Saúde

HIV não tem cara: estereótipos prejudicam o combate ao vírus

Desde a década de 1980, o HIV e a aids carregam muitos tabus que ainda atrapalham o controle e a erradicação da epidemia

Desde que foram identificados os primeiros casos de HIV no Brasil, no início dos anos 1980, tanto o vírus quanto a doença causada por ele, a aids, passaram a carregar diversos estigmas. Um deles (talvez o mais antigo) é a crença de que apenas homens gays estão suscetíveis a contrair e disseminar a infecção.
Entretanto, nos dias atuais, esse tabu vem sendo derrubado pelas estatísticas e descobertas da medicina, que mostram que o HIV não tem uma “cara” definida. Isso porque todas as pessoas estão sujeitas à infecção pelo vírus, não importando gênero, idade, raça ou comportamento sexual.
Por conta disso, a estratégia de conscientizar a população sobre o preconceito acerca do assunto também serve para alertar sobre as formas de prevenção e controle do vírus e da doença, reforçando que qualquer indivíduo pode se tornar um portador do HIV — e que velhas concepções precisam ser desmistificadas.

Histórico da aids

Os primeiros casos mundiais de HIV e aids foram identificados nos EUA, Haiti e África Central, no final dos anos 1970, de acordo com o Ministério da Saúde. No Brasil, a pandemia chegou em 1982.
Ainda que tenha sido estigmatizada como uma doença de homens homossexuais, já na década de 1980, o Brasil identificava ocorrências de aids em todos os tipos de perfis populacionais.

“Na época em que os primeiros casos foram divulgados, eles eram de homens gays e, por isso, a doença se associou a eles. Eram gays, pessoas com hemofilia e negros. Também se associou ao pecado, ao lado negativo da sociedade, e isso tirou a responsabilidade do coletivo. Depois, pelos dados epidemiológicos, descobriu-se casos de mulheres com HIV. Mas isso não foi muito divulgado. E aí ficou como doença de gay, mais pelo preconceito do que outra coisa”, afirma Eduardo Luiz Barbosa, coordenador-geral do Grupo Pela Vidda, gerente do CRD e assessor de Diretoria do Ambulatório de HIV e especialidade do CRT/Aids.

Segundo o Ministério da Saúde, em 1983, foram notificados o primeiro caso de aids em mulher e o primeiro caso de possível transmissão heterossexual. Nessa época, também, começaram a surgir as discussões sobre o uso do termo “grupos de risco” e como ele pode ter cunho pejorativo (atualmente, a denominação correta é comportamento de risco).

Aids no Brasil

Segundo o mais recente boletim epidemiológico sobre a aids no Brasil, divulgado em 2019 com números de 2018, foram diagnosticados 43.941 novos casos de HIV e 37.161 casos da doença no País.

Ao todo, de 1980 a junho de 2019, o País registrou 966.058 casos de aids. Além disso, desde o início da epidemia de síndrome da imunodeficiência adquirida no Brasil, até dezembro de 2018, o Ministério da Saúde contabilizou 338.905 mortes por HIV/aids no País.

Por outro lado, o órgão vem observando uma diminuição na taxa de detecção da doença desde 2012 — chegando a 17,8 casos de aids registrados em cada 100.000 habitantes em 2018. Da mesma forma, a mortalidade da doença também está em tendência de queda nos últimos anos. Dados de 2018 mostram que 10.980 pessoas morreram pela síndrome no Brasil naquele ano — uma taxa de 4,4 pessoas a cada 100.000 habitantes.
Esses decréscimos nas estatísticas, segundo o Ministério, são um efeito da recomendação do “tratamento para todos”, implementada pela pasta em dezembro de 2013. O órgão ainda acredita que o cenário vem mudando graças à ampliação do diagnóstico precoce da infecção pelo HIV.

Doença de todos

Nos dias atuais, estatisticamente, a aids ainda prevalece entre homens homossexuais e bissexuais. Porém, a diferença é muito pequena se comparado a homens heterossexuais. De acordo com o Ministério da Saúde, entre a população masculina, a exposição de homo/bissexual ao HIV está na casa dos 40,3%, enquanto os casos notificados de homens heterossexuais está em 38,7% — uma diferença mínima de 1,6%. Algumas explicações podem embasar essas estatísticas.
Francini Guerra Correa, infectologista especialista em HIV, lembra que o sexo anal receptivo é uma das formas mais eficazes de transmissão do vírus. De acordo com a Unaids, programa das Nações Unidas para o combate à aids, entre os tipos de exposição sexual, esta prática está em primeiro lugar no risco de se transmitir e contrair o vírus. O número é 17 vezes maior que o sexo vaginal receptivo e 34 vezes maior que o sexo vaginal insertivo.

“A nossa microbiota intestinal é onde tem mais receptores do HIV, então é o local do corpo onde o vírus encontra mais facilidade de se disseminar”, explica a médica.

Por esse motivo, ela ressalta que o risco está mais na questão fisiológica do que na orientação sexual da pessoa. “Os heterossexuais também podem ser acometidos. Além disso, hoje em dia, a orientação sexual é muito ampla. Não chamamos mais de homens gays, mas de homens que fazem sexo com homens. Porque não necessariamente ele é gay, já que pode se relacionar com homem e com mulher. Mas se ele faz sexo anal, ele tem mais chance de contrair o vírus”, acrescenta Francini.
É importante destacar também que, mais do que o sexo anal receptivo, a transfusão de sangue é, de longe, o meio mais perigoso para a contaminação de HIV, com 9.250 chances para cada 10.000 exposições.

Mulheres e gestantes

Ainda segundo o último boletim epidemiológico brasileiro, de 1980 até junho de 2019, foram registrados 633.462 (65,6%) casos de aids em homens e 332.505 (34,4%) em mulheres. Desse modo, o Brasil registra 2,3 ocorrências da doença em homens para cada caso em mulheres.
Embora venha ocorrendo uma redução gradual nos casos da doença entre o público feminino, o Ministério da Saúde observou um aumento no número de mulheres diagnosticadas com aids no período entre 1980 e 2002, conforme divulgado no boletim epidemiológico de 2017.
Outro dado que chama atenção no boletim mais recente é que, em um período de dez anos, houve um aumento de 38,1% na taxa de detecção de HIV em gestantes — prevalecendo os casos em mulheres de 20 e 24 anos.
Segundo a infectologista Francini Correa, um dos motivos para o aumento do número de grávidas com o vírus, especialmente jovens, está na falta do uso de preservativo durante o sexo. “A juventude não tem medo. Ao se relacionarem, não usam o preservativo e acabam engravidando também”, diz a médica sobre o comportamento de risco que expõe jovens à contaminação pelo HIV e também a uma gravidez não planejada.
Eduardo Luiz Barbosa, coordenador do Grupo Pela Vidda, enxerga outro motivo que também contribui para a presença de mulheres gestantes nas estatísticas.

“Não é comum mulheres buscando o autoteste. O HIV ainda é um tabu e os próprios profissionais de saúde demoram para pedir o exame de sorologia como rotina. Hoje, no entanto, ele é realizado no pré-natal por conta de legislação”, afirma.

Aids em jovens e idosos

Um ponto de destaque nos dados sobre a aids no Brasil está no aumento de mortes nos extremos etários da população. No último levantamento do Ministério da Saúde, de uma forma geral, o coeficiente de mortalidade de aids teve uma queda nos últimos dez anos em todas as faixas etárias. A exceção aconteceu entre a faixa dos 55 e 59 anos e 60 anos ou mais, com um crescimento de 10,1% e de 39,5%, respectivamente.
Esse aumento nas duas faixas etárias específicas, segundo a pasta, foi observado tanto em homens quanto em mulheres. Para explicar o fenômeno na população mais velha, Barbosa considera que o grupo “relaxou”.

“É um excesso de confiança nas tecnologias que temos. Quem viveu na década de 1980 teve muito medo. Hoje, parece que esse medo deu lugar ao desejo. Como temos uma sociedade muito reacionária no plano visível, mas liberal em informações, com aplicativos de relacionamento, por exemplo, existe uma maior possibilidade de encontros”, diz o especialista.

A infectologista Francini Correa observa outro aspecto que contribui para o aumento de mortes entre esse público: o preconceito com a aids. “Eu acredito que pessoas acima de 55 anos não gostam de falar que têm a doença, fogem do serviço de saúde com medo de serem encontradas por lá. Elas têm vergonha do diagnóstico”, diz a médica.
Ainda no quesito de pirâmide etária, foi observada uma maior concentração dos casos de aids no Brasil em pessoas entre 25 e 39 anos — de ambos os gêneros. E quando a análise se volta para a grande ocorrência da doença entre os jovens adultos, a explicação está, novamente, na perda do medo.

“Hoje, temos muitas alternativas, é muito mais fácil de conviver com a aids. Mas ainda assim é uma questão que precisa de acompanhamento para a vida inteira, um cuidado a mais com o seu estilo de vida, porque ainda assim é uma doença crônica que traz malefícios quando não cuidada. Então, a juventude cada vez menos usa o preservativo, porque perdeu completamente o medo do HIV”, afirma Francini.

Aids na população negra

Ao observar o recorte racial no Brasil, também é possível notar uma concentração de mais de 50% no número de casos de aids nas populações parda e preta. Nos últimos anos, o País registrou uma queda de 20% na proporção de casos entre pessoas brancas — contra uma diminuição de apenas 1% entre as pessoas negras, um aumento de 37,7% para as pardas e um acréscimo de 100% entre os indígenas.

“As populações negra, parda e indígena, além de serem empobrecidas, são mais privadas de liberdades, pois são as mais encarceradas. Nós sabemos que há um aumento de HIV em cadeias. Além disso, esses grupos precisam lidar com o preconceito racial e enfrentar o tabu do HIV. Por isso, muitas vezes, eles ‘fogem’ dos serviços de saúde — às vezes, até por medo”, diz Francini.

Prevenir para cuidar de todos

Por atingir toda e qualquer parcela da sociedade, a melhor forma de reduzir os casos de HIV no Brasil e no mundo é através da prevenção constante. Atualmente, a Unaids trabalha com algumas metas para os próximos cinco anos, que visam o combate ao vírus e uma resposta efetiva à atual epidemia.
De acordo com o programa da ONU, a ideia é retomar os planos de ação contra o HIV, traçados antes da pandemia de coronavírus, a fim de conseguir erradicar a aids até 2030. As metas concentram esforços para expandir as medidas de enfrentamento ao vírus, que englobam maior oferta de serviços de saúde reprodutiva e sexual, juntamente com a remoção de leis e políticas punitivas, além de redução do estigma e da discriminação sobre o assunto.
A ideia é não só dar foco ao indivíduo, mas, principalmente, às pessoas que são marginalizadas pela sociedade, como mulheres e meninas jovens, adolescentes, profissionais do sexo, pessoas trans, usuários de drogas, gays e homens que fazem sexo com homens.
Para o coordenador do Grupo Pela Vidda, um dos caminhos para a prevenção do HIV é justamente o combate à discriminação. “Aids não pode ter preconceito. Quanto mais pudermos mudar e combater o julgamento comportamental e permitir que as pessoas sejam quem elas são, mais ajudamos a diminuir e prevenir o vírus e a doença”, conclui Barbosa

Fonte: Minha Vida

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