Política

CPI da Covid-19. Mais uma falácia?

Inacreditavelmente, o mesmo parlamento que investiga supostos atrasos e pagamentos superfaturados do governo federal, ajudou a aprovar os R$ 5,7 bilhões para o fundo eleitoral

Que vêm ocorrendo mortes durante esse período de pandemia, isso é fato inegável. Perder um ente querido não é nada fácil e não quero que me vejam como uma pessoa fria e insensível ao lerem este texto. Afinal, sei muito bem o que é perder alguém da família, não por covid, mas por outra enfermidade que ceifa vidas em todo mundo e a todo momento, o câncer.
A conjuntura política atual nos faz pensar e repensar e, como profissional da comunicação, não posso deixar de manifestar-me diante do circo montado na esquina do Senado Federal chamado “CPI da Covid-19”. Idealizada pelo senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) para investigar a grave crise sanitária no Amazonas e, também, supostas omissões e irregularidades nas ações do governo federal.
O Amazonas, estado que teve como governador, no quadriênio 2015/2018, o presidente da comissão senador Omar Aziz (PSD), guarda uma tradição em desviar recursos públicos. Aziz ainda deve respostas sobre como as autoridades não devem agir na saúde pública. A esposa dele, a deputada Nejmi Aziz (PSD), e os irmãos do senador já foram presos, em 2019, por acusação de desvio de verbas públicas da saúde na maior operação da história da Polícia Federal (PF) no estado amazonense. Organizações da sociedade civil avaliam que ter o senador Aziz na presidência da CPI é, no mínimo, amoral.

Família Aziz, na fotografia acima, Nejmi e Omar Aziz, e o casal José e Edilene Melo, que foi preso na Operação Maus Caminhos (Foto: Secom AM)

Não causa surpresa que, uma vez indicado para presidir a CPI da Pandemia, Omar Aziz tenha dito em entrevista no dia 16 de abril: “Não tem governo, seja de direita, centro ou esquerda, que não tenha cometido equívocos nessa pandemia”.
Em 2016, o Ministério Público Federal (MPF) e a PF no Amazonas iniciaram a Operação Maus Caminhos, que se desdobrou nas operações Custo Político, Estado de Emergência, Cashback, Vertex e Eminência Parda, que se estenderam até os dias atuais. Naquele ano, quando Aziz já ocupava uma das vagas no Senado Federal e dois anos após renunciar ao governo do Amazonas, investigadores da Maus Caminhos descobriram desvios milionários na saúde estadual.
Em entrevista ao site Brasil de Fato, o presidente do Sindicato dos Médicos do Amazonas, médico Mário Viana, sem citar diretamente o nome do senador Omar Aziz, afirma que a CPI da Pandemia está contaminada desde a origem. “A gente já vê que as escolhas são sim parciais e não imparciais. Então, infelizmente, como médico e cidadão, não espero muito dessa CPI. Eles [os senadores] têm as responsabilidades; infelizmente isso é o retrato do País. A gente perde a oportunidade de ver uma investigação profunda que pudesse realmente apontar os desvios de recursos que, com certeza, foram cometidos em nome da pandemia e do claro sacrifício de vidas de vários brasileiros e de pais e mães de família que deixaram órfãos, desestruturando as famílias e a população brasileira”, disse Viana.

Governo do Amazonas suspeito de corrupção durante a pandemia (Foto: Michael Dantas/AFP)

Se a finalidade de uma Comissão Parlamentar de Inquérito é apurar, me faço a seguinte pergunta: por que governadores e prefeitos ainda não foram convidados ou convocados a sentarem na cadeira dos depoentes? Acreditando em narrativas muito mais comprometedoras e relevantes para a comissão e à sociedade, precisamos saber, também, o destino dos bilhões de reais repassados pelo governo federal aos Estados e Municípios. Talvez, com essa estratégia, a CPI chegaria mais rápido aos responsáveis pelos milhares de óbitos, do que simplesmente disparar a metralhadora em um único alvo, o presidente Jair Bolsonaro… Seria o efeito das eleições de 2022?
Querer atribuir ao governo federal a falta de hospitais, de remédios e de médicos e, consequentemente, das mortes noticiadas, visto que muitas, confirmadamente, foram colocadas na conta do coronavírus pelos governadores, é briga de vira-latas por um pedaço de filé mignon, chamado poder, concordam comigo? Esse discurso de genocídio é muito raso, uma vez que o cerne da questão é mais profundo. A discussão mínima que deveria haver é por que ao invés de investir em escolas e hospitais padrões Fifa, foram investidas vultosas somas de reais em estádios, muitos dos quais não passam de elefantes brancos hoje.
Para ser ter uma ideia, somente de 2014 a 2016 — era do governo petista — optou-se por sediar dois eventos de magnitude mundial, a Copa do Mundo que nos custou nada mais nada menos do que R$ 25,5 bilhões e a XXXI Olimpíada, que aconteceu no Rio de Janeiro, com o custo estimado em R$ 38,7 bilhões.

O fundo eleitoral é um “fundo público destinado ao financiamento das campanhas eleitorais dos candidatos”, segundo definição do TSE (Foto: Pinterest/Divulgação)

Perceberam para onde nossos hospitais, remédios, médicos e equipamentos, que deveriam estar atendendo à população nos dias de hoje foram parar?
Quanto ao futuro, bom, o futuro será fruto do que fizermos hoje e um dos deveres de casa são as necessárias reformas estruturantes na administração pública, na Justiça e na tributária. Na administrativa, aprimorar e reduzir custos, a máquina está enferrujada e, consequentemente, emperrada; na jurídica, que hoje tem um estoque de quase 80 milhões de processos judiciais, resultando em histórica insegurança jurídica e descrença no Poder Judiciário e, por último, a tributária que, segundo o Banco Mundial, sobre ambiente de negócios, o País ocupa a posição 184 entre 190 países no quesito “pagamento de impostos”, que é de 33%. Nossas empresas gastam, em média, 1.501 horas por ano para pagar todos os impostos, contra 256 horas na Colômbia e 139 horas na França.
Não sou de polarizar minhas opiniões, mas luto incessantemente, como a maioria da população, por uma política que deveria revelar senso de justiça, imparcialidade, isenção e neutralidade. Que punam os verdadeiros culpados, eu disse, os verdadeiros culpados, dos mais de 500 mil óbitos!

“Mas mudando de pau para cavaco, inacreditavelmente, o mesmo parlamento que investiga supostos atrasos e pagamentos superfaturados do governo federal, ajudou a aprovar os R$ 5,7 bilhões para o fundo eleitoral… Teta farta para os partidos, você não acha?”.

Haroldo Filho

Haroldo Filho

Jornalista – DRT: 0003818/ES Coordenador-geral da ONG Educar para Crescer

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