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Antigo papiro egípcio confirma afirmação da Bíblia sobre existência de gigantes?

Um antigo papiro egípcio de 3.300 anos pode ser possível evidência de uma das afirmações mais controversas da Bíblia: a existência de gigantes no passado

Por Éric Moreira

Um papiro egípcio preservado no acervo do Museu Britânico voltou recentemente ao centro de um antigo debate: a possível existência histórica dos gigantes mencionados na Bíblia. O documento, conhecido como papiro Anastasi I, tem cerca de 3.300 anos e integra a coleção do museu desde 1839. O texto reacendeu discussões após ser citado no site da Associates for Biblical Research, onde passou a ser apresentado como um possível elemento de corroboração extrabíblica para algumas das passagens mais controversas do Antigo Testamento. Afinal: realmente existiram gigantes no passado?
O papiro Anastasi I descreve encontros com o povo Shosu, que, segundo o texto, teria “quatro ou cinco côvados” de altura, o que poderia chegar a quase 2,5 metros. Considerando que um côvado egípcio media cerca de 50 centímetros, essa descrição sugere indivíduos significativamente mais altos do que a média das populações da época. Para os defensores da teoria dos gigantes, essa informação é particularmente relevante, pois ofereceria um raro exemplo de fonte não bíblica descrevendo pessoas de estatura excepcional.
O documento assume a forma de uma carta escrita em um contexto de guerra, na qual são detalhados o terreno hostil e os desafios militares enfrentados. No texto, o escriba Hori alerta para os perigos de uma estreita passagem de montanha, afirmando: “o desfiladeiro estreito está infestado de Shosu escondidos sob os arbustos; alguns deles têm quatro ou cinco côvados de altura, da cabeça aos pés, rosto feroz, coração indomável e não dão ouvidos a súplicas. Tu estás só, não há ninguém que te ajude, nem exército que te apoie”. Essa passagem é frequentemente destacada como a principal evidência de que os Shosu seriam descritos como figuras intimidadoras não apenas por sua ferocidade, mas também por seu tamanho.

A Associação para Pesquisa Bíblica enfatizou esse trecho como indício de que os Shosu, possivelmente identificados como cananeus, eram de tamanho excepcional. Segundo os pesquisadores, “isso significaria que a altura das pessoas encontradas variava de pelo menos dois metros a dois metros e meio”. Eles acrescentam: “isto é particularmente interessante quando se considera que um dos principais pontos da carta diz respeito à necessidade de precisão”. Para esse grupo, o caráter supostamente instrutivo do texto reforçaria a ideia de que as medidas descritas não seriam meramente exageros literários.
No entanto, essa interpretação não é consensual. Críticos argumentam que o papiro Anastasi I é, na verdade, uma carta satírica. De acordo com essa leitura, o texto teria sido escrito pelo escriba Hori como uma peça instrutiva dirigida a outro escriba, Amenemope, zombando de seu desconhecimento de geografia, estratégia militar e logística. Dentro desse contexto, as descrições dramáticas do terreno e de seus habitantes poderiam funcionar como exageros deliberados, e não como registros literais.

O falecido estudioso bíblico Dr. Michael Heiser também expressou ceticismo em relação à leitura literal das descrições. Ele observou que alturas de 2 metros ou mais seriam comparáveis às de indivíduos altos na atualidade, não constituindo, portanto, evidência de seres sobrenaturais. Para Heiser e outros estudiosos, o papiro deve ser compreendido dentro de seu contexto histórico e literário, que remonta provavelmente ao período do Novo Reino do Egito, por volta do século 13 a.C., repercute o Daily Mail.

Afresco representando Davi e Golias (Foto: Getty Images)

Gigantes na Bíblia
O debate em torno do papiro Anastasi I ganha força porque dialoga com diversas passagens bíblicas que mencionam povos de grande estatura. Além do conhecido episódio de Davi e Golias, a Bíblia descreve raças ou tribos inteiras de pessoas excepcionalmente grandes. Em Gênesis, capítulo 6, lê-se: “havia gigantes na terra naqueles dias; e também depois, quando os filhos de Deus se uniram às filhas dos homens e elas lhes geraram filhos; estes foram os valentes que houve na antiguidade, homens de renome”. A palavra hebraica Nephilim, usada nesse trecho, é comumente traduzida como “gigantes” ou “caídos”. Segundo a tradição bíblica, esses seres teriam sido exterminados no Dilúvio, embora textos posteriores mencionem seus descendentes.
Outro relato aparece em Números 13:33, quando os israelitas descrevem o encontro com pessoas de tamanho extraordinário durante sua jornada: “e vimos ali os gigantes, filhos de Anaque, descendentes dos gigantes; e aos nossos próprios olhos parecíamos gafanhotos, e assim também parecíamos aos olhos deles”. Para os defensores da teoria, o papiro Anastasi I forneceria um paralelo extrabíblico que reforçaria essas narrativas.

Outros textos egípcios também são citados nesse debate. Os Textos de Execração, que listam inimigos em vasos de barro, fazem referência a “ly anaq”, ou “povo de Anak”, nome associado aos gigantes mencionados na Bíblia. Ainda assim, egiptólogos alertam que essas inscrições demonstram apenas conhecimento de tribos estrangeiras, e que sua interpretação como evidência de gigantes literais permanece especulativa. Há também alegações de que relevos da Batalha de Kadesh, datados de cerca de 1274 a.C., retratariam espiões Shasu capturados com aparência excepcionalmente grande.
A figura bíblica de Ogue, rei de Basã, é outro ponto recorrente nessas discussões. Em Deuteronômio 3, a Bíblia afirma: “pois somente Ogue, rei de Basã, restou dos gigantes. E sua cama era de ferro. (Não está ela em Rabá, território dos amonitas?) Seu comprimento é de nove côvados e sua largura de quatro côvados, segundo o côvado padrão”. Alguns arqueólogos bíblicos veem paralelos entre esse relato e textos do antigo Oriente Próximo, como uma tabuleta cananeia que diz: “que Rapiu, Rei da Eternidade, beba vinho… o deus entronizado em Astarte, o deus que reina em Edrei”.

Christopher Eames, do Instituto Armstrong de Arqueologia Bíblica, destacou essas conexões ao escrever: “a combinação dos nomes Rapia, Astarote e Edrei é uma ligação notável com o relato bíblico de Ogue e os Refains.” Ele complementa: “será que isso poderia ser uma referência ao próprio rei? Há quem sugira que ‘Og’ era simplesmente um título régio que significa ‘homem de valor‘, fazendo paralelo com outros títulos ugaríticos e cananeus. A lista de paralelos extrabíblicos poderia continuar”.
Apesar dessas associações, os céticos permanecem não convencidos. Eles ressaltam que não existem evidências arqueológicas concretas da existência de gigantes, como restos mortais ou estruturas construídas em escala incomum. O próprio Museu Britânico descreve o papiro Anastasi I como um documento histórico que ilustra a vida militar e o conhecimento geográfico do Egito antigo, sem tirar conclusões sobre a existência de seres sobrenaturais. Até o momento, as evidências disponíveis se limitam a inscrições e referências textuais, sem provas físicas que sustentem a ideia de uma raça de gigantes.

(Foto de capa: Divulgação/British Museum)

Fonte: Aventuras na História

Luzimara Fernandes

Jornalista MTB 2358-ES

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