Política

Assim caminha a nação – Final

Nessa segunda e última parte da entrevista à Coluna Olhar de uma lente, João Coser coloca seus pontos de vista em tópicos importantes como meio ambiente, educação e política

Texto: Haroldo Cordeiro Filho

Nessa parte final da entrevista, João Coser fala sobre questões polêmicas do governo Jair Bolsonaro. Entre os assuntos cita a questão ambiental, para quem “o meio ambiente é, sem dúvida, o mais ‘violentado’ pelo governo”. “O presidente já sinalizava o incentivo às queimadas desde a sua posse. O que ele está fazendo com o nosso meio ambiente é notório, um desmonte, um desrespeito às futuras gerações. Liberaram centenas de agrotóxicos, não sabemos o que estamos comendo, são muitos produtos químicos na agricultura. Muita coisa foi liberada sem análise”, critica Coser.
E ele vai mais adiante ao citar as questões pertinentes à região amazônica. “Olha as terras da Amazônia, a tentativa de entregar a Amazônia, ouve recuo, mas a intenção era de colocar nas mãos de grandes grupos corporativos, sem noção do que a nossa Amazônia significa para as futuras gerações. O desrespeito ao índio daquela região com frases como “O Brasil tem terras demais e índio de menos”, retrata bem o perfil do nosso presidente, uma barbárie completa. Graças a Deus, estamos percebendo alguns movimentos socioculturais, ainda que um pouco tímido, mas vêm aparecendo. Esses movimentos são importantes porque o estrago que está se fazendo com a nossa natureza, nosso País e o nosso povo é um pecado mortal”, afirma.
Coser critica também o ‘incentivo’ ao desmatamento. “Hoje está autorizado mexer na mata, aqui mesmo, próximo da gente, já tem desmatamento. As penalidades não existem, a fiscalização está contida. Se o chefe maior fala que pode fazer, por que o fiscal vai autuar de forma rígida? O governo desmontou todos os órgãos de controle, eu diria que o nosso Brasil está entregue ao que tem de pior: o explorador. São pessoas sem escrúpulos, capitalistas selvagens, matam, desmatam, burlam a lei, fazem qualquer coisa para ganhar dinheiro. São pessoas sem coração, sem sentimento, não pensam no futuro. É uma dúzia de pessoas que estão podres de ricos e não sofrem nenhuma punição por parte dos órgãos competentes, porque estão desprovidos de recursos e pessoal, desmontados e sucateados, literalmente. O Brasil está muito bom para um grupo seleto, e o desastre, está para a grande maioria. Mas todo mundo vai pagar, seja rico ou pobre. É um ato de agressão à pátria. O Congresso parece estar conivente, vejo tudo com muita preocupação”.

Promotor Deltan Dallagnol (Foto: Catve.com)

Outro tema abordado e, também, com um certo ar de preocupação foi a educação. “Outra pauta importante é a educação. Pobre não precisa estudar. Esse é o raciocínio do atual governo. Tudo aquilo que nós fizemos, abrir mais de 300 institutos federais de educação (os Ifes), várias ampliações e criações de universidades com a expectativa de ter que oferecer universidades à grande maioria, que é um conceito, a de que o filho da doméstica pode ser médico, engenheiro, professor, entre outras profissões, isso, infelizmente, acabou. Você pode perceber que os recursos do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) e das Bolsas, vêm diminuindo gradativamente, isso é um processo de desmonte. O Programa Ciência Sem Fronteiras, que tinha 60 mil jovens fora do Brasil, está extinto. Muitas dessas conquistas, infelizmente, vamos perder na estrada, esse é o meu sentimento”, constata.
“Os Ifes mesmo, temos que pedir muito a Deus para que eles fiquem de pé. A educação é a ferramenta que transforma uma sociedade, é a única que dá capacidade de mudança, portanto, o maior investimento deve ser nesse pilar. Os países que foram para frente nos últimos 100 anos, foram os países que deixaram tudo de lado e investiram na educação, depois a educação deu tudo que faltava”, aponta.
Nas questões assistenciais, Coser também demonstra certo pessimismo e acredita que os índices de desenvolvimento humano esteja seriamente em risco. “O Programa Bolsa Família era fundamental, porque ele conseguiu manter aquelas pessoas mais necessitadas, mais frágeis. Os programas fundamentais dos governos Lula e Dilma, não foi o Bolsa Família, foram os mais de 20 milhões de empregos e subir o salário mínimo ponto percentual acima da inflação, talvez tenha sido a primeira vez na história em que tínhamos o aumento do salário um pouco acima da inflação. Isso dava uma melhora no poder de compra. Com o atual governo isso acabou, já tiraram”, adverte.
Perguntado sobre a responsabilidade da imprensa em todo esse processo pelo qual o País atravessa, João Coser disse que a imprensa brasileira nunca toma partido. “O que determina a linha editorial de um jornal aqui é o bolso, é o caixa. É um mix, envolve um pouco de dinheiro, um pouco de concordância e, talvez, um pouco de submissão. Acho que um certo acovardamento também. Para você ter uma ideia, no momento, temos quatro categorias em greve e a imprensa não divulga, por que será?”, questiona.

Ministro Sérgio Moro (Foto: Veja)

Para ele a Lava Jato veio com intensão de eleger uma pessoa, tirar o Lula da disputa e, nisso, cumpriu o muito bem o papel dela. “O juiz Sérgio Moro e o promotor Deltan Dallagnol, não são os vilões, eles são apenas a ponta, ordinários. A culpa mesmo foi do Judiciário por se submeter a isso. As pedaladas de Dilma não existiram, Bolsonaro já deu pedaladas 10 vezes mais que a Dilma e ninguém fala nada, divulgam como “ajustes”. O objetivo era tirar o PT do poder. Na visão da elite, com a reeleição de Dilma só tinha um jeito, matar o PT, caso contrário, o partido se manteria no poder com Lula. Tudo foi muito estratégico para não deixar o Lula disputar a eleição, era o que interessava”, destaca.
Meio que inconformado, finalizou dizendo que um certo dia, ouviu em palestra, que de tempos em tempos, a elite coloca um boçal para governar para fazer o que é de interesse dela. Ela nunca coloca um membro dela, sempre um que se acha, um bobo da corte”, finaliza.
Cumprindo o nosso papel de levar ao nosso leitor sempre visões amplas e que levem ao debate, que é inerente de uma nação democrática, temos feito, em praticamente todas as edições do Fatos & Notícias, entrevistas com vários representantes do Legislativo, de diferentes opiniões e segmentos partidários.
Em cada entrevista, procuramos ser o mais isentos e imparciais para que o prezado leitor tire as suas próprias conclusões. Essa é a nossa finalidade: fazer com que o nosso leitor tenha suas opiniões e saiba argumentar, no sentido amplo da palavra.
Só sabe debater quem tem ideias e conhecimentos diferentes para que, assim, possa formar sua própria opinião.

Haroldo Cordeiro Filho
Jornalista – DRT: 0003818/ES
Coordenador-geral da ONG Educar para Crescer
E-mail: [email protected]

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