Alienação Parental, mentiras e o lobby eficiente — Parte I
O mais cruel e enlouquecido é que vai sendo efetivada a legalização do estupro de vulnerável, termo técnico-jurídico para todo e qualquer ato de lascívia
Há algumas semanas, deparei-me com mais um artigo, sobre alienação parental, pleno de erros, desinformações, de Sofismas que se assemelhavam ao clássico exemplo do be-a-bá das primeiras noções do estudo da Filosofia: “ursos são animais, ursa maior é uma constelação de estrelas, logo, ursos são estrelas”. Era um Editorial de um Jornal de grande circulação. O artigo que traz o posicionamento de um veículo de comunicação no país. E perguntei-me, mais uma vez: por que a mentira, as mentiras são tão facilmente espalhadas? A desinformação — que nega todas as numerosas informações científicas e clínicas, robustas, com comprovação, e de acesso explícito — podem ser chamadas de mentiras estratégicas.
A pergunta seguinte refere-se ao serviço prestado pelas mentiras em pauta. A quem servem? A mentira, por exemplo, de que, se for revogada a lei 12.318/2010, as crianças ficarão sem proteção, parece estar pendurada num fio de teia de aranha. Essa lei protege — como explicitou o inventor do termo alienação parental, que nunca foi reconhecido pelas Associações Científicas, nem pela OMS — o agressor. Foi esse o objetivo do médico generalista e, também, pedófilo, Gardner, quando inventou esse termo e instruiu os genitores acusados de abusos sexuais. Isto é comprovado na leitura de seu livro “True and falses accusations of child Sex abuses”. Ele escreveu: “as atividades sexuais entre adultos e crianças fazem parte do repertório natural da sexualidade humana, são benéficas para a criança, pois a tornam sexualizada e a fazem ansiar pelas experiências sexuais da procriação, garantindo a preservação da espécie”. Ele escreve que não é o abuso sexual praticado pelo pai que traumatiza a criança, é a resposta draconiana da sociedade, é a não aceitação dessas práticas que causa trauma. E aqui ele culpa a mãe, porque ela não “cumpriu” devidamente suas obrigações conjugais com o marido e porque ela reagiu de “maneira histérica” à violação da criança pelo genitor. Como afirma, citado acima, o estupro incestuoso é natural no repertório da sexualidade humana.

Este livro, como os outros, são recheados de proclamação de aberrações, todas na direção da naturalização do incesto. Ele aconselha os terapeutas de mães de crianças abusadas a estimularem a masturbação nelas mesmas, com o uso de vibradores, para que se tornem mais sexualizadas e possam atrair de volta o marido que passou a usar a filha ou filho. É categórico em afirmar que o abusador não deve ser afastado de casa, que ele precisa ser bem acolhido, porque esse comportamento é normal. E ainda sugere que as crianças abusadas por seus pais devem assistir a filmes, o termo da época era videocassete, de outras crianças sendo abusadas ou registro delas mesmas para que se acostumem e entendam que é normal o que os genitores fazem com suas crianças. Criança e psicólogo sentados assistindo videocassetes de barbaridades, para esse senhor, seria terapêutico.
Gardner era próximo de Kinsey, que inventou a Escala da sexualidade da criança, que permitia medir a curva de orgasmos diários que uma criança pode ter. O laboratório humano composto por órfãos da guerra lhe fornecia a possibilidade de contar o que chamou de orgasmo na infância. Evidentemente, está lá na escala, que os sete orgasmos diários de um bebê de oito meses, por exemplo, eram resultado de manipulação de seus órgãos genitais, obtidos por um adulto, um técnico de laboratório, como devia ser identificado. E todos os dias aquelas crianças, de meses, de dois, três, quatro, seis, sete anos, (acho que a amostra era de zero a sete anos), eram aferidos em seus “orgasmos”. Kinsey parece ter fornecido a convicção do gozo sexual na infância para Gardner, que defende a naturalização do abuso sexual intrafamiliar.
Será que o veículo que defendeu a permanência da lei de alienação parental buscou o acesso a essas informações registradas em livros? Não é opinião, não é disputa de guarda, alcunha também errada, é uma lei emboscada que protege o adulto agressor. Gardner emitiu mais de 400 laudos inocentando pais abusadores com o que ele instruiu: pai acusado de abuso sexual tem que girar o holofote para a mãe. E, assim, vai se safar da acusação.

O mais cruel e enlouquecido é que vai sendo efetivada a legalização do estupro de vulnerável, termo técnico-jurídico para todo e qualquer ato de lascívia. O abuso incestuoso é evaporado pela fraudulenta reativa de um pobre pai que está sendo alienado, impedido de conviver com o filho ou filha. Então, com nos ursos que viram estrelas, a justiça se encarrega de alienar a mãe que ganha uma tarja de louca, ressentida, rancorosa, a alienadora é alienada, legalmente. Interessante, não? Afastar o pai porque ele está abusando do filho ou filha, não pode. Vai ser impossível a criança se desenvolver sem aquele pai. Mas fazer desaparecer a mãe para a criança, isso pode, e não faz nem um malzinho. A justiça entrega a criança abusada a seu abusador. Afinal, a mãe é alienadora, coisa que nem existe cientificamente. Isso não tem nenhum problema? Se o crime de estupro de vulnerável é um crime quase perfeito, não deixa rastros, com a ajudinha da “lei”, a falsa acusação de prática de alienação prescinde de provas, basta a voz grossa afirmar. Mulheres são todas loucas. E, diante de uma lei testosterona, nunca mais ela deixa de ser considerada alienadora. Nunca.
A criança vai ser massacrada até deixar de relatar os abusos. São infinitos “estudos”, praticando a revitimização continuada. À exaustão. O ECA, que garante a Proteção Integral da Criança é desprezado. Uma lei que é inspiração para inúmeros países, considerada primorosa, não vale nada quando entra a supremacia da lei de alienação parental para acobertar crimes contra o corpo e a mente da criança. Assim, tanto o ECA, como a Lei Maria da Penha — outro exemplar de qualidade invejável, leis brilhantes — acabam sendo desidratados. Ambas, leis de Proteção de Vulneráveis. Ambas, leis que abraçam a Maternidade. Coincidência?
(Foto de capa: Pinterest)






