Meio ambiente

Flor nunca antes documentada desabrocha em uma das árvores mais raras do mundo

Existem apenas cerca de 24 árvores da espécie Karomia gigas em seu habitat selvagem na Tanzânia. A nova flor é um sinal de esperança para a sobrevivência da espécie

Até onde os cientistas de plantas do Jardim Botânico do Missouri em St. Louis, nos EUA, sabem, a minúscula flor roxa e branca que cresceu recentemente em sua estufa nunca foi vista antes, pelo menos não por especialistas como eles. No dia 3 de maio, Justin Lee, horticultor sênior do jardim, estava verificando um grupo de mudas de árvores Karomia gigas em uma estufa quando avistou a flor. A árvore, parente da hortelã e originária da África, é uma das espécies de árvores mais ameaçadas de extinção do mundo.
A flor, de 2,5 centímetros de comprimento, possuía um halo de pétalas de cor roxo-claro que se inclinavam para baixo enquanto um grupo de quatro estames brancos com pólen despontavam. “É um pouco estranho para uma flor de hortelã. Ela parece invertida”, comenta Lee. A família Lamiaceae, à qual pertence a hortelã, na maioria das vezes produz flores em forma de tubo. Os responsáveis pela árvore acreditam que as flores provavelmente atraiam abelhas, borboletas e mariposas polinizadoras, mas também é possível que a árvore seja capaz de se autopolinizar.
Nas próximas semanas, espera-se que mais flores de Karomia gigas cresçam na estufa onde, ao invés de atrair insetos, vão atrair as pessoas que estão trabalhando para impedir a extinção dessa espécie. Ao conseguir que múltiplas flores cresçam, as árvores podem passar por polinização cruzada e ter uma chance maior de sobrevivência.
Na selva da Tanzânia, são conhecidas apenas cerca de 24 árvores dessa espécie. Roy Gereau, diretor do programa da Tanzânia no Jardim Botânico do Missouri, não se surpreendeu com o fato de a flor nunca ter sido vista. A Karomia gigas é uma árvore alta e reta que pode atingir 24 metros, cujos galhos só aparecem a partir de 10 a 12 metros do solo, tornando as flores difíceis de avistar.
A árvore é tão rara que não tem nenhum apelido conhecido em inglês, suaíli ou nos idiomas locais em torno das reservas florestais onde é encontrada. Das mais de 60 mil espécies de árvores conhecidas, a Karomia gigas está entre as mais próximas da extinção e é uma das mais ameaçadas da África. “Até onde sabemos, não há registro das flores na literatura científica”, afirma Gereau.
E agora que a árvore produziu uma flor, os responsáveis por sua conservação estão confiantes de que podem impedir que ela desapareça. “Do ponto de vista de uma extinção real, a situação parece muito boa”, declara Andrew Wyatt, vice-presidente de horticultura do Jardim Botânico do Missouri. “Podemos garantir que a espécie não seja extinta”.

As árvores Karomia gigas cultivadas no Jardim Botânico do Missouri têm três anos de idade e já possuem cerca de um metro e oitenta de altura (Foto: Cassidy Moody/Jardim Botânico do Missouri)

Cultivando as árvores no exterior
O cultivo da árvore tem sido um desafio. Na natureza, ela é altamente suscetível a um fungo que pode ser transmitido por insetos. Em setembro de 2018, milhares de sementes foram coletadas em expedições de campo na Tanzânia e enviadas para St. Louis, mas apenas cerca de 100 se mostraram viáveis. Para complicar, as condições de cultivo da Karomia em sua estufa no Missouri precisavam replicar o solo, a quantidade de água e a luz solar do clima da África Oriental em que ela evoluiu.
Os horticultores conseguiram cultivar algumas mudas fazendo as sementes germinarem primeiro em toalhas de papel úmidas, para reduzir a probabilidade de infecção, e depois plantando-as em turfa. Existem agora 30 árvores jovens cultivadas a partir das sementes e uma reproduzida a partir de uma estaca. “Estávamos debatendo se elas iriam florescer antes de nos aposentarmos”, conta Wyatt.
Com tão poucas árvores dessa espécie no mundo, tentar salvá-las e vê-las crescer com sucesso é algo emocionante. “Nós comemoramos cada etapa. Elas se tornam como filhos para nós, somos os responsáveis por essas espécies”, declara Wyatt. “Existe uma conexão científica e também uma conexão emocional com a espécie”. Lee concorda: “é como se elas fossem meus bebês”.
A flor ajuda os cientistas a compreender melhor a árvore, confirmando que ela pertence ao gênero certo e, com base na forma de suas pétalas e dos estames, provavelmente é polinizada por insetos. Não está claro se a estrutura aparentemente invertida da flor representa a aparência de todas as flores dessa árvore ou um defeito genético neste espécime ainda jovem. “É uma única flor… pode não ter a estrutura normal”, afirma Gereau. “Uma flor nascendo pela primeira vez em um indivíduo jovem da espécie”.
É importante ressaltar que isso também ajuda a garantir a sobrevivência da árvore. Horticultores podem propagar a planta usando estacas, mas essas árvores são clones com o mesmo DNA. Uma maior diversidade genética em uma espécie ajuda a garantir que ela resista a condições mortais, como pragas.
“Se elas não florescem em nossas coleções, temos que depender das plantas silvestres para produzir sementes e a viabilidade é muito baixa”, explica Wyatt. Embora algumas espécies possam fazer a autopolinização, não está claro se é o caso da Karomia gigas. Lee polinizou manualmente a espécie antes de a flor murchar, mas explica que ter mais flores de árvores diferentes ajudará a produzir plantas mais resistentes geneticamente.

Imagem aproximada da folha de Karomia gigas. Na natureza, as árvores foram observadas perdendo todas as suas folhas durante a estação seca (Foto: Cassidy Moody/Jardim Botânico do Missouri)

“Perto do fim do dia, eu espalhei um pouco de pólen. É uma espécie de incógnita a rapidez com que algumas plantas se autopolinizam. Às vezes, é como uma escala variável. Desta vez não tivemos sucesso”, afirma Lee. “Idealmente, como temos tantas [mudas], poderemos obter essa floração mais vezes e fazer a polinização cruzada, o que é melhor para a diversidade genética”.
“Ter plantas com flores é um ótimo ponto de partida nos esforços para recuperação da espécie”, afirma Emily Beech, especialista em árvores ameaçadas de extinção da Conservação Internacional de Jardins Botânicos. Embora não tenha participado da propagação das árvores de St. Louis, em 2016 Beech se juntou a Gereau e outros do Serviço Florestal da Tanzânia em uma expedição para procurar as árvores. “Não havia mudas visíveis na floresta quando a visitamos, mas o fato de agora haver plantas com flores oferece uma esperança real para a espécie no futuro”, declara ela.

Um passo em direção à regeneração
A árvore foi descoberta em 1977 no Quênia, mas quando os dois únicos espécimes quenianos foram cortados, ela foi considerada extinta. A espécie foi redescoberta na Tanzânia em 1993, e Gereau, juntamente com botânicos locais, foram lentamente encontrando mais indivíduos na natureza desde 2011.
De acordo com Fandey Mashimba, gerente de biologia de sementes do Serviço Florestal da Tanzânia, é provável que existam mais de duas dúzias de árvores na natureza. As populações conhecidas no país estão todas localizadas na Reserva Florestal Mitundumbea e na Reserva Florestal Litipo. Essas florestas são o lar de um tipo de ecossistema lenhoso chamado bosque de miombo, que se estende pela África Central e Meridional. Mashimba explica que nessa região é comum ver animais como babuínos, porcos selvagens, búfalos e um pequeno tipo de antílope chamado caxine.
Essas florestas antigamente já foram cobertas pelo oceano e, portanto, possuem um substrato único. “O solo é essencialmente formado por fezes de cupins e resquícios de praias de coral”, explica Lee.

Embora a polinização cruzada das árvores ajude a gerar diversidade genética, os horticultores também podem cloná-las a partir de estacas (Foto: Cassidy Moody/Jardim Botânico do Missouri)

Embora a árvore tenha sido estudada em seu habitat nativo e também como espécime cultivado em St. Louis, suas flores permaneceram um mistério. “Temos um contato em uma aldeia próxima que está interessado na conservação da área florestal e fica de olho nelas”, conta Gereau sobre as árvores silvestres. “Ele nos alertou quando achou que estavam começando a florescer”. Mas ao fazerem a longa viagem até a reserva florestal, nenhuma flor foi encontrada.
“As árvores estão em reservas florestais protegidas pelo governo, mas as pessoas vão até lá para a extração de madeira”, explica Mashimba. A madeira de Karomia gigas tem sido comparada à teca, uma madeira muito procurada, tornando-a uma valiosa fonte do material.
“Quanto à sobrevivência, temos esta aqui”, declara Wyatt, referindo-se à espécie Karomia gigas. “Podemos realmente garantir que não seja extinta. A ideia de preservar a espécie é completamente possível. Ela é protegida na Tanzânia. Temos coleções no jardim botânico. Assim que tivermos sementes suficientes, esperamos poder armazená-las [em um freezer] e criar uma reserva para as perdas”.
Gereau diz que está relutante em repatriar as árvores, preocupado que elas sejam muito frágeis para fazer a viagem entre os continentes, mas afirma que o grupo irá compartilhar seus conhecimentos com o governo da Tanzânia e botânicos da Universidade de Dar es Salaam, onde pesquisas sobre a árvore são conduzidas.
Por enquanto, a única flor é um sinal de esperança do que está por vir. Para surpresa da equipe do jardim botânico, a flor em St. Louis surgiu e se foi rapidamente, caindo da árvore em menos de 24 horas. “Ela simplesmente murchou”, conta Wyatt. “Eu a peguei do chão e usei para fazer compostagem”.

Legenda foto de capa: A flor roxa de Karomia gigas durou apenas 24 horas antes de murchar (Foto: Cassidy Moody/Jardim Botânico do Missouri)

Fonte: National Geographic Brasil

Related Posts

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

EnglishPortugueseSpanish