Datado do século 15, livro de orações judaico roubado por nazistas vai a leilão
Livro de orações que foi confiscado pelos nazistas no início do Holocausto, deve ir a leilão este ano, com estimativas de venda entre US$ 5 milhões e US$ 7 milhões
Por Giovanna Gomes
No ano de 1415, um escriba e um artista criaram um livro de orações com a finalidade de celebrar as Grandes Festas Judaicas. Conhecido como Machzor, o manuscrito hebraico é adornado com iluminuras e ilustrações vibrantes de pássaros, unicórnios e dragões de duas cabeças, com páginas emolduradas em folha de prata e ouro que conferem um brilho especial à obra.
O raro exemplar do século 15 foi adquirido pela ramificação austríaca da influente família Rothschild, uma dinastia bancária internacional. Infelizmente, o livro foi confiscado pelos nazistas no início do Holocausto, junto a muitos outros bens da família. Recentemente, após um longo período de esquecimento em uma biblioteca austríaca, o Machzor foi devolvido à família Rothschild e agora deve ser leiloado na Sotheby’s com estimativas de venda entre US$ 5 milhões e US$ 7 milhões. Sharon Liberman Mintz, especialista em Judaica da Sotheby’s, destacou a importância desse manuscrito, segundo o portal New York Times.
Manuscritos hebraicos com iluminuras são extremamente raros. Para começar, são muito caros de produzir, então não existem em grande número. Sempre que as comunidades judaicas eram dizimadas ou expulsas, nem sempre podiam levar seus livros consigo. Entre a destruição, o deslocamento e a migração, o fato de este ter sobrevivido por 600 anos é nada menos que um milagre”. Mintz também afirmou que a confecção de uma obra tão singular em pergaminho teria demandado mais de um ano de trabalho.
Katrin Kogman-Appel, especialista em manuscritos medievais e professora na Universidade de Münster, ressaltou que qualquer livro que tenha sobrevivido desde esse período é uma preciosidade. Ela enfatizou a necessidade de que, caso o Machzor seja adquirido por um colecionador particular, haja um compromisso em torná-lo acessível ao público e à comunidade acadêmica.
Sobre o Machzor
O histórico do Machzor antes de sua aquisição pela família Rothschild é pouco conhecido. O livro estará exposto na Sotheby’s até o dia 5 de fevereiro, data do leilão. Em 1842, Salomon Mayer von Rothschild comprou-o em Nuremberg por 151 moedas de ouro como presente para seu filho Anselm Salomon von Rothschild. Desde então, permaneceu na posse da família por várias gerações até chegar à biblioteca de Alphonse Rothschild.
Com a anexação da Áustria pela Alemanha em março de 1938, os nazistas miraram na riqueza dos Rothschilds. O Barão Louis de Rothschild foi preso ao tentar deixar o país e forçado a entregar suas propriedades. Durante essa turbulenta época, Alphonse Rothschild e sua esposa Clarice estavam fora do país; enquanto estavam em Londres, a Gestapo confiscou o conteúdo do seu palácio em Viena, incluindo o Machzor. Alphonse e sua família emigraram para os Estados Unidos, onde ele faleceu em 1942.
Durante a Segunda Guerra Mundial, os nazistas saquearam cerca de cinco milhões de livros pertencentes a bibliotecas e coleções judaicas na Europa. Muitos foram destruídos ou enviados para bibliotecas antissemitas como o Instituto de Pesquisa sobre a Questão Judaica em Frankfurt.
Recuperando bens
Após o conflito, os descendentes dos Rothschild conseguiram recuperar parte dos bens roubados sob condições que exigiam doações a museus austríacos. Com a pressão internacional crescente nas décadas seguintes, autoridades austríacas alteraram as leis sobre restituição e devolveram diversos itens à família Rothschild.
No entanto, os livros permaneciam esquecidos na Biblioteca Nacional Austríaca até que uma exposição dedicada à história dos Rothschilds em Viena trouxe à tona o Machzor. Durante este evento organizado pelo Museu Judaico de Viena em 2021, o livro foi emprestado pela biblioteca nacional. Mintz observou: “isso só despertou a curiosidade de todos sobre como o livro foi parar na biblioteca. Os Rothschilds não sabiam que ele estava lá. Ficou na biblioteca por 60 anos sem ser examinado ou inventariado”. Após essa exposição, o governo austríaco iniciou uma investigação sobre a proveniência do Machzor e decidiu devolvê-lo aos herdeiros da família Rothschild em novembro de 2023.
(Foto: Divulgação/Sotheby’s)
Fonte: Aventuras na História









