Comportamento & Equilíbrio

Como é bom ser criança!

Brincar, imaginar, pular, correr, girar, apostar, gritar, chorar quando cai, gargalhar, brigar, fazer as pazes, buscar respostas. A curiosidade é o motor da cognição. Aprendemos a pensar pela experiência de satisfazer a curiosidade pelo novo. A inteligência passa a infância toda repetindo a busca de respostas a perguntas que intrigam a criança. Mas, as respostas, que vão esclarecendo estes mistérios, precisam percorrer os caminhos perceptivos, ou seja, precisam chegar pelas vias dos nossos cinco sentidos. Em especial a visão, aquele princípio, velho conhecido de todos, “só acredito vendo”.
É bom não ter preocupação com a organização da casa, como a comida chega no prato ou a roupa que tirou para o banho reaparece na gaveta, limpinha e bem dobrada. Mas, ao lado dessas mágicas que poderíamos até chamar de boa vida, são tantas as regras que ela tem que seguir que, quando esquecidas, são devidamente cobradas, que a boa vida é relativa. Não podemos pensar que, se a criança não tem responsabilidade com seu sustento e a proteção das boas condições do seu desenvolvimento, a criança não tem preocupação, não tem compromisso com as pessoas que lhe são queridas, e até mesmo, com as pessoas que nem conhece, mas que acessa dados da existência. As crianças são capazes de se sensibilizar por outras crianças, outros adultos, em breve tempo, que seja.
Temos agora um exemplo emblemático que veio com o conhecimento, pequeno ou médio, do coronavírus. Crianças muito pequenas se apossaram de conhecimento que lhes dava uma pequena explicação sobre o perigo que um dodói novo trazia. Há aqui um comportamento que faz parte desta capacidade, qual seja a Função Semiótica, conceito brilhante de Piaget, em seu comportamento de imitação diferenciada, colaborou na identificação com os adultos que a rodeavam.
Muitas vezes parecendo alheia à realidade, em seus períodos de devaneio, não devemos nos equivocar pensando que a criança não está prestando atenção. Quantas vezes ouvimos aquele comentário de que adultos foram surpreendidos por uma criança que estava brincando absorta durante uma situação e que registrou tudo que foi dito pelos grandes. É frequente que a criança não dê sinais de que está acompanhando o que está sendo dito.
Este tempo de isolamento em que as famílias ficaram com um convívio continuado, ininterrupto, quando crianças e adultos perderam a alternância natural da vida, com variação de pessoas, de tarefas, de horários, a sobrecarga que a criança recebeu foi acima de sua capacidade de suportar. Esta condição deste tipo de trauma cumulativo tem também uma grande nocividade para o desenvolvimento saudável e pleno da criança. É uma situação inusitada, sobre a qual nada sabemos, e que estamos aprendendo ao longo da epidemia. Isto, o caráter inédito de uma situação globalizada, também nunca vivida, foi captada pela criança que fez perguntas que apertavam os pais. Às insistentes perguntas das crianças, que produziam respostas passaram a “não sei”, “ninguém sabe”, foi uma experiência também que crianças e adultos aprenderam, sem aviso prévio.

Meninas e boneca (Foto: Reprodução/Entre Pretos)

Tanto para a criança quanto para o adulto, esta exposição ao “não saber” trouxe um incômodo que desarrumou estereótipos, até então, eram facilitadores de uma acomodação que trazia uma ilusão de calmaria. De um lado a criança acreditava que o pai, e a mãe sabiam tudo, tinham respostas que lhe acalmavam o medo, a angústia, a ameaça do desconhecido. Ao perguntar chegava a resposta. Não precisava ser uma verdade científica. Preenchia certinho.
Do outro lado, aquele era o momento do prazer da onipotência do adulto. Quanto conhecimento. Quanta sabedoria. Quanta satisfação diante da admiração emocionada daquela criança. Momento de imenso prazer para os dois lados que foi transformado em incerteza, incerteza e incerteza.
Nunca teríamos imaginado a situação que vivemos com uma pandemia como esta. Todos os indicadores de previsão foram rasgados. Todos os parâmetros, destituídos de seus fatores comprobatórios. Todos, precisamos improvisar. E o improviso se tornou crônico, passou a ser o modus vivendi.
Mas, a criança continuou a brincar, a pular um pouquinho, a correr um pouquinho, a gargalhar, a chorar, a jogar muito na internet, a sonhar, a disputar espaço de crescimento. Ela, a criança, sempre tem muito a nos ensinar.

Ana Maria Iencarelli

Ana Maria Iencarelli

Psicanalista Clínica, especializada no atendimento a Crianças e Adolescentes. Presidente da ONG Vozes de Anjos.

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