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Descoberta em Pompeia explica método do concreto romano durável

Achado preservado pelo Vesúvio em Pompeia revela que a técnica da “mistura quente” ajudava o concreto romano a se regenerar, garantindo resistência por milênios

Por Letícia Lima

Pompeia ainda guarda muitos segredos sob as ruínas deixadas pela erupção do Monte Vesúvio, na Itália. Agora, arqueólogos identificaram um canteiro de obras “congelado no tempo”, segundo pesquisa publicada na terça-feira, 9, na revista Nature Communications. A descoberta permite esclarecer quais ingredientes e métodos os romanos utilizavam na preparação do concreto autorregenerativo. Uma mistura muito usada na construção de algumas das estruturas mais duráveis do mundo antigo.
Durante as escavações, foram encontrados cômodos com paredes inacabadas, pilhas de material pré-misturado e ferramentas de medição. Com isso, foi possível visualizar um dos mais raros processos de construção romanos preservados em Pompeia. Após as análises, os cientistas descobriram que os romanos utilizavam uma técnica chamada “mistura quente”, que consistia em combinar cal viva diretamente com água e com agregados de rocha e cinza vulcânica. Essa combinação provocava uma reação química capaz de aquecer a massa.

Técnica que contradiz Vitrúvio
De acordo com informações repercutidas pela CNN Brasil, isso contraria o relato de Vitrúvio, arquiteto e engenheiro romano do século 1 a.C., que descrevia o uso de cal extinta pelos construtores antigos.  E para demonstrar a importância do achado, os cientistas explicaram no estudo que a técnica de mistura quente gerava fragmentos de cal que, ao se dissolverem e recristalizarem, curavam rachaduras naturalmente. Esse processo ajuda a explicar a notável durabilidade do concreto romano, capaz de resistir por milênios. Além disso, a descoberta também contribui para resolver contradições entre evidências arqueológicas recentes e os relatos deixados por Vitrúvio.
Admir Masic, professor do MIT e líder do estudo, afirma que analisar o canteiro de obras preservado em Pompeia foi como “viajar no tempo” e observar os trabalhadores romanos em ação. Segundo ele, a cidade oferece um cenário único, já que mantém materiais exatamente como estavam em 79 d.C., permitindo aos pesquisadores compreender processos construtivos antigos sem interferências de reformas posteriores.

Do passado à engenharia moderna
O edifício encontrado reunia um complexo doméstico e uma padaria ativa, equipada com fornos e áreas de armazenamento. As evidências indicam que a técnica descrita por Vitrúvio já estava ultrapassada naquele período. Marco Vitrúvio foi um dos arquitetos romanos mais influentes da história da arquitetura. Em seu livro “De Architectura”, ele afirmava que o concreto romano era feito a partir de cal extinta, areia ou cinza vulcânica e pedaços de pedra e entulho. No entanto, esse relato se contradiz ao sugerir que a cal era totalmente “apagada” antes de ser usada, o que resultaria em um processo frio, sem a reação quente agora identificada nas construções de Pompeia.
A compreensão de como esse material era produzido ajuda a explicar a monumentalidade de obras como o Coliseu, o Panteão, os aquedutos e os portos romanos, que atravessaram dois milênios. Além disso, ao revelar os processos que garantiram tamanha resistência, a descoberta em Pompeia também oferece pistas para o desenvolvimento de concretos modernos mais duráveis e de baixo carbono, capazes de prolongar a vida útil das construções atuais.

(Foto: Vaserman et al./Nature Communications)

Fonte: Aventuras na História

Luzimara Fernandes

Jornalista MTB 2358-ES

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