Educação

Cartas revelam horrores de restauradores de papel no Holocausto

Pesquisa inédita com documentos originais mostra que especialistas em conservação de livros foram usados pelos nazistas no Holocausto

Por Felipe Sales Gomes

Uma nova investigação histórica revelou um aspecto inédito e perturbador da colaboração de civis com o regime nazista durante a Segunda Guerra Mundial e o Holocausto: restauradores de papel e encadernadores foram recrutados em toda a Europa pelas autoridades de Hitler para restaurar e limpar documentos antigos — como registros de batismo, casamento e nascimento — com o objetivo de torná-los legíveis para a máquina de perseguição racial nazista. O trabalho desses artesãos técnicos ajudou o regime a identificar pessoas com ascendência judaica e compilar o que pesquisadores agora descrevem como uma “lista de extermínio” encoberta pelos termos burocráticos de genealogia e arquivo.
A descoberta pertence à historiadora britânica Dr. Morwenna Blewett, pesquisadora de história da conservação documental e membro do Worcester College da Universidade de Oxford. Blewett encontrou cartas, ordens oficiais e correspondências de época que mostram que o regime nazista intencionalmente contratou restauradores de papel e especialistas em conservação para trabalhar em arquivos religiosos e civis — muitos dos quais haviam se tornado ilegíveis com o tempo — para garantir que registros históricos pudessem ser usados para rastrear ascendências e assim conformar às políticas raciais racistas do Terceiro Reich.

Esses artesãos foram instruídos a usar métodos que hoje seriam considerados danosos e não conservacionistas, com foco em tornar o texto visível “a qualquer custo”. Por exemplo, manuscritos antigos foram saturados com glicerina e materiais muitas vezes agressivos, e páginas frágeis foram tratadas de forma que priorizava a legibilidade imediata em detrimento da preservação a longo prazo. Tais técnicas, normalmente desencorajadas nas práticas de conservação modernas, aumentaram o risco de danos permanentes aos documentos.
O principal objetivo por trás desse programa, de acordo com a pesquisa de Blewett, era claro: aqueles registros de batismos, conversões e casamentos eram uma fonte principal para determinar a ascendência “racial”, especialmente quando combinados com as diretrizes legais do regime de identificação de judeus e outros grupos perseguidos. Essa prática facilitou a administração nazista no cumprimento de suas políticas de genocídio e deportação de milhões de pessoas durante o período do Holocausto. O material está reunido no livro da historiadora Art Restoration Under the Nazi Regime, a ser lançado em 2026, no qual Blewett argumenta que os restauradores contribuíram diretamente para crimes contra a humanidade ao tornar registros estratégicos acessíveis às autoridades nazistas — e que muitos desses profissionais escaparam de qualquer escrutínio histórico ou ético após a guerra.

Mulheres no campo de concentração de Auschwitz (Foto: Domínio público)

Fonte: Aventuras na História

Luzimara Fernandes

Jornalista MTB 2358-ES

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