Criança e Coronavírus — Final

Crianças não estão imunes ao vírus e há casos graves relatados, mas em geral seu sistema imune responde de modo diferente à covid-19, segundo as evidências iniciais
Coronavírus. Coronavírus. Coronavírus. Esta é uma palavra que, atualmente, ecoa mais do que a ordem gritada de “para!!!”, no momento de uma travessura ou teimosia da criança. E esta palavra, vem muitas vezes acompanhada de “mortes”.
Como falamos no último texto, a invisibilidade do vírus torna impossível para a criança o processamento cognitivo da doença que ele impõe. Como associar morte a algo invisível, quando também a noção de morte ainda não foi adquirida porque ainda não foi adquirida a noção de irreversibilidade. Assim, com estas falhas na linha de pensamento, a criança é atingida com o sentimento crescente da IMPOTÊNCIA dos adultos naquele aquário seco onde está confinada com a família. Ela vê lá fora como se as paredes fossem de vidro, mas só pela visão virtual. O mundo lá fora, o real, ficou perigoso, pode causar a morte. A impotência dos adultos é transpirada pelos seus poros. E isto os torna mais agressivos, mais violentos. Nem sempre estes adultos conseguem controlar a irritabilidade, a raiva, já que lhes foi retirado o controle de sua vida. E ainda lhes é demandada a responsabilidade pelos filhos e pelos seus pais. Crianças e idosos lhes sobrecarregam. E, não esquecer aquela “máxima”, na verdade, aquela mínima: “você é grande, não pode chorar!”.
Sufocado, exposto à sua impotência, ele não mais sabe responder à pergunta que a criança faz a cada meia hora: quando é que o coronavírus vai embora?
O Medo é a angústia principal neste cenário. Sabemos que o Homem sofria de quatro angústias primordiais no início de sua História. Quais eram: a fome, o frio, a dor e o medo. Ao longo de sua progressão, termo usado com ressalvas, o Homem conseguiu resolver a fome, quando aprendeu a cultivar. Problemas políticos de desigualdade persistem, mas desenvolvemos técnicas que garantem, ou podem garantir, nossa alimentação. Conseguimos resolver o frio, com os mais variados aquecimentos. Apesar de continuarmos a morrer de frio nas ruas. Também a dor foi resolvida pela Medicina, com procedimentos cirúrgicos e analgésicos. Hoje temos uma Especialidade Médica, a Clínica da Dor, que nos oferece a analgesia até por interceptação de nervo sensitivo, com toda precisão.

Mas, o Medo. Ele continua. Não temos imunização para o Medo. Lembrando também, que ele é indispensável para a preservação da nossa vida. O Medo é nosso sinal de alerta para o perigo, em quantidades compatíveis com a ameaça que se desenha.
Neste momento, crianças e adultos, isolados, sem o contato social, sentem medo. Não conseguimos dimensionar o efeito da ausência dos contatos corporais entre nós. Não sabemos em quanto altera o desenvolvimento saudável de uma criança que, por causa de um invisível vírus letal, fica sem os muitos abraços diários, sem os muitos beijos, sem os muitos carinhos de colos. Não temos parâmetros. Não há como elencar variáveis para uma pesquisa. Como quantificar algo que é, essencialmente, qualitativo, posto que, nem todo contato com seu corpo é bem recebido.
A exposição ao Medo do adulto, dentro deste aquário seco, a sua casa, certamente, é nocivo a seu desenvolvimento. No entanto, não podemos fazer de outra maneira, já que esta é a determinação das autoridades sanitárias que estão buscando medidas de preservação da vida.
Talvez esta seja a oportunidade dolorosa e sofrida de aprendermos a lidar, com humildade, com um graúdo conflito. Todos os dias vivemos conflitos. Dos menores, escolher carne ou peixe numa mesa de restaurante, aos maiores, os que implicam em escolhas duradouras, em projetos de vida. A criança reduz ao máximo este momento do conflito porque ela ainda não tem à sua disposição um corolário de critérios de avaliação, seu desenvolvimento cognitivo está se processando. Então a pizza resolve sem nenhuma hesitação. Mas, pelas contingências atuais, ela está muito próxima do sofrimento dos adultos vivendo conflitos que são conduzidos pela impotência e medo. Finalizando, infelizmente, esta é uma situação que está acima de sua maturidade emocional. E, impotentes, teremos que aguardar. No momento, só acolhimento, limite, e bom senso.