Chefe de Guerra: a história real do Rei Kamehameha I

Combinando força, estratégia e fé, Kamehameha I superou rivalidades internas e o impacto do colonialismo europeu para unificar o arquipélago do Havaí no fim do século 18
Robusto, temível e autoritário. Assim era descrito Kamehameha I, o primeiro monarca do efêmero, mas significativo Reino do Havaí. Seu nome, que pode ser traduzido como “aquele que se destaca”, antecipa a trajetória de um líder que desafiou os limites da aristocracia havaiana no fim do século 18, transformando-se não apenas no governante de um clã ou ilha, mas de uma nação inteira no Pacífico.
O personagem é um dos eixos da nova produção da Apple Tv+ — “Chefe de Guerra” — que estreou no dia 1.º de agosto, no streaming e retrata justamente este conturbado período. Em entrevista, seu intérprete — Kaina Makua — admite suas desconfianças e compartilha reflexões em relação ao papel do monarca.
Eu era um cético. Ouvia essas histórias dele matando pessoas para unificar o Havaí. Mas quando assumi uma posição de liderança na minha comunidade, comecei a entender como somos criticados mesmo quando fazemos o que é certo”.
Devoto ao deus havaiano da guerra, Kū, Kamehameha se destacou por sua força física, coragem em batalha e inteligência militar. Mas sua ascensão não se sustentou apenas na bravura — e muito menos apenas no armamento moderno trazido por europeus. Foi a habilidade política, a leitura das tradições religiosas e a compreensão estratégica do momento que permitiram ao guerreiro construir um reino unificado, num arquipélago então fragmentado em chefias rivais.
Um arquipélago de reinos
Antes do século 19, o Havaí era um conjunto de reinos independentes. Cada ilha — como Havaí (a Ilha Grande), Maui, Oahu, Kaua’i e outras — era governada por nobres conhecidos como ali‘i, que comandavam territórios chamados mokus. Essas chefias se baseavam em rígidos códigos religiosos (kanawai), que delimitavam desde o plantio das colheitas até comportamentos pessoais.
Práticas consideradas kapu (proibidas) podiam ser punidas com a morte.
Nessas sociedades hierárquicas, os chefes eram considerados próximos aos deuses, mas também precisavam demonstrar mana — uma combinação de autoridade espiritual e política — para manter sua legitimidade. O poder, como observou o historiador William H. Davenport, “não decorria automaticamente da posição sagrada herdada”.
O nascimento da lenda
O futuro rei nasceu provavelmente por volta de 1758, em North Kohala, na Ilha Grande. Era chamado de Pai‘ea. Sua mãe, a chefe Keku‘iapo‘i‘wa II, era de alta linhagem; o pai biológico pode ter sido Keōua, um importante chefe local, ou, segundo rumores, Kahekili II, soberano de Maui. O nascimento do menino coincidiu com o retorno do cometa Halley, o que levou sacerdotes a acreditar que ele cumpria uma antiga profecia: a de que uma criança nascida sob uma estrela brilhante governaria todo o Havaí.
A profecia, porém, também causou temor. Para muitos rivais, Pai‘ea representava um futuro conquistador perigoso. Para protegê-lo, sua mãe o escondeu em Waipi‘o, um vale sagrado e isolado. Só anos depois, já órfão de pai, ele retornaria à sua família, sendo acolhido pelo tio Kalani‘ōpu‘u, um dos chefes mais poderosos do arquipélago. Criado ao lado do primo Kīwala‘ō, herdeiro legítimo do tio, o jovem Kamehameha foi treinado em combate, estratégia e liderança. Mesmo sendo apenas um chefe júnior, comportava-se com a postura de um príncipe. Sua reputação crescia, tanto pela imponência física quanto pela habilidade em batalha.
A relação com os europeus começou ainda na juventude. Em 1778, o Capitão James Cook aportou nas ilhas durante sua busca por uma rota entre os oceanos Atlântico e Pacífico. Inicialmente bem recebido, Cook acabou sendo morto após conflitos com os locais, num episódio em que Kamehameha possivelmente esteve presente. A morte do britânico marcou o início de uma tensão duradoura entre havaianos e colonizadores.
A Pedra Naha
Antes de morrer, Kalani‘ōpu‘u deixou para o filho Kīwala‘ō a chefia de sua terra — mas confiou a guarda do deus da guerra Kū a Kamehameha. Esse gesto aumentou significativamente o prestígio do jovem chefe. Pouco depois, Kamehameha protagonizou um feito lendário: conseguiu mover a Pedra Naha, uma rocha sagrada que, segundo a tradição, só seria deslocada por quem estivesse destinado a unificar as ilhas. O episódio selou sua fama como líder predestinado e acirrou os conflitos com o primo. A rivalidade entre os dois culminaria em guerra. Kamehameha, agora apoiado por outros nobres poderosos, iniciou sua campanha para tomar o controle do arquipélago.
Guerra, diplomacia e poder
A conquista do Havaí não foi imediata. Ela exigiu alianças políticas, batalhas frequentes e uma mescla de tradição e inovação. Kamehameha soube se beneficiar do contato com ocidentais, adquirindo armas de fogo e canhões — ainda que, segundo o historiador Paul D’Arcy, o papel dessas tecnologias tenha sido superestimado. “As armas europeias eram em grande parte de baixa qualidade e pouco eficazes nas condições locais”, diz ele ao Nat Geo.
O próprio Kamehameha atribuía suas vitórias não às armas, mas ao favor do deus Kū. Em 1791, construiu o templo de Pu‘ukoholā Heiau, uma imponente estrutura de pedra dedicada à divindade da guerra, com a crença de que sua conclusão garantiria a unificação das ilhas. O templo, hoje monumento histórico dos EUA, simboliza o ponto de virada em sua campanha.
O Reino do Havaí
Com o tempo, Kamehameha venceu os rivais e consolidou seu domínio. Em vez de destruir seus adversários, soube integrá-los ao novo governo, mantendo uma delicada rede de alianças e respeito às tradições locais. Sua liderança marcou o início de uma era breve, porém decisiva, na história havaiana: a do Reino do Havaí unificado.
Hoje, o moderno estado americano do Havaí ocupa o território das oito ilhas principais que compuseram aquele reino. E embora a monarquia tenha desaparecido no final do século 19, o legado de Kamehameha permanece vivo — seja nos monumentos, na cultura ou na reverência a um líder que, com força e sabedoria, transformou o destino de seu povo.
Fonte: Aventuras na História