Comportamento & Equilíbrio

A Violência contra a Mulher e a Criança. Suas diversas formas, cada vez mais naturalizadas — Parte XII

Cada espancamento mata um pouco a mulher. E, como é na maioria dos casos, diante dos filhos, mata também as Crianças

O espaço que há entre a letra da Lei, o entendimento e a execução da lei, é enorme. A tal ponto que, por vezes, não é possível reconhecer que se trata da mesma lei, tamanha a diferença. A escrita não altera a Cultura de determinado comportamento. O machismo estrutural, por exemplo, patrocina a violência doméstica que acontece a cada oito minutos, apesar da existência da Lei Maria da Penha. Fica evidente que uma lei não muda um comportamento. E mais, a divulgação de uma modalidade de violência parece se tornar o marketing para um aumento acentuado daquele tipo de violência. Tivemos a Juíza Viviane assassinada com 16 facadas, em frente a suas três filhas pequenas, no final da tarde da véspera do Natal. Desde então, assistimos a uma enorme inflação de casos de assassinatos de mulheres com chuvas de facadas.
Entrou em moda o Feminicídio a facadas. Ele contempla vários pontos favoráveis ao agressor criminoso: a catarse do ódio irracional, em seus desdobramentos. Este tipo de Feminicídio traz a crueza, a concretude do sangue nas mãos, do Poder Absoluto da Posse vivenciado a cores, e aos gritos. Barbarismo. Não tem a instantaneidade do tiro que cala e alardeia o estampido. Gritos que ecoam, mas não são escutados porque são a repetição dos espancamentos anteriores, dos pedidos de socorro que foram ouvidos e não atendidos por vizinhos e familiares. E se juntam à constatação do “ele está batendo nela de novo”. E, na verdade, ele está matando a mulher ou ex-mulher. De novo. Cada espancamento mata um pouco a mulher. E, como é na maioria dos casos, diante dos filhos, mata também as Crianças. Não há possibilidade de haver, como brada a justiça, uma mesma pessoa que seja um mau marido e um bom pai, ao mesmo tempo. Afinal, espancar a mãe da Criança é, no mínimo, desorganizar os processos de identificações que fazem parte fundamental do desenvolvimento. As duas principais figuras desses processos são a mãe e o pai. A Criança irá se identificar com a mãe, sofrendo as dores e a revolta pela opressão vivida nos espancamentos, ou irá se identificar com o pai opressor daquela mulher, na maioria das vezes por medo daquela fúria vista. Estas identificações sofrerão replicações ao longo da vida, e oprimida ou opressora, esta Criança repetirá este modelo nas suas relações afetivas e sociais, vida afora. Modelo nada saudável para uma sociedade.
A Violência da Omissão de Familiares, Amigos e Vizinhos, torna-se um pacto com o agressor, referendando e autorizando as agressões. Temos recentes exemplos disso que acabaram em tragédias. Mais uma Criança de quatro anos, morta a pontapés com o conhecimento e testemunho de várias pessoas, familiares e profissionais. Talvez tenham pensado que alguém iria resolver. A própria Criança? Cúmplices.
O Infanticídio foi aceito até o Século XVII. Os pais, homens, podiam matar os filhos, ou jogá-los nas masmorras para sempre. Até hoje, no entanto, é cometido no nosso País, por motivo torpe, principalmente como ato de Violência Vicária: “Não vou tocar um dedo em você, vou atingir o que você mais ama”. A sentença de morte está dada. Pode ser uma morte em vida como a que retira a Criança dos braços da mãe pelo uso da fraude que virou lei da alienação parental, essa locução inventada pelo médico pedófilo, sem nenhuma comprovação científica. Ou pode ser uma morte total, contribuindo para os números subnotificados de Infanticídios, dissimulados pela Sociedade e pelas Instituições que deveriam proteger.

Não seja conivente com a violência doméstica, denuncie no Disque 100

A Violência Social contra Mulheres e Adolescentes pega uma carona no veículo virtual. Todos se arvoram juízes implacáveis escondidos atrás de uma telinha de computador ou de celular. A começar pelas palavras usadas, as mais duras, ofensivas, e, por vezes, de baixo calão, são facadas que derrubam a dignidade daquele que está em julgamento sumário. Defesa? Contraditório? Não. É sumário. E, ao contrário do nosso sistema judiciário que é, infinitamente, Recursal, no tribunal virtual, não há nenhuma apelação. Insultos de grosso calibre têm levado ao desespero. Há algumas semanas, uma adolescente de Recife não suportou a pressão e se suicidou. Já foram alguns adolescentes, vítimas do linchamento virtual.
O Cyberbullying, bem estudado por Aloma Felizardo, tem cometido condenações a vulneráveis, chegando a levá-los à morte. A violência letal da terminologia usada é chocante. Os adjetivos desqualificativos brotam para esmagar a vítima, carregados de um caminhão de ódio, com mentiras travestidas de verdades, essas muito menos numerosas, meias-verdades, verdades distorcidas, e agora, o mais novo, as Pós-verdades, executam a aniquilação da pessoa que está sendo alvo. É o descompromisso total com o outro. A ausência absoluta de solidariedade e de empatia. E, a ânsia, a volúpia por um Poder Predador para satisfazer justiceiros arbitrários.

Ana Maria Iencarelli

Ana Maria Iencarelli

Psicanalista Clínica, especializada no atendimento a Crianças e Adolescentes. Presidente da ONG Vozes de Anjos.

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