Economia

A importância estratégica da cultura da cana-de-açúcar para o Espírito Santo

Por Robson Valle

A proporção de etanol na mistura combustível com gasolina pura aumentou, em agosto de 2025, dos atuais 27% para 30%, resultando em uma mistura que deveria ser conhecida, por rigor técnico, como gasool. Isso suscita uma reflexão: qual a importância estratégica da cultura da cana-de-açúcar para o Espírito Santo?
Ao contrário do que muitos pensam, a cana-de-açúcar (Saccharum officinarum) não é nativa do Brasil, mas do sudeste asiático e para cá foi trazida pelos portugueses, no século XVI, inicialmente para a capitania de Pernambuco. Como é bem conhecido, seu cultivo para a produção de açúcar foi o principal modo econômico no período colonial, em especial no Nordeste, moldando relações sociais e culturais que perduram até os dias de hoje.

De certa forma, não é possível pensar no desenvolvimento do Brasil e sua história (incluindo os aspectos que nos envergonham, como a escravidão), dissociando-se da cultura da cana-de-açúcar aqui estabelecida. Atualmente, o Brasil é o maior produtor de cana-de-açúcar do mundo.

No Espírito Santo, a cana-de-açúcar foi introduzida por Vasco Fernandes Coutinho, donatário desta capitania hereditária, quando incentivou a instalação dos primeiros engenhos para produção de açúcar. Até 1850, essa cultura foi o principal produto agrícola capixaba, tendo sido substituído posteriormente, em importância econômica, pelo café.

Atualmente, representa um segmento significativo da estrutura econômica capixaba, na produção industrial de bioetanol em suas fábricas (tradicionalmente conhecidas por “usinas”), também produtoras de açúcar. Alguns dados deste setor seguem abaixo.

Usina de álcool (Foto: Freepik)

O Brasil é o maior produtor e exportador mundial de açúcar; na safra 2020/21, respondeu por aproximadamente 23% da produção e por 51,3% do comércio global do produto. Segundo dados do IBGE, em 2022, a produção de cana no Espírito Santo alcançou 3,1 milhões de toneladas, em uma área plantada de 52.697 hectares com produtividade de 59 toneladas por hectare. A cana-de-açúcar tem uma relevância muito grande para Linhares, que concentra 35% da produção do Estado”. (Fonte: https://incaper.es.gov.br/Not%C3%ADcia/oficina-do-pedeag-4-aborda-cadeia-produtiva-da-cana-de-acucar).

Em um passado recente (nos tempos do Proálcool, programa federal iniciado em 1975), “usinas de álcool” ocuparam em maior número e relevância a paisagem econômica do norte capixaba, quando estiveram presentes em São Mateus, Montanha, Linhares, Boa Esperança, Conceição da Barra, Pedro Canário e na região sul, em Cachoeiro do Itapemirim, com destaque para sua significativa produção também de açúcar. Atualmente somente os municípios de Linhares, Conceição da Barra e Cachoeiro do Itapemirim concentram a produção de bioetanol em nosso Estado, gerando emprego e renda através de técnicas modernas e sustentáveis de produção agroindustrial. Argumentos que a produção de bioetanol são realizadas com base em “queimadas” poluentes e exploração de mão de obra local não se sustentam em uma observação minimamente rigorosa e se baseiam em preconceitos ideológicos anacrônicos.

A importância do bioetanol é central no Brasil, em virtude de seu uso combustível e sua produção sustentável. Os veículos do tipo flexfuel, introduzidos no mercado automotivo nacional em 2003, atualmente respondem por cerca de 90% das vendas anuais deste modelo bicombustível (estimativas da ANFAVEA). Estes veículos podem ser abastecidos tanto pelo gasool, como por bioetanol puro, por livre escolha dos consumidores.

É curioso observar a existência de certo modismo no seio da sociedade quando se aborda a sustentabilidade ambiental dos “automóveis elétricos”, apenas por não utilizarem combustíveis fósseis. É frágil a argumentação de sustentabilidade destes automóveis em relação a automóveis com motores de automóveis totalmente movidos a bioetanol (Ciclo Otto adaptado, idealizado no Brasil). Em veículos elétricos que usam baterias tracionárias (geralmente de íons de lítio), é alto o custo ambiental e de energia para extração dos minerais constituintes das baterias, sua transformação em escala industrial para atendimento à demanda automotiva e até a questão ainda pouco resolvida sobre o descarte em grande escala destas baterias. O automóvel sustentável e “ecológico” é portanto, aquele movido por 100% bioetanol.

Para a produção de bioetanol “basta” plantar a cana-de-açúcar, sendo seu custo ambiental baixo por ocupar áreas de baixo valor econômico para outras culturas ou até degradadas. Neste processo, seu insumo básico é a biomassa (“cana”). A moagem da planta fornecerá caldo, e seu “bagaço” destinado para acionamento de caldeiras para geração de vapor tanto para o uso industrial (produção de bioetanol e açúcar) como para a geração de energia elétrica em grande escala, em um processo conhecido por cogeração (ciclo Rankine). O balanço global de carbono é totalmente favorável ao ambiente, da “muda da planta” ao escapamento do carro.

Fonte: Airton Silva (https://pt.linkedin.com/posts/airton-silva-0346311a3_fluxograma-b%C3%A1sico-produ%C3%A7%C3%A3o-a%C3%A7%C3%BAcar-e-etanol-activity-6709511911337160704-QPde)

Motores totalmente movidos por bioetanol são conhecidos desde a década de 80, no âmbito do Programa Proálcool, quando foram cerca de 94 % da produção automotiva de 1984. Por uma séria de motivos que merecem maior análise (como o “contrachoque” do petróleo a partir de 1986), este programa foi abandonado. Sua retomada se daria em um patamar tecnológico elevado.

Apoiar a cultura da cana, no Espírito Santo, recuperando um programa energético baseado em bioetanol (incluindo os de segunda geração, E2G) traria o Brasil para enorme destaque em um mundo ávido por “transição energética”, além de abrir espaço para discutir a recuperação da enorme rede de “usinas” que existiram em seu apogeu. O Espírito Santo já conheceu esta enorme rede de “usinas”, teria, portanto, protagonismo na retomada deste setor produtivo.

Robson Valle
Engenheiro químico, vice-presidente da Associação Profissional dos Químicos do ES (Aproquimes)
Página pessoal: https://rvalle.com.br/eqes/

Luzimara Fernandes

Luzimara Fernandes

Jornalista MTB 2358-ES

Related Posts

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

EnglishPortugueseSpanish