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Incêndios na Califórnia sinalizam chegada do Piroceno, a “Era do Fogo”

Em artigo publicado no “The Conversation”, especialista explica como as mudanças climáticas não são as únicas responsáveis pelas queimadas — a chave está em como funciona nossa sociedade

Outro outono, mais incêndios, mais refugiados e casas incineradas. Para a Califórnia, as chamas se tornaram as cores do outono. O fogo de queima livre é a provocação imediata para o caos, já que suas tempestades de brasa estão envolvendo as paisagens. Mas, nas mãos dos humanos, a combustão também é a causa mais profunda.
As sociedades modernas estão queimando paisagens líticas [rochosas] — biomassa outrora viva agora fossilizada em carvão, gás e petróleo — o que está agravando a queima de paisagens vivas.
A influência não vem apenas das mudanças climáticas, embora isso seja claramente um fator. A transição para uma civilização baseada em combustíveis fósseis também afeta a forma como as pessoas nas sociedades industriais vivem na terra e que tipo de práticas [uso] de fogo adotam.
Mesmo sem as mudanças climáticas, um sério problema de queimadas existiria. As agências agrárias dos Estados Unidos reformaram as políticas para restabelecer o bom uso do fogo há 40, 50 anos, mas, fora algumas localidades, essa prática não foi alcançada em escala.
As paisagens líticas foram exumadas e não estão mais embaixo das paisagens vivas. Como resultado, uma vez liberado, o lítico [pedra] se sobrepõe às paisagens vivas e dois tipos diferentes de incêndio interagem, às vezes competindo e às vezes conspirando. Como as linhas de elétricas que provocaram tantos incêndios florestais, os dois tipos de queimada estão se cruzando, o que tem consequências letais.

Fogo como estrutura

Como historiador do fogo, sei que nenhum fator o impulsiona. As chamas sintetizam seus arredores. O fogo é um carro sem motorista que dispara pela estrada integrando tudo o que está ao seu redor.
Às vezes, enfrenta uma curva acentuada chamada de mudanças climáticas. Às vezes, é um cruzamento complicado onde a paisagem urbana e o campo se encontram. Às vezes, são os perigos da rodovia deixados por acidentes anteriores, corte de madeira, grama invasiva ou ambientes pós-queimadas.
As mudanças climáticas atuam como um intensificador de desempenho e, compreensivelmente, chamam a maior parte da atenção porque são globais e seu alcance se estende além das chamas para os oceanos, extinções em massa e outros efeitos colaterais. Mas as mudanças climáticas não são o suficiente por si só para explicar a praga dos megaincêndios. O clima integra muitos fatores, assim como o fogo. Sua interação torna a atribuição complicada.

Califórnia, junho de 2017 (Foto: Wikimedia Commons)

Em vez disso, considere o fogo em todas as suas manifestações como uma narrativa informativa. A inflexão crítica nos tempos modernos ocorreu quando os humanos começaram a queimar biomassa fossilizada em vez de viva. Isso desencadeou uma “transição pírica” que se assemelha à transição demográfica que acompanha a industrialização, à medida que as populações humanas primeiro se expandem, depois diminuem. Algo semelhante acontece com a “população de incêndios” à medida que novas fontes de ignição e combustíveis se tornam disponíveis enquanto os antigos persistem.
Nos EUA, a transição desencadeou uma onda de incêndios monstruosos que percorreram os trilhos dos assentamentos — incêndios em uma ordem de magnitude maior e mais letal do que os das últimas décadas. O desmatamento e o corte de madeira alimentaram conflagrações em série, que explodiram no fim do século 19 e no início do século 20, as últimas décadas da Pequena Era do Gelo [período de resfriamento que ocorreu na Era Moderna].
Foi um período de destruição catalisada pelas chamas que inspirou a conservação patrocinada pelo estado e a determinação de eliminar as chamas de queima livre. Liderada por silvicultores, espalhou-se a crença de que o fogo nas paisagens poderia ser engaiolado, como acontecia em fornalhas e dínamos.
Eventualmente, como a substituição tecnológica (pense em substituir velas por lâmpadas) e supressão ativa reduziram a presença de chamas abertas, a população de incêndios caiu a um ponto onde o fogo não poderia mais fazer o trabalho ecológico necessário. Enquanto isso, a sociedade se reorganizou em torno dos combustíveis fósseis, adaptando-se à combustão de paisagens líticas e ignorando o fogo latente nas paisagens vivas.
Agora as fontes sobrecarregam os sumidouros: muita biomassa fóssil é queimada para ser absorvida dentro dos limites ecológicos antigos. Os combustíveis na paisagem viva se acumulam e se reorganizam. O clima está confuso. Quando a chama retorna, como deve, vem como um incêndio.

Bem-vindo ao Piroceno

Amplie um pouco a abertura e podemos imaginar a Terra entrando em uma era do fogo comparável às eras glaciais do Pleistoceno, completa com o equivalente pírico de mantos de gelo, lagos pluviaisplanícies outwash periglaciais, extinções em massa e mudanças no nível do mar. É uma época em que o fogo é o principal motor e expressão.
Até a história do clima se tornou um subconjunto da história do fogo. O poder da humanidade sobre o fogo garante o Antropoceno, que é o resultado não apenas da intromissão humana, mas de um tipo particular de intromissão por meio do monopólio da espécie humana sobre o fogo.
A interação desses dois reinos de fogo não foi muito estudada. Tem sido um exagero incluir totalmente as práticas do fogo humano na ecologia tradicional. Mas o fogo industrial, ao contrário do fogo nas paisagens, é apenas um produto da manipulação humana e, portanto, está fora dos limites da ciência ecológica. É como se o poço intelectual não pudesse suportar o novo “reino do fogo” assim como a natureza não pode mais suportar suas emissões [de carbono].

O Grande Incêndio de 1910, que matou 78 bombeiros em Idaho (acima) e Montana, levou a meio século de manejo florestal com foco na supressão de incêndios (Foto: Biblioteca do Congresso/Wikipedia)

Ainda assim, na humanidade, espécie-chave para o fogo na Terra, essas duas arenas de queima terrestre, como a fumaça de fogos separados formados em uma única coluna convectiva, estão se fundindo. Seu “toma lá dá cá” está remodelando o planeta.
No mundo desenvolvido, a combustão industrial organiza a agricultura, ambientes construídos, configurações periurbanas e reservas para áreas selvagens — todos os materiais disponíveis para incêndios em paisagens. As sociedades até combatem o incêndio paisagístico com a força contrária do fogo industrial na forma de bombas, motores, aeronaves e veículos para transportar as tripulações. A interação dos dois reinos do fogo determina não apenas o que é queimado, mas também o que precisa ser queimado e o que não. Isso muda o impacto do incêndio na estrada.
As áreas em chamas, as áreas que precisam ser queimadas, os impactos externos em bacias hidrográficas e bacias de ar danificadas, o desmoronamento de biotas, o poder penetrante das mudanças climáticas, aumento do nível do mar, uma extinção em massa, a perturbação da vida humana e dos habitats. Some todos esses efeitos diretos, e indiretos, e você tem uma pirogeografia que se parece assustadoramente com uma era do gelo para o fogo. Você tem um Piroceno. Os contornos dessa época já estão se tornando visíveis através da fumaça.
Se estiver em dúvida, apenas pergunte a Califórnia.

*Stephen Pyne é professor emérito da Escola de Ciências da Vida da Universidade Estadual do Arizona, nos Estados Unidos.

Texto originalmente publicado em 2019, em inglês, no The Conversation.

Fonte: Revista Galileu

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