Comportamento & Equilíbrio

Alienação parental, mentiras e lobby eficiente — Parte III

Curioso observar que esses processos começam pela reação à denúncia de comportamentos inadequados do genitor que, por isso, como retaliação, acusa a mãe de estar praticando atos de alienação

Joseph Goebbels, ministro da Propaganda de Governo Nazista de Hitler, de 1933 a 1945, afirmava que uma mentira dita e repetida mais de 100 vezes, se torna verdade. Goebbels manipulava dados para favorecer o Regime e desenhar, com cores mais fortes, os grupos de humanos que ele elegeu como perseguidores a serem eliminados em nome da supremacia ariana, promovia fogueiras de livros censurados por ele como subversivos. Livros ao fogo. E água, as mentiras repetidas mais de 100 vezes, para lavar o cérebro. Essa “Estratégia Goebbels” da mentira que é travestida em verdade, sem comprometimento com a Ciência ou o Bom Senso da Realidade, é o modus operandi utilizado pelos acobertadores dos pedocriminosos. É operando essa estratégia que foi criada uma mentira que atribui periculosidade a todas as mães que denunciam abusos intrafamiliares contra crianças. Essa mentira ganhou o nome de alienação parental e a penalidade máxima, a Privação Materna Judicial, é inerente ao termo.
Faz-se necessário entender que o término de um casamento/relacionamento amoroso produz uma frustração, uma sensação de perda, por vezes uma sensação de fracasso, por vezes uma sensação de raiva dos erros cometidos que são sempre atribuídos ao outro. É como no luto por uma pessoa querida. Eram projetos a dois, era um objetivo de família, era uma arquitetura de vida comum, que se desconstrói. É esperado que haja um combo de sentimentos e emoções, acrescido pelo trabalhão de reorganizar a logística das crianças, e da casa. Portanto, por mais bem decididos que os dois estejam, é penoso. E a frustração, muitas vezes, se aproxima da raiva, e a busca por um “culpado” passa a acontecer. Mas, como nos afirma a Dra. Clara Sottomayor, Juíza na Corte Constitucional de Portugal, em seu livro sobre os Direitos das Crianças, este é um momento típico do luto, que se arranjará à medida em que as pessoas se reorganizam e refaçam suas vidas. A emboscada de travestir esse momento transitório em judicialização com ataque à mulher que é interrompida pela mentira em sua maternidade.

Curioso observar que esses processos começam pela reação à denúncia de comportamentos inadequados do genitor que, por isso, como retaliação, acusa a mãe de estar praticando atos de alienação. Mas, essa mesma dita alienação, passa a ser executada pela justiça. Não pode alienar o pai, mas tem que alienar a mãe. Alguém pode me explicar essa lógica? Aliás, tem lógica? Não pode ter o pai afastado por ter cometido pedocrimes, mas pode afastar a mãe por ter tentado buscar a Proteção Integral da Criança, cumprindo a Lei.

(Foto: Pinterest)

Há sempre uma voz que diz: “mas eu conheço uma mãe que é alienadora, maluca, e faz maldade com o ex”. Evidente que existem sim mulheres, como existem homens, que mentem, que inventam, que nutrem a raiva transformando-a em ódio. Sim, os números de Feminicídio são a maior e mais cabal prova de que existem pessoas que são imaturas, e pessoas que são perversas. Mas daí a passar a desqualificar, preconceituosamente, todas as mães e todas as crianças que buscam que a lei seja cumprida e o Direito da Criança seja garantido, existe uma incompatibilidade intransponível.
Esse malabarismo ainda implica em lançar outra mentira: as falsas memórias. Não há escrúpulo em afirmar o impossível. Uma criança de três, cinco, oito anos não é capaz de decorar um texto inacessível pelo seu desenvolvimento cognitivo, texto que descreve cheiro, gosto, detalhes inalcançados ainda pela cognição e conhecimento, e ainda desenhar e encenar, espontaneamente, os atos de lascívia a que foi submetida. Ninguém conseguiria introduzir uma situação traumática dessa ordem e obter o resultado da criança repetir por anos o relato das mesmas situações vividas. A criança até os 11/12 anos só funciona em raciocínio concreto, sua memorização opera por experiência, nunca por palavras que não fazem parte de seu mundo.

Mas, não há constrangimento em atacar a criança com esse tipo de acusação, sem se compadecer com sua dor ao ver o que o estuprador já lhe havia anunciado: ‘ninguém vai acreditar em você’. Desacreditada e cansada, ela acaba por desistir, e cai num segundo trauma. Ela se vê obrigada a se retratar da verdade que lhe aconteceu. Ou seja, ela se pega negando o que sofreu, passando a exercer a autoacusação de que a sua palavra não é confiável. É um momento enlouquecedor que inaugura a permanência na dúvida entre o real e a mentira.

(Foto: Freepik)

Com o forte movimento pela Revogação dessa lei emboscada, desastrosa, o lobby eficiente que defende os genitores agressores, apressou-se em passar uma “lei do afeto”. Como se a justiça fosse ter capacidade de obrigar um pai a gostar do filho, ela se lança em terreno que abre uma avenida para a obrigação de convivência que será reivindicada, claro, pelos genitores agressores. Haja ardil.
O mais assustador é que essa capilaridade garante o sistema que faz parte, como já falei várias vezes, da Organização Criminosa Internacional. Rasgaram um pedacinho da cortina. Estamos enojados e indignados. Sinto muito, mas já vivíamos nessa ausência de caráter. Precisamos reconhecer que não temos um sistema de justiça justo, eficiente e permanente que proteja vulneráveis para que não se tornem vítimas. Estamos muito atrasados na construção de uma humanicidade.

(Foto de capa: Freepik)

Ana Maria Iencarelli

Psicanalista Clínica, especializada no atendimento a Crianças e Adolescentes. Presidente da ONG Vozes de Anjos.

Related Posts

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *