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A estação da corrosão, por que o verão e as chuvas de dezembro exigem atenção redobrada

Matéria publicada na revista Aço5.0BR

Dezembro sempre chega com o brilho das luzes, o movimento das cidades, o cheiro de expectativas e a sensação coletiva de encerramento de ciclo. É o mês em que as pessoas diminuem o ritmo, fazem balanços, alinham pausas e planejam reencontros. Enquanto o país se prepara para o Natal, a corrosão, silenciosa e persistente, encontra justamente nesse período suas condições mais favoráveis para avançar. E se há uma verdade que a engenharia conhece bem, é esta: a corrosão não tira férias.

Fonte: https://www.metallightsolar.com/informacoes

O clima tropical do Brasil transforma dezembro em uma estação crítica. As chuvas de verão são diárias em grande parte do território, a umidade relativa ultrapassa facilmente os 75 por cento, limite em que os mecanismos de oxidação aceleram, e as temperaturas elevadas criam ciclos constantes de molhamento e secagem. Essa alternância, tão característica do verão, é um catalisador poderoso: intensifica a condutividade da película eletrolítica sobre o metal, reativa células galvânicas adormecidas e aumenta a mobilidade iônica. É um cenário perfeito para que estruturas metálicas, antes estáveis, comecem a demonstrar sinais de fragilidade.

Regiões litorâneas ainda recebem um agravante: a névoa salina impulsionada pelos ventos quentes de fim de ano. Para ativos industriais próximos ao mar, ou para instalações offshore, dezembro marca a intensificação das atmosferas classificadas como C5, ambientes altamente corrosivos, onde cada centímetro quadrado de aço exige atenção. Nessas áreas, o desafio não é apenas conter a corrosão, mas antecipar seu comportamento diante da combinação agressiva de maresia, calor e umidade.

A situação se torna ainda mais delicada dentro das empresas. O fim do ano traz revezamento de equipes, redução de quadros e manutenção de rotina menos frequente. As inspeções visuais rápidas substituem rondas completas, e pequenas anomalias que apareceriam em um dia comum acabam passando despercebidas. É justamente nesses intervalos que surgem empolamentos incipientes, falhas pontuais de película, microfissuras, corrosão sob isolamento e pontos ativos em tubulações expostas. A corrosão avança quando ninguém está olhando, e dezembro, infelizmente, é o mês em que menos se olha.

Áreas próximas ao solo costumam ser as primeiras a sofrer. A umidade capilar, associada ao acúmulo de água das chuvas, cria zonas permanentemente molhadas, inimigas de qualquer revestimento protetivo. Bases metálicas, suportes, tubulações de drenagem e estruturas que permanecem em contato com a água da chuva entram em estado de vulnerabilidade ampliada. Em unidades industriais com operação intensificada para atender demandas do fim de ano, esse efeito se multiplica: maior temperatura de processo significa maior condensação e, consequentemente, maior risco de corrosão sob isolamento.

Mas há boas notícias. Grande parte desses processos pode ser mitigada com ações de baixo custo e alto impacto, desde que realizadas antes do recesso. Uma ronda técnica reforçada no início de dezembro é capaz de evitar falhas que, detectadas apenas em janeiro, já teriam se transformado em intervenções maiores. Testes simples, como aderência, espessura seca, holiday test e exames direcionados em splash zones, ajudam a identificar fragilidades iminentes. Pequenas correções feitas antes do feriado, um retoque de filme, um reparo pontual, uma reanálise de proteção catódica, equivalem a prevenir meses de progresso corrosivo.

Oxidação corrosão ferrugem (Foto: Reprodução)

Planejar a manutenção preditiva considerando a sazonalidade é uma estratégia que empresas maduras já adotam. Se dezembro é o mês mais agressivo para o aço, outubro e novembro se tornam meses ideais para inspeções profundas. A engenharia de integridade tem cada vez mais se comportado como um calendário técnico que acompanha o ciclo natural das atmosferas, transformando o clima em variável oficial de gestão.

E há, neste período, um simbolismo que vale ser lembrado. Natal é tempo de cuidado, de preparação para um novo ciclo, de rever prioridades e reforçar o que importa. A proteção anticorrosiva carrega esse mesmo espírito. É um ato de prevenção, de responsabilidade e de respeito ao futuro da estrutura. Assim como cuidamos da casa para receber a família no fim do ano, cuidar das estruturas é preparar o ambiente para operar com segurança no ano seguinte.
Dezembro passa, mas os efeitos dele ficam. Os danos iniciados no verão só se revelam completamente meses depois, quando o custo da correção já se multiplicou. Por isso, adotar uma postura preventiva antes do recesso é não apenas uma decisão técnica acertada, mas um presente silencioso que a engenharia entrega ao futuro da empresa.

Que este ano inspire também um olhar atento sobre aquilo que sustenta, protege e mantém o mundo funcionando: a integridade de quem cuida e das estruturas que dependem desse cuidado. Porque a corrosão, ao contrário de nós, não entra em recesso. E todo material não protegido, cedo ou tarde, encontrará seu próprio dezembro.
A todos os leitores da Aço 5.0BR, em especial da coluna Formação e Educação, desejo um Natal de serenidade e um novo ano repleto de aprendizados, prudência e ótimas conquistas. Que 2026 seja um ciclo de consciência, preparo e integridade, para nós e para as estruturas em que confiamos.

Carbono versus inox (Foto de capa: Reprodução)

Willians Lima

Especialista em Revestimento Anticorrosivo

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