Após quase desaparecer da Europa, o pelicano-dálmata começa a voltar
Nos Bálcãs, o pelicano-dálmata volta graças à restauração ambiental de zonas úmidas e ao avanço da conservação da natureza em toda a Europa
Por Maria Heloisa Barbosa Borges
O pelicano-dálmata, uma das aves reprodutoras mais impressionantes da Europa, está retomando espaço no sudeste europeu após quase desaparecer de partes do continente. A recuperação ocorre em zonas úmidas da Romênia, Bulgária, Grécia e Ucrânia, com ações concentradas na rota migratória entre o Mediterrâneo e o Mar Negro, onde hoje vivem cerca de oito mil casais reprodutores.
Essa virada ganhou tração ao longo de seis anos de trabalho conjunto com restauração de habitat, redução de ameaças e mobilização comunitária. O esforço, conhecido como Pelican Way of LIFE, reforçou colônias, criou condições para novas áreas de reprodução e reposicionou o pelicano-dálmata como símbolo prático de como zonas úmidas vivas sustentam biodiversidade e pessoas.
O pelicano-dálmata funciona como um termômetro ambiental porque depende de condições muito específicas. Para se reproduzir e descansar, precisa de águas calmas, com populações abundantes de peixes e áreas extensas, rasas e alagadas, típicas de zonas úmidas bem conectadas. Quando essas áreas são drenadas, fragmentadas ou degradadas, a espécie perde locais de nidificação, rotas seguras de voo e pontos de alimentação. Proteger o pelicano-dálmata significa, na prática, proteger o conjunto do ecossistema, do fluxo de água às cadeias alimentares que sustentam inúmeras outras espécies.
Apesar do status icônico, o pelicano-dálmata é descrito como “Quase Ameaçado” na Lista Vermelha da IUCN e enfrenta vulnerabilidades recorrentes em toda a sua distribuição. Entre os fatores de declínio, se destacam zonas úmidas drenadas e fragmentadas, a destruição de colônias de reprodução, a caça ilegal e colisões fatais com linhas de energia.
No sudeste da Europa, onde a população ligada à rota Mediterrâneo e Mar Negro se concentra, essas pressões se somam a perturbações humanas em áreas sensíveis. O resultado costuma ser silencioso, mas cumulativo, com menos sucesso reprodutivo, mais mortalidade e colônias que deixam de se manter no longo prazo.
O Pelican Way of LIFE atuou em 27 sítios Natura 2000 na Romênia, Bulgária, Grécia e Ucrânia, incluindo a paisagem de renaturalização do Delta do Danúbio. Além disso, o desenvolvimento de capacidades e pesquisa também recebeu apoio na Turquia, Albânia, Montenegro e Macedônia do Norte, ampliando a articulação regional. As medidas combinadas seguiram um princípio central: proteger a reprodução, reduzir mortalidade evitável e recuperar a funcionalidade das zonas úmidas. Isso incluiu melhorias de habitat, ações de mitigação em infraestrutura e presença constante em campo para reduzir perturbações e atividades ilegais.

Uma das frentes mais diretas foi reduzir mortes do pelicano-dálmata por colisões com linhas de energia.
A iniciativa instalou milhares de dispositivos de desvio de aves, aumentando a visibilidade de mais de 10 km de cabos elétricos em rotas de voo críticas. Para aves com pouca capacidade de manobra, esse tipo de adaptação muda o risco de vida diariamente, especialmente em deslocamentos entre áreas alagadas.
Em paralelo, foram implementados sete programas de patrulhamento para monitorar colônias e prevenir perturbações durante a época reprodutiva, além de coibir caça ilegal. Outra medida concreta foi a instalação de 12 plataformas de reprodução, incluindo estruturas construídas na parte ucraniana do Delta do Danúbio, na ilha de Ermakiv, como solução de nidificação temporária enquanto a restauração de áreas úmidas avança.
Números que mostram a virada nos Bálcãs desde 2024
Os resultados começaram a aparecer com mais clareza nos levantamentos recentes. Em 2024, o sétimo censo internacional registrou aumento populacional de 10% em relação ao ano anterior nos Bálcãs, sinalizando um movimento consistente de recuperação. Além disso, duas novas colônias de reprodução foram estabelecidas na Bulgária e, em 2025, essas colônias já abrigaram mais de 100 ninhos. A criação de novas colônias é um marco estratégico, porque indica expansão da área reprodutiva e redução da dependência de poucos núcleos tradicionais, aumentando a resiliência populacional. A iniciativa também reforçou o conhecimento sobre o comportamento do pelicano-dálmata, conectando ciência e decisões práticas de conservação.
Equipes na Grécia, Bulgária e Romênia anilharam 300 aves e instalaram 24 transmissores GPS, gerando dados sobre rotas migratórias, áreas de alimentação e padrões reprodutivos. Entender onde o pelicano-dálmata voa, pousa e se alimenta define onde proteger primeiro, onde reduzir risco em infraestrutura e quais zonas úmidas precisam de conectividade hídrica para funcionar como corredores ecológicos.
Esse monitoramento ajuda a orientar decisões futuras e sustenta uma abordagem unificada entre países que compartilham a mesma população migratória. A iniciativa Pelican Way of LIFE foi coordenada pela Rewilding Europe e financiada pelo Programa LIFE da União Europeia e pela Arcadia , o fundo de caridade de Lisbet Rausing e Peter Baldwin, com a assistência do Whitley Fund for Nature na Bulgária e do Green Fund na Grécia.
(Foto de capa: Freepik)
Fonte: Click Petróleo e Gás







