Cultura

Lo Manh Hung: a história do mais jovem fotojornalista da Guerra do Vietnã

Com apenas 12 anos, Lo Manh Hung surpreendeu o mundo ao fotografar a Guerra do Vietnã, tornando-se o mais jovem fotojornalista a registrar o conflito

Por Giovanna Gomes

Enquanto a maioria das crianças tentava escapar dos horrores da guerra, um garoto franzino com uma câmera pendurada no pescoço corria na direção oposta. Com apenas 12 anos, Lo Manh Hung tornou-se o mais jovem fotojornalista da Guerra do Vietnã. O pequeno era filho de Lo Vinh, um experiente fotógrafo freelancer, com quem aprendeu as técnicas que usaria para registrar o conflito.
A baixa estatura, que poderia ser uma desvantagem, revelou-se uma aliada. Afinal, o menino conseguia se infiltrar por entre escombros, escapar de tiroteios e alcançar lugares onde adultos jamais conseguiriam passar. Mas ser criança em meio à guerra também o expunha a constantes interrogatórios da polícia e das forças armadas, que duvidavam da legitimidade de seu trabalho. Ainda assim, com as credenciais do pai e uma coragem fora do comum, Hung conquistou respeito entre os repórteres veteranos e ganhou espaço na cobertura jornalística do conflito.

Durante a Ofensiva do Tet, em 1968, um dos episódios mais violentos e decisivos da guerra, Hung chamou a atenção ao seguir soldados do exército sul-vietnamita (ARVN) até as áreas controladas pelos vietcongues em Saigon, registrando imagens de uma guerra urbana brutal. Vendia essas fotos para jornais locais e agências internacionais por 10 dólares o rolo — o suficiente para sustentar sua família por um mês inteiro.

Mas nem tudo o que capturou sobreviveu. De acordo com o portal Rare Historical Photos, quando os norte-vietnamitas tomaram o sul do país em 1975, Hung teve apenas minutos para fugir. Subiu às pressas em um helicóptero lotado, com soldados o segurando pela perna, enquanto a aeronave decolava. Perdeu, naquele instante, todas as suas fotos e negativos que carregava consigo. Décadas depois, mudou-se para San Francisco, onde montou sua própria loja de fotografia.

Em 1998, Hung surpreendeu o renomado ex-fotógrafo da Associated Press, Horst Faas, ao mostrar-lhe uma foto antiga: ele próprio, com um capacete onde se lia “PRESS”, estampado na testa, e um recorte de jornal plastificado com a manchete: “Menino, 12, em trabalhos perigosos”. Faas, emocionado, disse: “esse garoto, eu nem sabia que ele estava vivo. Estou feliz, muito feliz, em vê-lo”.

De fato, o mundo conheceu Lo Manh Hung por meio de uma matéria publicada em 14 de fevereiro de 1968 pelo Southeast Missourian, intitulada “Menino fotógrafo busca o perigo enquanto outros fogem”. O texto descreve o garoto de pouco mais de 60 libras (aproximadamente 27 kg), correndo pelas ruas bombardeadas de Saigon, sempre em busca do próximo clique. Ele já atuava profissionalmente havia dois anos, desde que seu pai se feriu durante um tumulto e passou a depender do filho para continuar trabalhando.

Pai e filho eram o mais velho e o mais jovem fotógrafos da cidade. Acordavam às cinco da manhã e trabalhavam até depois das nove da noite, sem folgas. Em tempos de relativa calma, cobriam casamentos, chegadas de autoridades e incêndios. Já em tempos de guerra, documentavam o caos.

Hung também processava os filmes, fazia impressões e as levava para jornais e agências de notícias. Era vendedor, repórter e mensageiro, tudo ao mesmo tempo. Seu tamanho lhe rendia vantagem em coletivas de imprensa: serpenteava por entre repórteres mais velhos e conseguia o melhor ângulo, sem nunca bloquear a visão dos demais — que, por isso, deixavam-no em paz.

Mas, apesar da habilidade e da fama precoce, o maior desafio de Hung sempre foi provar que era, de fato, um fotojornalista. A polícia frequentemente o barrava nos portões de prédios oficiais. “Para onde você acha que está indo?”, perguntavam. Ele respondia com calma, mostrava seus equipamentos, seus documentos e, então, era liberado.

Fonte: Aventuras na História

Luzimara Fernandes

Luzimara Fernandes

Jornalista MTB 2358-ES

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