7alves, que usou justificativas biol\u00f3gicas, como o tamanho do c\u00e9rebro das mulheres comparado ao dos homens, para impedir que elas tivessem acesso ao ensino superior. Barreto, professor e l\u00edder da Escola de Direito do Recife, era um cr\u00edtico ferrenho da ideia de que mulheres eram inferiores ou que deveriam ser educadas apenas para servir ao lar e \u00e0 fam\u00edlia.<br>Ao desmontar o argumento do Dr. Malaquias, como era conhecido, Barreto cita nomes de mulheres estrangeiras que j\u00e1 haviam conquistado o direito de estudar medicina, como Elizabeth Blackwell, Marie Elizabeth Zakrzewska e Elizabeth Garrett. \u201cSe fossem dadas a elas as mesmas condi\u00e7\u00f5es de educa\u00e7\u00e3o, ficaria provado que a natureza n\u00e3o as fez inferiores, mas sim a sociedade\u201d, escreveu Vosne em Vis\u00f5es do feminino. \u201cBarreto acreditava nesta tese e defendeu-a no embate que travou com o representante da ci\u00eancia das diferen\u00e7as\u201d.<br>Assim, as m\u00e9dicas tiveram seu direito ao aux\u00edlio garantido e, enquanto a discuss\u00e3o tamb\u00e9m ocupava outros c\u00edrculos pol\u00edticos, o governo imperial autorizou o ingresso de mulheres em faculdades em 1879, com a Reforma Le\u00f4ncio de Carvalho, tamb\u00e9m conhecida como a Reforma do Ensino Livre.<br>Diferentemente do padr\u00e3o europeu ou norte-americano, a cria\u00e7\u00e3o de faculdades exclusivas para mulheres n\u00e3o se popularizou no Brasil, que deu prefer\u00eancia aos grupos mistos. Ainda assim, a entrada em massa de mulheres no ensino superior s\u00f3 passou a ocorrer nas d\u00e9cadas de 1920 e 1930, com o impulso dos movimentos feministas e a participa\u00e7\u00e3o da bi\u00f3loga brasileira Bertha Lutz.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"832\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/jornalfatosenoticias.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/bertha_lutz_1925-832x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5591\" srcset=\"https:\/\/jornalfatosenoticias.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/bertha_lutz_1925-832x1024.jpg 832w, https:\/\/jornalfatosenoticias.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/bertha_lutz_1925-244x300.jpg 244w, https:\/\/jornalfatosenoticias.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/bertha_lutz_1925-768x945.jpg 768w, https:\/\/jornalfatosenoticias.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/bertha_lutz_1925.jpg 1000w\" sizes=\"auto, (max-width: 832px) 100vw, 832px\" \/><figcaption><em>Bertha Lutz, bi\u00f3loga e feminista brasileira (Foto: Wikimedia\/Adam Cuerden)<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Novos tempos<\/h4>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s se formar em ci\u00eancias naturais pela Universidade Paris-Sorbonne em 1918, Bertha Lutz retornou ao Brasil para trabalhar com seu pai, o m\u00e9dico Adolfo Lutz, no Instituto Manguinhos, hoje chamado de Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz, a Fiocruz. Mais tarde, passou a pesquisar no Museu Nacional do Rio de Janeiro, onde atuou nas \u00e1reas da zoologia, bot\u00e2nica e museologia.<br>Al\u00e9m do conhecimento cient\u00edfico, Lutz trouxe consigo da Fran\u00e7a as ideias e reivindica\u00e7\u00f5es do movimento feminista europeu. \u201cEla estava inserida em um momento de efervesc\u00eancia do movimento sufragista e de educa\u00e7\u00e3o igualit\u00e1ria para as mulheres\u201d, contextualiza Mariana Sombrio, historiadora e p\u00f3s-doutora em Museologia pela Universidade de S\u00e3o Paulo (USP). \u201cNa \u00e9poca, a luta feminista reivindicava condi\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas, pois muitas escolas n\u00e3o permitiam que a educa\u00e7\u00e3o fosse mista e n\u00e3o havia direito ao voto\u201d. O Col\u00e9gio Pedro II, por exemplo, n\u00e3o permitia o ingresso de meninas e foi alvo de cr\u00edticas e manifesta\u00e7\u00f5es de Lutz.<br>Com esse intuito, a bi\u00f3loga come\u00e7ou a organizar grupos com outras mulheres da classe m\u00e9dia fluminense e fundou, em 1922, a Federa\u00e7\u00e3o Brasileira para o Progresso Feminino, e em 1929, a Uni\u00e3o Universit\u00e1ria Feminina, apoiando outras mulheres a ingressarem no ensino superior. &#8220;Ela tinha uma caracter\u00edstica de lideran\u00e7a muito grande\u201d, afirma Sombrio. \u201cAo mesmo tempo, tinha a capacidade de articular politicamente com v\u00e1rios grupos, tanto homens quanto mulheres. Se reunia com os grupos feministas e com grupos pol\u00edticos de homens. Esse diferencial fez com que ela se tornasse a maior lideran\u00e7a do movimento feminista brasileiro entre as d\u00e9cadas de 1920 e 1930\u201d.<br>Al\u00e9m da atua\u00e7\u00e3o de mulheres como Bertha Lutz, outro fator decisivo para o ingresso feminino no ensino superior brasileiro foi a cria\u00e7\u00e3o de institui\u00e7\u00f5es de ensino superior como a USP e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Essas institui\u00e7\u00f5es permitiram \u00e0s mulheres trabalhar em diversas frentes do conhecimento: ensino, pesquisa e extens\u00e3o, ainda que a maioria em \u00e1reas consideradas menos nobres. \u201cNessas universidades, os cursos de filosofia, letras e ci\u00eancias humanas acabaram abrindo portas para as mulheres, porque eram carreiras que tinham menor remunera\u00e7\u00e3o e, portanto, menos procura e interesse por parte dos homens\u201d, explica Sombrio.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Segundo um levantamento publicado em 2017 por pesquisadores da Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz (Fiocruz), em compara\u00e7\u00e3o a pacientes brancas, mulheres negras t\u00eam uma probabilidade duas vezes maior de n\u00e3o receberem anestesia ao passarem por uma episiotomia<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Novos desafios<\/h4>\n\n\n\n<p>Mesmo um s\u00e9culo ap\u00f3s terem conquistado espa\u00e7o na academia, as mulheres ainda est\u00e3o distribu\u00eddas desigualmente nas \u00e1reas do conhecimento e ocupam menos cargos de lideran\u00e7a. Segundo o relat\u00f3rio Education at a Glance 2019, elaborado pela Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Econ\u00f4mico (OECD, na sigla em ingl\u00eas), as brasileiras t\u00eam 34% mais chances de se formarem no ensino superior do que os homens.<br>J\u00e1 no mercado de trabalho, o cen\u00e1rio muda. De acordo com o estudo da OECD, entre a popula\u00e7\u00e3o de 25 a 34 anos, a taxa de empregabilidade para homens e mulheres, respectivamente, \u00e9 de 89% e 82% para aqueles que conclu\u00edram o ensino superior; 84% e 63% para quem cursou o ensino m\u00e9dio; e 76% e 45% entre quem n\u00e3o completou o ensino m\u00e9dio.<br>No ambiente acad\u00eamico, o efeito tesoura resume o fen\u00f4meno de que, quanto mais se avan\u00e7a nos n\u00edveis de estudo, menos mulheres encontramos em sala de aula ou cargos de poder. De acordo o Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico (CNPq), 59% das bolsas de inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica s\u00e3o concedidas \u00e0s mulheres, mas apenas 24,6% das bolsas 1A, o mais alto n\u00edvel de pesquisa, est\u00e3o com elas.<br>E \u00e9 a\u00ed que os s\u00e9culos 19 e 21 se encontram brevemente. Apesar de terem ingressado na universidade e conquistado paridade no acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, as mulheres ainda s\u00e3o as principais respons\u00e1veis pelos cuidados da casa e dos filhos. Segundo uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE) divulgada em 2019, elas passam 21,3 horas por semana ocupadas com o trabalho dom\u00e9stico, quase o dobro dos homens, que passam somente 10,9 horas. A jornada dupla entre o trabalho cient\u00edfico e do lar torna o investimento na carreira uma tarefa muito mais \u00e1rdua para elas \u2014 e ainda ganhando menos.<br>Ap\u00f3s sete anos de queda, a desigualdade salarial entre homens e mulheres voltou a aumentar em 2019, com uma diferen\u00e7a de 47,24%, de acordo com o levantamento feito pela plataforma Quero Bolsa para a Ag\u00eancia Brasil. Lembrando que a lei que assegura a equidade salarial foi assinada em 1952 \u2014 e que a sociedade, assim como a ci\u00eancia fez no \u00faltimo s\u00e9culo, precisa revisar seus valores para conseguir progredir.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"900\" height=\"200\" src=\"https:\/\/jornalfatosenoticias.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/ugar-de-mulher-e-na-ciencia.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5592\" srcset=\"https:\/\/jornalfatosenoticias.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/ugar-de-mulher-e-na-ciencia.jpg 900w, https:\/\/jornalfatosenoticias.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/ugar-de-mulher-e-na-ciencia-300x67.jpg 300w, https:\/\/jornalfatosenoticias.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/ugar-de-mulher-e-na-ciencia-768x171.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 900px) 100vw, 900px\" \/><figcaption><em>Lugar de mulher \u00e9 na Ci\u00eancia (Foto: 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