{"id":8576,"date":"2020-09-07T10:32:12","date_gmt":"2020-09-07T13:32:12","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalfatosenoticias.com.br\/?p=8576"},"modified":"2020-09-07T10:32:16","modified_gmt":"2020-09-07T13:32:16","slug":"ha-48-anos-ocorria-o-brutal-massacre-de-munique","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalfatosenoticias.com.br\/index.php\/2020\/09\/07\/ha-48-anos-ocorria-o-brutal-massacre-de-munique\/","title":{"rendered":"H\u00e1 48 anos, ocorria o brutal massacre de Munique"},"content":{"rendered":"\n<h6 class=\"wp-block-heading\"><em>Entenda como uma trag\u00e9dia resultou numa ca\u00e7ada a terroristas<\/em><\/h6>\n\n\n\n<p>Ningu\u00e9m se lembra do cachorrinho bass\u00ea chamado Wald. Em 5 de setembro de 1972, o rosto encapuzado de um terrorista tomou seu lugar como s\u00edmbolo da Olimp\u00edada de Munique.<br>Perto das 4h30 da manh\u00e3, oito homens mascarados invadiram o alojamento da equipe israelense. Deram de cara com o treinador Moshe Weinberg, de 33 anos, e o mataram a tiros. Em seguida, o levantador de peso Yosef Romano tamb\u00e9m foi assassinado. No segundo piso do pr\u00e9dio de dois andares, os terroristas fizeram nove ref\u00e9ns, todos membros da delega\u00e7\u00e3o de Israel, e anunciaram pertencer ao Setembro Negro.<br>Queriam a liberta\u00e7\u00e3o de 234 palestinos presos. Quase desconhecido at\u00e9 ent\u00e3o, o grupo j\u00e1 havia organizado dois ataques.<br>Em novembro de 1971, matou a tiros o ex-primeiro-ministro da Jord\u00e2nia, Wasfi Tell, na entrada do hotel Sheraton, no Cairo. Dias depois, um homem no centro de Londres abriu fogo contra o carro do ex-embaixador da Jord\u00e2nia Zaid el Rifai, que sobreviveu.<br>A escolha de alvos jordanianos era uma vingan\u00e7a pelos quatro mil palestinos mortos em 1970 em Am\u00e3, capital da Jord\u00e2nia, durante uma tentativa de expuls\u00e1-los do pa\u00eds. O fato ocorreu em 17 de setembro (da\u00ed o nome da organiza\u00e7\u00e3o).<br>Para William Daddio, da Universidade de Georgetown, o Setembro Negro \u00e9 fruto de uma \u00e9poca de recrudescimento dos atritos entre Israel e os pa\u00edses \u00e1rabes, ap\u00f3s a Guerra dos Seis Dias. \u201cEm 1967, o Ex\u00e9rcito israelense ocupou a Faixa de Gaza na Jord\u00e2nia e partes da S\u00edria e do Egito, onde viviam um milh\u00e3o de palestinos. Uma massa descontente que se juntou aos 700 mil exilados desde a cria\u00e7\u00e3o do Estado de Israel, em 1948\u201d. Quase ningu\u00e9m entre as 900 milh\u00f5es de pessoas que acompanharam pela TV as imagens do sequestro em Munique sabia disso.<br>A causa palestina, pela primeira vez, chegava aos ouvidos do mundo, e de forma avassaladora. Depois de 18 horas de impasse, a pol\u00edcia alem\u00e3 organizou uma tentativa de resgate num aeroporto militar pr\u00f3ximo de Munique.<br>J\u00e1 era noite quando dois helic\u00f3pteros levantaram voo da Vila Ol\u00edmpica, levando a bordo os nove ref\u00e9ns e oito terroristas. No aeroporto, onde estava o Boeing 727 exigido para a fuga, atiradores foram posicionados e policiais disfar\u00e7ados ficaram dentro do avi\u00e3o para capturar os terroristas que fariam a inspe\u00e7\u00e3o da aeronave.<br>Por\u00e9m, os policiais pressentiram que seriam v\u00edtimas de uma a\u00e7\u00e3o suicida e abandonaram seu posto. Quando os \u201cinspetores\u201d do Setembro Negro chegaram ao 727, os alem\u00e3es abriram fogo. Os terroristas detonaram uma granada no helic\u00f3ptero onde quatro atletas israelenses estavam amarrados. Os outros ref\u00e9ns foram mortos a tiros. Um policial e cinco terroristas tamb\u00e9m morreram.<br>Tr\u00eas palestinos foram presos. Em 29 de outubro, ap\u00f3s um sequestro de um avi\u00e3o da Lufthansa, eles foram libertados. Em poucas horas, chegaram a Tr\u00edpoli, na L\u00edbia, onde foram recebidos como her\u00f3is.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">A vingan\u00e7a<\/h3>\n\n\n\n<p>Corta para uma madrugada em Beirute. Numa rua escura e silenciosa, um estranho casal caminha lentamente em dire\u00e7\u00e3o aos dois pequenos edif\u00edcios, um de frente para o outro, no fim da rua Verdun, na regi\u00e3o central da capital libanesa.<br>No caminho cruzam com dois policiais que fazem a ronda, mas passam despercebidos. Abra\u00e7ados na altura da cintura, eles carregam um arsenal por baixo das roupas. Quem est\u00e1 vestido de mulher \u00e9 na verdade um homem: Ehud Barak, ex-comandante do Sayeret Matkal, tamb\u00e9m chamado de \u201cA Unidade\u201d \u2014 grupo de elite do Ex\u00e9rcito israelense.<br>Naquele 10 de abril de 1973, o homem que, 25 anos depois, assumiria o posto de primeiro-ministro de Israel usava maquiagem e uma peruca de cabelos negros na altura dos ombros. Vestia uma cal\u00e7a estampada (a saia que lhe haviam comprado para o disfarce ficou muito justa) e finalizou a fantasia com uma ideia perfeita para seus prop\u00f3sitos: colocou duas granadas de m\u00e3o em um suti\u00e3 para criar seios falsos.<br>Abra\u00e7ado a Barak, estava o agente Muki Betser, que ocultava sob o casaco uma metralhadora Uzi e uma pistola Beretta. Na entrada \u00fanica para os pr\u00e9dios, o casal encontrou tr\u00eas outros oficiais israelenses, tamb\u00e9m disfar\u00e7ados, que j\u00e1 os esperavam.<br>No edif\u00edcio em frente, uma segunda equipe aguardava o sinal. As a\u00e7\u00f5es do grupo tinham de ser perfeitamente sincronizadas para surpreender os alvos da opera\u00e7\u00e3o: Abu Youssef, o terceiro homem mais poderoso do Fatah, bra\u00e7o militar da Organiza\u00e7\u00e3o para Liberta\u00e7\u00e3o da Palestina (OLP), Kamel Adwan, ex-chefe de opera\u00e7\u00f5es da OLP, e Kamal Nasser, porta-voz da entidade.<br>Eles j\u00e1 estavam condenados havia quatro meses, quando o governo israelense da ex-primeira-ministra Golda Meir declarou uma guerra silenciosa contra os membros da OLP, acusada de patrocinar as atividades terroristas do grupo conhecido como Setembro Negro (uma esp\u00e9cie de Al Qaeda dos anos 1970), que, em setembro de 1972, invadiu os alojamentos da equipe de Israel, durante a Olimp\u00edada de Munique, matando 11 atletas.<br>Os \u00e1rabes foram localizados no L\u00edbano e passaram a ser vigiados por uma equipe de israelenses disfar\u00e7ados de turistas. A vig\u00edlia durou semanas, enquanto um outro grupo se preparava num campo ao norte de Tel Aviv. Na noite da a\u00e7\u00e3o, 12 homens fortemente armados deixaram Israel em botes infl\u00e1veis e desembarcaram em uma praia em Beirute, onde entraram em tr\u00eas carros alugados e percorreram cerca de 22 quil\u00f4metros at\u00e9 o centro. A chamada opera\u00e7\u00e3o \u201cIra de Deus\u201d estava em curso, mas, naquela noite, nenhum dos tr\u00eas sabia disso.<br>De posse das plantas dos apartamentos, Ehud Barak e os companheiros sabiam exatamente onde os tr\u00eas \u00e1rabes estavam. Uma das equipes, liderada por Betser, invadiu o pr\u00e9dio onde dormia Youssef. Arrombando uma porta de vidro, os cinco homens tiveram acesso \u00e0s escadas e, rapidamente, subiram at\u00e9 o sexto andar. O ex-agente Zvika Livneh colocou um explosivo junto ao batente da porta e Betser disse a Barak que estavam em posi\u00e7\u00e3o.<br>Pelo r\u00e1dio, Barak recebeu a confirma\u00e7\u00e3o do outro grupo, posicionado no pr\u00e9dio da frente. A resposta de Barak veio por meio de um c\u00f3digo que cada um ali conhecia muito bem: cinco cliques ritmados no microfone do r\u00e1dio. Um, dois, tr\u00eas\u2026 Ao mesmo tempo, Betser sinalizou a seus homens com os dedos da m\u00e3o direita: quatro, cinco. Quando sua m\u00e3o se abriu por completo ouviu-se a explos\u00e3o.<br>O grupo entrou correndo, enquanto o l\u00edder seguia um roteiro muito bem ensaiado: da sala, virou \u00e0 esquerda no corredor e foi em dire\u00e7\u00e3o ao escrit\u00f3rio. Youssef surgiu na entrada da su\u00edte principal e ainda tentou trancar a porta atr\u00e1s de si. Betser disparou uma rajada que atravessou a porta e, com um chute, derrubou-a. O corpo do membro da OLP estava ca\u00eddo no ch\u00e3o, coberto de sangue. Nos outros quartos e na sala, os tiros continuaram por alguns segundos. No fim, al\u00e9m de Youssef, morreram sua esposa e tr\u00eas homens que lhe serviam de seguran\u00e7as.<br>Do outro lado da rua, mais tiros. Nasser tentou se esconder sob uma escrivaninha assim que ouviu a entrada dos homens encapuzados. Ainda conseguiu sacar sua arma e disparar, ferindo um deles antes de cair atingido por dezenas de tiros. Um andar abaixo, Adwan j\u00e1 havia encontrado o mesmo fim: fora fuzilado, antes de conseguir sair da cama.<br>Os tiros que mataram Adwan acordaram sua vizinha, uma aposentada italiana de 70 anos de idade. Assustada, ela foi at\u00e9 o corredor para ver o que estava acontecendo. Ao abrir a porta, a aposentada recebeu uma rajada de metralhadora no peito e morreu. Seria a \u00faltima v\u00edtima dos soldados israelenses naquela noite. Mas a sede de vingan\u00e7a estava longe de ser saciada.<br>Adwan, Nasser e Youssef nunca estiveram na Alemanha. Mas a morte dos tr\u00eas foi considerada pelo governo de Israel um sucesso absoluto na luta contra o terrorismo: \u201cUma grande contribui\u00e7\u00e3o para vingar os atletas israelenses que morreram em Munique\u201d, afirmou a ex-primeira-ministra, em discurso no parlamento de seu pa\u00eds. Declara\u00e7\u00e3o forte, com certeza. Pol\u00eamica, sem d\u00favida. Mas nada surpreendente.<br>No mesmo dia em que o mundo soube da morte dos atletas israelenses em Munique, Golda Meir j\u00e1 dera o tom do que seria a pol\u00edtica de Israel para tratar com os respons\u00e1veis pelo atentado: \u201cN\u00f3s vamos puni-los, onde quer que estejam\u201d, disse ela \u00e0s redes de TV. A frase ecoaria como uma amea\u00e7a pelo mundo todo, mas dentro dos \u00f3rg\u00e3os secretos de seu governo era a chancela para a forma\u00e7\u00e3o do Comit\u00ea X, composto por Aharon Yariv, na \u00e9poca rec\u00e9m-nomeado conselheiro para contraterrorismo, e Zvi Zamir, ex-chefe maior do Mossad, a pol\u00edcia secreta israelense.<br>Eles seriam os respons\u00e1veis diretos pela opera\u00e7\u00e3o Ira de Deus, que n\u00e3o mediria esfor\u00e7os para encontrar e executar qualquer pessoa relacionada ao ataque do Setembro Negro. Na \u00e9poca, Yariv declarou: \u201cN\u00e3o temos outra alternativa. N\u00f3s temos de faz\u00ea-los parar, onde quer que estejam, aonde quer que tenhamos de ir\u201d. E sentenciou: \u201cVoltamos para a velha lei b\u00edblica do olho por olho\u201d. Ou seja, n\u00e3o bastava capturar os palestinos. Eles teriam de ser mortos.<br>Nenhum estado democr\u00e1tico jamais colocou em pr\u00e1tica um plano t\u00e3o complexo para assassinar seus inimigos secretamente, sem o consentimento de outras na\u00e7\u00f5es soberanas. Uma lista com cerca de 35 nomes foi elaborada, incluindo de jovens ativistas a pessoas intimamente ligadas a Yasser Arafat, o ex-l\u00edder m\u00e1ximo da OLP.<br>A organiza\u00e7\u00e3o, criada em 1964, funcionava como um governo para os cerca de 700 mil palestinos que moravam no ex\u00edlio, a maioria em assentamentos na S\u00edria, no L\u00edbano e na Jord\u00e2nia, ap\u00f3s a cria\u00e7\u00e3o do Estado de Israel, em 1948. O Mossad acreditava que o pr\u00f3prio Arafat estava por tr\u00e1s da a\u00e7\u00e3o na Olimp\u00edada e que um de seus principais assessores e poss\u00edvel sucessor, Ali Hassam Salameh, era um dos cabe\u00e7as do Setembro Negro.<br>No livro Mem\u00f3rias de um Terrorista Palestino, Abu Daoud, um dos fundadores e l\u00edder do Setembro Negro e mentor assumido do plano de Munique, afirma que Arafat deu aval para o ataque \u00e0 Vila Ol\u00edmpica. Se o nome de Arafat, que morreu em 2004, estava na lista ainda \u00e9 um assunto pol\u00eamico. Mas o certo \u00e9 que Salameh e Daoud a encabe\u00e7avam.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Contra o terror<\/h3>\n\n\n\n<p>No entanto, o primeiro a sentir o peso da vingan\u00e7a israelita foi o primo de Arafat, Wael Zwaiter. Em 16 de outubro de 1972, ele levou 12 tiros na entrada do edif\u00edcio onde morava, em Roma. Meses depois, foi a vez de Mahmoud Hamshari, l\u00edder do Setembro Negro na Fran\u00e7a. Na manh\u00e3 de 8 de dezembro, Hamshari saiu de casa para ir a um caf\u00e9 perto dali, encontrar-se com um jornalista italiano que lhe pedira uma entrevista.<br>O rep\u00f3rter na verdade era um agente do Mossad e, enquanto distra\u00eda o palestino com perguntas sobre a pol\u00edtica no Oriente M\u00e9dio, dois outros agentes entraram na casa dele e plantaram uma bomba embaixo da mesa do telefone. Naquela noite, o \u201cjornalista italiano\u201d ligou e perguntou: \u201c\u00c9 o senhor Hamshari?\u201d. Alguns segundos separaram a resposta afirmativa da explos\u00e3o. Seriamente ferido, o palestino foi levado para o hospital, onde morreu alguns dias depois.<br>Mais duas mortes se seguiram at\u00e9 o Setembro Negro responder com um frustrado ataque \u00e0 embaixada israelense em Bangcoc, na Tail\u00e2ndia, em 28 de dezembro. Menos de um m\u00eas depois, o grupo terrorista arquitetou um plano mais ambicioso: matar Golda Meir.<br>Pouco foi revelado sobre o plano, al\u00e9m de que o atentado seria na It\u00e1lia, onde a ex-primeira-ministra iria se encontrar com o papa, e que os espi\u00f5es do Mossad conseguiram intervir a tempo de salvar Meir. Diante da amea\u00e7a de retalia\u00e7\u00e3o, o governo de Israel resolveu que era hora de liquidar Salameh.<br>Ali Hassam Salameh foi o c\u00e9rebro do massacre de Munique e figurava no topo da lista dos procurados pelas for\u00e7as israelenses. E ele sabia disso. Tanto que elaborou uma intrincada rede de contra-informa\u00e7\u00f5es para confundir seus perseguidores, plantando pistas falsas e divulgando dados desencontrados sobre seu paradeiro.<br>Em 1973, por\u00e9m, agentes do Mossad tinham certeza de que ele estava morando em algum lugar na Escandin\u00e1via. Mike Harari, um dos antigos chefes do servi\u00e7o secreto, escalou 15 novos agentes para encontrar e executar Salameh \u2014 entre eles estava o brasileiro Zwi Steinberg, ent\u00e3o com 36 anos. Harari, dois agentes e um int\u00e9rprete desembarcaram em 11 de julho em Estocolmo, na Su\u00e9cia, e alugaram um apartamento que serviria de quartel-general.<br>Eles seguiam o rastro de um homem chamado Kemal Benamane, que, segundo seus espi\u00f5es, levava e trazia as mensagens de Salameh. Tr\u00eas dias depois, o \u201ccarteiro\u201d partiu para Oslo, na Noruega. Nos dias que se seguiram, todos os agentes do Mossad na regi\u00e3o desembarcaram na capital norueguesa em voos diferentes, encobertos por nomes e identidades falsos.<br>Nesse meio tempo, Benamane sumiu de Oslo e reapareceu em Lillehammer, um pequeno vilarejo de 20 mil habitantes a mais de 150 quil\u00f4metros da capital. Disfar\u00e7ados de turistas, dois agentes do Mossad o reconheceram na sala de TV do pequeno hotel Skotte, assistindo a um filme sueco chamado Pescaria nas Montanhas do Leste.<br>No dia seguinte, viram quando Benamane encontrou outro \u00e1rabe num bar no centro da cidade: s\u00f3 podia ser Ali Hassam Salameh. A oficial Marianne Gladnikoff entrou no bar para v\u00ea-lo mais de perto e compar\u00e1-lo com uma foto que carregava na carteira.<br>Benamane deixou Lillehammer no trem para Oslo \u00e0s 2h08 daquela tarde. Mas, quando partiu, os agentes do Mossad n\u00e3o mais o seguiam. O alvo agora era outro. Na tarde do dia 21 de julho de 1973, uma equipe saltou de um Mazda escuro e abordou um homem enquanto ele voltava do cinema para casa, caminhando ao lado de uma jovem mulher.<br>Os agentes atiraram sem parar \u2014 ao todo, 14 tiros atingiram o homem com que Benamane conversara na v\u00e9spera. O grupo voltou para o carro e saiu em disparada, achando ter cumprido sua miss\u00e3o. Mas o homem que se contorcia em meio a uma po\u00e7a de sangue n\u00e3o era Salameh. Tampouco era terrorista. Era Ahmed Bouchiki, um gar\u00e7om marroquino. E a jovem ao seu lado era sua esposa, que estava gr\u00e1vida.<br>Enquanto os israelenses tentavam deixar a Noruega, a pol\u00edcia local estava na captura dos assassinos de Bouchiki. Marianne Gladnikoff e o antigo int\u00e9rprete Dan Aerbel foram presos quando tentavam devolver o carro alugado. Com Aerbel, a pol\u00edcia achou um bilhete com o n\u00famero do telefone de um homem chamado Zigal \u2014 na verdade, Yigal Eyal, ex-chefe de seguran\u00e7a da embaixada israelense.<br>L\u00e1, a pol\u00edcia prendeu o brasileiro Steinberg e outros tr\u00eas agentes. Julgados e condenados, cinco deles foram presos. Steinberg pegou um ano. Marianne, dois e meio, e Aerbel, cinco. Sylvia Rafael e Abraham Gehmer, cinco anos e meio. Michael Dorf foi absolvido. O epis\u00f3dio repercutiu mal mesmo entre os aliados de Israel e, diante da press\u00e3o internacional, Golda Meir suspendeu a Ira de Deus. A ca\u00e7ada, oficialmente, terminara.<br>Mas o fim da opera\u00e7\u00e3o foi apenas um ato pol\u00edtico. A vig\u00edlia e a busca por Salameh, seja com que nome fosse, jamais seria esquecida. Cinco anos depois, eles finalmente o pegaram. Localizado em dezembro de 1977, Salameh vivia em Beirute.<br>Ap\u00f3s estudar a rotina do palestino, uma equipe de espi\u00f5es-mergulhadores plantou explosivos num Volkswagen velho, estacionado no caminho que Salameh fazia para o trabalho. Em 22 de janeiro de 1978, o Mossad detonou os explosivos quando o carro de Salameh passava. Um estilha\u00e7o se alojou no seu cr\u00e2nio e ele morreu na mesa de opera\u00e7\u00e3o. Outras oito pessoas, seguran\u00e7as de Salameh, tamb\u00e9m morreram.<br>Quando Salameh se foi, Abu Daoud soube que chegara sua vez. Outro dos l\u00edderes do Fatah, ele foi um dos primeiros a ser diretamente ligado ao atentado de Munique. J\u00e1 nas primeiras horas do sequestro, a pol\u00edcia alem\u00e3 revelara seu envolvimento. R\u00e9u confesso, Daoud narrou sua hist\u00f3ria no livro Mem\u00f3rias de um Terrorista Palestino.<br>Depois de quase uma d\u00e9cada fugindo dos israelenses, Abu Daoud foi localizado por uma equipe do Mossad na Pol\u00f4nia. Numa tarde de agosto de 1981, ele estava num bar em Vars\u00f3via quando um jovem de cerca de 20 anos chegou perto, sacou uma pistola e disparou cinco vezes. Ainda consciente, foi levado para o hospital, onde retiraram uma bala de sua nuca e duas do intestino. Surpreendentemente, ele sobreviveu. No dia seguinte, foi resgatado do hospital e ficou meses se recuperando. Seu falecimento se deu em julho de 2010.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1000\" height=\"760\" src=\"https:\/\/jornalfatosenoticias.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/massacre-de-Munique2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-8577\" srcset=\"https:\/\/jornalfatosenoticias.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/massacre-de-Munique2.jpg 1000w, https:\/\/jornalfatosenoticias.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/massacre-de-Munique2-300x228.jpg 300w, https:\/\/jornalfatosenoticias.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/massacre-de-Munique2-768x584.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><figcaption><em>O palco do epis\u00f3dio (Foto: Wikimedia Commons)<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Mortos-vivos<\/h3>\n\n\n\n<p>Ironicamente, as a\u00e7\u00f5es da opera\u00e7\u00e3o Ira de Deus que permanecem mais nebulosas s\u00e3o as persegui\u00e7\u00f5es aos tr\u00eas terroristas sobreviventes detidos na Alemanha. Quando chegaram \u00e0 L\u00edbia, trocados por ref\u00e9ns de um voo da Lufthansa, dois meses depois do tiroteio em Munique, eles foram recebidos como her\u00f3is. Deram entrevistas e reafirmaram sua f\u00e9 nos atos violentos que haviam acabado de cometer.<br>Essas imagens ca\u00edram como uma bomba em Israel. At\u00e9 aquele momento ningu\u00e9m sabia quem eram os respons\u00e1veis diretos pelo atentado. Mas, pouco depois de aparecerem na TV libanesa, as for\u00e7as de Israel j\u00e1 os identificaram como sendo Mohammed Safady e Adnan e Jamil Al-Gashey.<br>At\u00e9 hoje, as vers\u00f5es para o destino dos tr\u00eas permanecem um mist\u00e9rio. Segundo o ingl\u00eas Simon Reeve, autor do livro One Day in September (Um dia em setembro), Adnan Al-Gashey teria vivido quase sete anos escondido com a fam\u00edlia no L\u00edbano, permanecendo em relativa seguran\u00e7a protegido por seguran\u00e7as e mudando-se constantemente de cidade.<br>Segundo Reeve, Adnan emigrou para o Kuwait, no fim de 1976, em busca de trabalho. L\u00e1 entrou em contato com uma prima, funcion\u00e1ria p\u00fablica. A mulher estava sendo vigiada pelos israelenses. A partir da\u00ed foi f\u00e1cil encontr\u00e1-lo. Mat\u00e1-lo, tamb\u00e9m.<br>Acredita-se que o segundo sobrevivente, Mohammed Safady, tenha sido descoberto no L\u00edbano, por causa dos contatos que fazia com a fam\u00edlia. Ele teria sido morto no fim dos anos 70. O terceiro, Jamil Al-Gashey escondeu-se durante muito tempo na \u00c1frica. Em 2000, ele apareceu no document\u00e1rio One Day in September, de Kevin Macdonald.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">&#8220;Tenho orgulho do que fiz&#8221;<\/h3>\n\n\n\n<p>O cineasta Kevin Macdonald (diretor de One Day in September) encontrou Jamil Al-Gashey, o \u00fanico terrorista que participou do ataque em Munique que ainda est\u00e1 vivo, em 1998. At\u00e9 hoje ele n\u00e3o sabe sequer em que pa\u00eds foi feita a grava\u00e7\u00e3o.<br>&#8220;Passei seis horas vendado e fui levado assim ao est\u00fadio&#8221;, diz Macdonald. &#8220;N\u00e3o podia fazer perguntas, dar ou receber telefonemas. Tudo foi preparado pelos contatos de Al-Gashey. Algumas vezes ele ficava bravo e paranoico. Gritava, sa\u00eda da sala e depois voltava&#8221;, diz.<br>Mas o destino dos tr\u00eas terroristas n\u00e3o \u00e9 um consenso. Em 2005, um livro lan\u00e7ado nos Estados Unidos fez revela\u00e7\u00f5es bomb\u00e1sticas. Em Striking Back: the 1972 Munich Olympics Massacres and Israel\u2019s Deadly Response (Revanche: o massacre da Olimp\u00edada de Munique de 1972 e a resposta mortal de Israel), o jornalista Aaron Klein, afirmou que, dos tr\u00eas terroristas sobreviventes de Munique, Adnan Al-Gashey \u00e9 o \u00fanico que est\u00e1 morto. Ele teria sofrido um ataque card\u00edaco nos anos 70.<br>Segundo o livro, Tawfiq Tirawi, um veterano membro da OLP, confirmou que Mohammed Safady est\u00e1 vivo. \u201cT\u00e3o vivo quanto eu e voc\u00ea\u201d, teria dito a Klein.<br>Mas essa \u00e9 a menor das pol\u00eamicas que cercam a ca\u00e7ada ao Setembro Negro. \u201cA legitimidade da rea\u00e7\u00e3o de Israel ao massacre de Munique levanta uma quest\u00e3o com mais de uma resposta: at\u00e9 que ponto uma na\u00e7\u00e3o pode invadir, perseguir e matar terroristas em outro pa\u00eds soberano\u201d, diz Dermot Keogh, autor de World After 9\/11, (O Mundo depois de 11\/9).<br>Para ele, o assunto ganhou f\u00f4lego ap\u00f3s os ataques a Nova York e Washington, nos Estados Unidos, e as investidas dos americanos no Afeganist\u00e3o e no Iraque. \u201cSe esses grupos terroristas atuam internacionalmente e, \u00e9 claro, n\u00e3o respeitam leis, fronteiras ou tratados, um governo pode fazer o mesmo para impedir o terror de agir?\u201d, pergunta Keogh.<br>\u201cA \u00fanica justificativa moral para a retalia\u00e7\u00e3o \u00e9 a de que essa \u00e9 uma forma de evitar outros ataques\u201d, diz William Daddio, professor de Sociologia do Terrorismo da Universidade de Georgetown, nos Estados Unidos.<br>Mas, mesmo nesse caso, o passado parece nos mostrar que a vingan\u00e7a pode n\u00e3o ser o melhor caminho. \u201cNo caso da opera\u00e7\u00e3o Ira de Deus, o plano do Mossad s\u00f3 inflamou ainda mais os palestinos. O tempo provou que eles n\u00e3o conseguiram evitar novas a\u00e7\u00f5es terroristas\u201d, afirma Daddio.<br>Aharon Yariv, o conselheiro para contraterrorismo de Golda Meir na \u00e9poca do ataque, afirmou, em entrevista \u00e0 rede de televis\u00e3o brit\u00e2nica BBC, que \u201ca a\u00e7\u00e3o do Mossad n\u00e3o pode ser vista por um ponto de vista moral. Por pior que isso possa soar, \u00e9 uma quest\u00e3o de custo-benef\u00edcio. Qual o benef\u00edcio de matar os membros do Setembro Negro? Isso vai nos trazer a paz? Isso vai nos trazer um entendimento com os palestinos? Acredito que n\u00e3o. Mas, no caso de Munique, n\u00f3s n\u00e3o t\u00ednhamos outra escolha. O plano funcionou. Isso \u00e9 moralmente aceit\u00e1vel? Essa quest\u00e3o \u00e9 discut\u00edvel. Isso \u00e9 politicamente vital? Para n\u00f3s, foi\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Fonte: <a href=\"https:\/\/aventurasnahistoria.uol.com.br\/noticias\/historia-hoje\/historia-massacre-munique-israel.phtml\">Aventuras na Hist\u00f3ria<\/a><\/em><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entenda como uma trag\u00e9dia resultou numa ca\u00e7ada a terroristas Ningu\u00e9m se lembra do cachorrinho bass\u00ea chamado Wald. Em 5 de setembro de 1972, o rosto encapuzado de um terrorista tomou seu lugar como s\u00edmbolo da Olimp\u00edada de Munique.Perto das 4h30 da manh\u00e3, oito homens mascarados invadiram o alojamento da equipe israelense. 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