Marsmanda: a cidade de ferro perdida da Rota da Seda
Escavações nas terras altas do Uzbequistão podem estar revelando a cidade perdida de Marsmanda, uma metrópole produtora de ferro do auge da Rota da Seda
Por Éric Moreira
Uma equipe internacional de arqueólogos identificou, nas montanhas do Uzbequistão, um vasto assentamento medieval em alta altitude que pode corresponder à lendária cidade perdida de Marsmanda, mencionada em fontes árabes do século 10 como um importante centro produtor de ferro da Ásia Central. O sítio, conhecido atualmente como Tugunbulak, está localizado a cerca de 2.100 metros acima do nível do mar e cobre aproximadamente 120 hectares — uma área cerca de duas vezes maior que Pompeia.
As escavações são codirigidas por Michael Frachetti, da Universidade de Washington em St. Louis, Farhod Maksudov, do Centro Nacional de Arqueologia do Uzbequistão, e Sanjyot Mehendale, da Universidade da Califórnia, Berkeley. O projeto combina métodos tradicionais de escavação com tecnologias de mapeamento por drones equipados com LiDAR, que permitiram identificar estruturas extensas e sutis em uma paisagem montanhosa aberta.
O assentamento apresenta indícios de urbanização complexa, incluindo muralhas, torres defensivas, edifícios monumentais e centenas de estruturas em terraços. Os pesquisadores identificaram pelo menos quatro setores distintos, entre eles uma área fortificada com múltiplas construções robustas. Escavações revelaram edifícios feitos de taipa com paredes espessas, fornos industriais e grandes quantidades de escória, indicando produção metalúrgica em larga escala desde pelo menos o século 6 d.C., período de expansão do Primeiro Canato Turco.
Vestígios arqueológicos sugerem que Tugunbulak foi um importante centro de extração, fundição e processamento de ferro, capaz de produzir armas, ferramentas agrícolas e possivelmente aço de qualidade inferior. Especialistas afirmam que a quantidade de resíduos metalúrgicos demonstra que sociedades nômades da Ásia Central eram plenamente capazes de realizar fundição em escala industrial, contrariando visões tradicionais que as descrevem como tecnologicamente dependentes de centros urbanos sedentários.
A equipe também identificou sepultamentos incomuns, incluindo o de um guerreiro turco enterrado com um cavalo e diversos artefatos, como armas, joias e moedas. Uma das moedas apresenta uma inscrição em sogdiano e data do século 7 d.C., reforçando conexões com redes comerciais regionais. Esses achados são raros na região e indicam a presença de elites militares associadas às tradições turcas, repercute a Smithsonian Magazine.
Tashbulak
A poucos quilômetros de Tugunbulak, os arqueólogos haviam escavado anteriormente o sítio de Tashbulak, um assentamento menor ocupado entre aproximadamente 730 e 1050 d.C. Tashbulak abrigava uma população estimada em cerca de 500 pessoas, que aumentava sazonalmente com a chegada de pastores. O local continha uma cidadela, oficinas metalúrgicas, áreas residenciais e um grande cemitério islâmico, sugerindo a adoção relativamente precoce do Islã fora dos grandes centros urbanos da Ásia Central.
As evidências indicam que Tashbulak pode ter funcionado como um assentamento associado ou subordinado a Tugunbulak, possivelmente ocupado por comunidades que haviam adotado práticas islâmicas distintas. A descoberta de Tugunbulak alterou a interpretação inicial de Tashbulak, revelando que este fazia parte de um sistema urbano mais amplo nas terras altas.

História de Marsmanda
Fontes históricas árabes descrevem Marsmanda como uma cidade montanhosa de clima rigoroso, conhecida por seus prados e, sobretudo, por sua produção de ferro, que atraía pessoas de regiões distantes. Essas descrições coincidem com as características do sítio de Tugunbulak. Embora a identificação definitiva ainda dependa de análises adicionais, muitos especialistas consideram plausível que o assentamento corresponda à cidade perdida.
A descoberta reforça novas interpretações sobre a formação e o funcionamento da Rota da Seda. Em vez de serem apenas forasteiros ou saqueadores, os pastores das terras altas teriam desempenhado um papel ativo e central na circulação de mercadorias, tecnologias e crenças muito antes da consolidação das rotas comerciais clássicas. Evidências de comércio de grãos, frutas e outros produtos indicam uma forte integração entre comunidades montanhosas e cidades das terras baixas, como Samarcanda.
Há debate entre os pesquisadores sobre quem controlava politicamente Tugunbulak. Alguns defendem que o assentamento era governado por uma elite turca autônoma; outros sugerem domínio sogdiano, com guerreiros turcos atuando como mercenários. Independentemente disso, o sítio prosperou por vários séculos antes de ser praticamente abandonado por volta de 1050 d.C., possivelmente em razão de fatores ambientais, como secas e desmatamento, ou da concorrência de outras fontes de ferro.
Especialistas não envolvidos no projeto afirmam que a descoberta tem potencial para reescrever aspectos centrais da história da Ásia Central medieval. Os pesquisadores planejam retornar ao local em futuras temporadas de escavação, com o objetivo de investigar áreas que podem ter abrigado o centro administrativo da cidade e aprofundar a compreensão sobre o papel do chamado “urbanismo nômade” na evolução da Rota da Seda.
(Foto de capa: Divulgação/Michael Frachetti)
Fonte: Aventuras na História





