Paleo & Arqueologia

Hieróglifos: conheça a escrita sagrada do Antigo Egito

Entenda o que são hieróglifos e como eles se tornaram uma escrita sagrada para os antigos egípcios

Por Giovanna Gomes

As primeiras inscrições que atendem claramente aos critérios da escrita hieroglífica tal como ela é compreendida pelos egiptólogos surgiu juntamente com a formação do Estado faraônico no final do quarto milênio a.C.. Elas, que datam de cerca de 3150 a.C., já revelam características fundamentais do sistema, tais como a combinação de logogramas — sinais que representam diretamente objetos ou ideias — com signos de valor fonético, semelhantes, em função, às letras de um alfabeto. Muitos desses sinais fonéticos, inclusive, derivaram dos próprios logogramas. Um exemplo clássico é o hieróglifo da boca, 𓂋, chamado ra em egípcio, que passou a ser utilizado para representar o som “r” em palavras que continham esse fonema.
Entre os primeiros sinais figurativos organizados, houve aqueles foram gravados diretamente em grandes afloramentos rochosos — é o caso de uma inscrição descoberta recentemente em El Khawy — enquanto outros foram talhados em estátuas monumentais de pedra, a exemplo dos impressionantes colossos de calcário do santuário de Coptos. Além disso, sinais semelhantes aparecem em pequenos rótulos de marfim e em vasos depositados em tumbas de governantes, como as etiquetas encontradas no túmulo U-j, em Abidos. Ainda hoje, os estudiosos debatem se esses primeiros registros podem ser considerados escrita propriamente dita ou se funcionavam apenas como marcas simbólicas, sem uma relação direta e sistemática com a linguagem falada.

De acordo com informações do portal National Geographic, essas primeiras inscrições hieroglíficas eram, em geral, bastante breves. Frequentemente, limitavam-se a registrar nomes de reis, localidades ou títulos, e costumavam ser gravadas em objetos de caráter cerimonial, como paletas votivas. A célebre Paleta de Narmer é um exemplo emblemático: nela aparece o nome do rei Narmer, considerado o fundador do Egito unificado, escrito por meio de dois sinais — o bagre (𓆢) e o cinzel (𓍋) — inseridos dentro de um serekh, símbolo do palácio real e, por extensão, da realeza.
De modo semelhante, os nomes de cidades eram escritos dentro de um sinal que representava um recinto murado. Esses elementos gráficos, embora não fossem pronunciados, indicavam visualmente a categoria semântica do nome. Com o tempo, essa função classificatória passou a ser desempenhada pelos chamados determinativos, sinais mudos colocados ao final das palavras para esclarecer seu significado.

O poder da escrita
No Egito antigo, os hieróglifos iam muito além de um simples meio de comunicação prática. Os próprios egípcios chamavam sua escrita de medu netcher, isto é, “palavras do deus”, pois acreditavam que ela havia sido criada pelo deus Thoth e possuía um poder intrínseco, criativo e mágico. Os textos não eram concebidos apenas para serem lidos, mas, sobretudo, para agir no mundo, garantindo proteção e ordem. Por essa razão, os hieróglifos foram inscritos não só em papiros e estelas, mas também em templos, túmulos, estátuas, móveis, objetos funerários e até em itens do cotidiano, como roupas.
Os templos egípcios, em particular, costumavam ter suas paredes inteiramente cobertas por hieróglifos. Esse impacto visual não tinha finalidade meramente estética. O templo, chamado menu em egípcio — termo relacionado à ideia de permanência — era concebido como uma réplica simbólica do cosmos. Construídos em pedra para durar eternamente, esses edifícios representavam a ordem criada, em oposição ao caos primordial que existia fora de seus limites. Nas fachadas externas, relevos mostravam o faraó derrotando inimigos, uma metáfora visual da luta constante entre ordem e desordem.

Uso em cerimônias religiosas
No interior dos templos e túmulos, hieróglifos cobriam paredes do chão ao teto. Ali estavam registrados textos rituais recitados pelos sacerdotes diante das estátuas divinas, bem como inscrições que indicavam quem podia acessar determinados espaços sagrados e sob quais condições de pureza. Nas tumbas, os textos tinham a função de preservar a memória do morto e garantir sua sobrevivência no além. Em tumbas reais, esses escritos transformavam o espaço subterrâneo em uma representação física do submundo, pelo qual o faraó deveria transitar após a morte.
A prática de usar hieróglifos para descrever cerimônias religiosas e ritos funerários é muito antiga. Em alguns casos, as inscrições estavam diretamente ligadas à função do ambiente em que se encontravam. No templo de Khnum, em Esna, por exemplo, uma sala conhecida como “laboratório” traz inscrições que listam substâncias aromáticas ali armazenadas. Já no templo de Hathor, em Dendera, uma capela wabet dedicada à purificação ritual contém textos que descrevem os ritos necessários para o festival do Ano Novo.

Além das paredes monumentais, os hieróglifos também eram gravados em uma ampla variedade de objetos. Estelas de pedra podiam conter longos textos religiosos, decretos reais ou relatos de campanhas militares. Estátuas, embora muitas vezes apresentassem apenas nomes e títulos, ocasionalmente exibiam inscrições literárias extensas, incluindo autobiografias e genealogias detalhadas. Algumas foram projetadas especificamente para acomodar grandes quantidades de texto, como as chamadas estátuas em bloco. Um exemplo engenhoso é a estátua do escriba Nebmerutef, da 18.ª dinastia, representado lendo um papiro sob a supervisão do deus Thoth, com o texto de seus feitos inscrito diretamente no rolo sobre seu colo.

Contexto funerário
No contexto funerário, a escrita hieroglífica desempenhava um papel protetor essencial. Fórmulas mágicas extraídas de textos como o Livro dos Mortos eram inscritas em caixões, máscaras e bandagens de linho, especialmente a partir da 30.ª dinastia. Acreditava-se que, em contato direto com a múmia, essas palavras sagradas ofereciam proteção adicional durante a jornada para o além. Inscrições semelhantes apareciam em portas de túmulos, funcionando como barreiras simbólicas contra forças hostis.
Mas, apesar de sua aura sagrada, os egípcios também desenvolveram versões simplificadas da escrita para usos administrativos e literários. A escrita hierática, padronizada por volta da 2.ª dinastia, permitia uma escrita mais rápida com pincel e tinta, sendo utilizada em papiros. No século 7 a.C., surgiu uma forma ainda mais cursiva, o demótico, cujos sinais eram tão simplificados que sua origem hieroglífica se tornava quase irreconhecível. O demótico permaneceu em uso até o século 5 d.C., quando os próprios egípcios já haviam perdido a capacidade de compreender plenamente os hieróglifos.

(Foto: Getty Images)

Fonte: Aventuras na História

Luzimara Fernandes

Jornalista MTB 2358-ES

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