Comportamento

A Criança e as Pandemias – Final

A Criança cresce convivendo com a pandemia da corrupção. Ela está dentro do carro quando vê o pai negociar com um agente do trânsito uma multa que seria aplicada a ele. Ele viu que o pai furou o sinal vermelho do cruzamento, e viu também que o pai deu um dinheiro para que o guarda não completasse a papeleta da multa

Continuando este tema da exposição da Criança às diversas Pandemias que vivemos, vamos refletir sobre o mundo que estamos oferecendo para nossos pequenos. A covid-19, a violência, a negligência intrafamiliar, a negligência social, a pandemia do esvaziamento de afeto, o egoísmo, a desresponsabilização, a tecnologia, são pandemias que acometem a Criança e sequelas serão guardadas ativas em sua mente em formação.
Retomando à pandemia do egoísmo, que, essencialmente, estabelece um binômio eu/eu, onde se resume o único critério de escolha, “eu quero só para mim” e “eu não quero ter nenhum prejuízo”, o primeiro é o “é bom para mim” e o segundo “é ruim para mim”, temos desdobramentos afetivos e sociais que impedem o bom exercício da cidadania. Os códigos morais passam a ser regidos pelo egocentrismo.
A pandemia da desonestidade vai além da financeira. Influenciada pelo egoísmo, com seus pilares individualizados longe do coletivo, chegamos à desonestidade afetiva, à desonestidade intelectual, hoje tão banalizada. Há argumentos inacreditáveis para justificar a manipulação e distorção de conceitos e princípios. Depende! Este é sempre o início da frase quando se indaga qualquer coisa, até se matar, ou roubar, é errado. Tudo pode vir depois deste “depende”. A flexibilidade é imensa. A judicialização, crescente, também é acometida por decisões ilógicas, sem um pingo de bom senso. Os Direitos da Criança são violados, pela própria justiça. Uma criança pode ter sua guarda invertida por uma alegação verbal, que evoca a locução alienação parental, sem prova material e sem aferição do referido comportamento da mãe, enquanto ainda é amamentada ao seio, cumprindo mandato de busca e apreensão efetivado por policiais. E a amamentação dela? E os cuidados maternos, indispensáveis na 1ª infância, que perde de uma só vez? O entendimento é que aquela mãe faz mal aquele ainda bebê porque fala mal do pai. Leis existem. Belíssimas. Mas há também a pandemia da desobediência, da transgressão estrutural. É como se vivêssemos uma lavagem de direitos. Eles existem, mas são interpretados na contramão.
A Criança cresce convivendo com a pandemia da corrupção. Ela está dentro do carro quando vê o pai negociar com um agente do trânsito uma multa que seria aplicada a ele. Ele viu que o pai furou o sinal vermelho do cruzamento, e viu também que o pai deu um dinheiro para que o guarda não completasse a papeleta da multa. A transgressão combinada com a corrupção é uma aprendizagem que fica inscrita na mente da Criança, que a levará como natural. O jargão de que o fim justifica os meios vai se cristalizando banalizado. Encontramos corrupção em profissionais que deveriam, por Código de Ética, seguir leis de Proteção da Criança.

Crianças recolhem balas de arma de fogo. Cadê a infância na favela (Foto: Fábio Teixeira/Agência Anadalu/Getty Images)

Se pensarmos numa mala de pandemias, do egoísmo, da negligência social, da desonestidade, da lavagem de direitos, surgiria, disfarçada, a pandemia da pedofilia. Na naturalização da pedofilia, hoje na tentativa de se alojar sob um título de preferência sexual, apenas. Caminhando para uma sonhada legalização, a pedofilia vem se alastrando, sustentada pela banalização. Acobertada pela Lei 12.318/2010, a chamada lei da alienação parental, termo que não tem comprovação científica, e foi cunhado por um médico americano pedófilo, em cima de uma fase de luto pelas emoções de perda, de frustração, de sofrimento relativo ao término de uma relação conjugal. Nada de novo. Somente o neologismo usado para calar Crianças e mães que denunciam abusos sexuais incestuosos. Servindo como tapete para onde são varridos os crimes de pedofilia. O abuso sexual é praticado, em sua grande maioria, por pai, avô, padrasto, tio, primo, irmão mais velho, entre 65% e 85% dizem as pesquisas, e tem como fator a submissão afetiva, é alguém que a Criança ama e obedece. É definido pelos estudiosos, pela sua característica de repetição, como a exposição ao extremo estresse que, além de causar traumas psicológicos, danifica o sistema límbico e o sistema neurológico, atrofiando estruturas cerebrais e suas funções. A violação do direito de ser cuidado pela mãe e o direito de mãe, são endêmicos no judiciário. Afinal, qual é a lógica de entender que faz mal a mãe “alienar” o pai, mas este mesmo objeto, a “alienação”, é usada para punir esta mãe, então, a justiça aliena a mãe. E acreditem, esta não é uma reserva particular do nosso país. Nossa exclusividade é de ter uma lei para uma locução falsa, como afirma o Presidente do Comitê de Direitos da Criança da ONU, Luís Pederneira.
A pandemia da Miséria Psicológica. É a morte da esperança. É a descrença no outro, quando se é ainda vulnerável, indefeso. Ela é alimentada pelo vírus com a morte, pela violência, pela negligência, pela desonestidade afetiva, pela corrupção de valores, pela pedofilia que sustenta a exploração sexual intrafamiliar, o novo formato da parte mais miserável dos humanos.
Infelizmente, mais uma tragédia da Miséria Psicológica aconteceu nesta madrugada envolvendo Criança. Eram duas crianças que estavam brincando às duas horas da manhã. Uma delas morreu com um tiro na cabeça, disparado da pistola da outra que era novo no tráfico. Uma tinha 11 anos, a outra tinha 10 anos. Quantas perguntas brotam: a hora, o aliciamento do tráfico, as famílias, uma arma… A Miséria Psicológica de todos nós se isentará da culpa e dolo desta tragédia. Foi lá na favela. A responsabilidade é nossa. De todos.

Ana Maria Iencarelli

Ana Maria Iencarelli

Psicanalista Clínica, especializada no atendimento a Crianças e Adolescentes. Presidente da ONG Vozes de Anjos.

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