A China está voltando para onde sempre esteve

Enquanto o mundo ocidental se mostra perplexo com o avanço chinês nas esferas tecnológica, econômica e geopolítica, há algo que parece escapar à compreensão geral: não se trata de uma ascensão inédita, mas sim de um retorno. A China está apenas reassumindo um protagonismo que, ao longo da maior parte da história humana, sempre foi seu.
Por mais que o século XX tenha impresso na memória coletiva a imagem de uma China empobrecida, dividida por guerras internas, invasões estrangeiras e atraso tecnológico, esse período foi uma exceção — e não a regra. A chamada “centúria de humilhação” (1839–1949), marcada por derrotas nas Guerras do Ópio, perda de soberania territorial e instabilidade social, representou uma queda brusca para uma civilização que, por milênios, foi referência global em ciência, cultura e administração pública.
Segundo o economista Angus Maddison, em seu estudo histórico sobre PIBs globais, a China foi a maior economia do mundo durante cerca de 18 dos últimos 20 séculos. Em 1820, por exemplo, respondia por quase 33% do PIB mundial — enquanto os EUA sequer existiam como potência global. O país era um centro de invenções como a bússola, a pólvora, o papel e a imprensa — tecnologias que moldaram o mundo moderno muito antes da Revolução Industrial europeia.
Durante a dinastia Tang (618–907), a China já possuía um Estado burocrático sofisticado, baseado em mérito (através dos exames imperiais) e uma capital cosmopolita como Chang’an, que superava as cidades europeias em população e infraestrutura. Na dinastia Song (960–1279), o país via o florescimento de uma economia monetária, proto-industrialização e navegação marítima avançada. A riqueza e complexidade dessas eras levaram o historiador britânico Arnold Toynbee a afirmar que a civilização chinesa foi a mais resiliente da história.
O descompasso do século XIX foi, portanto, um recorte minúsculo em termos civilizacionais. A rápida industrialização e ocidentalização promovida pelo Partido Comunista a partir de 1978, com Deng Xiaoping, pavimentou o caminho para o retorno chinês ao centro do palco global. Em 2023, a China já era a segunda maior economia do mundo em termos nominais e a primeira em paridade de poder de compra (PPC), segundo o FMI.
Além da economia, a projeção do soft power chinês por meio de iniciativas como a Nova Rota da Seda (Belt and Road Initiative), seu protagonismo na ONU, seu papel crucial na transição energética global e o avanço em tecnologias estratégicas como inteligência artificial e telecomunicações (Huawei, ZTE) evidenciam a robustez de seu retorno.
Enquanto isso, os Estados Unidos, cujo império global tem pouco mais de um século, começam a dar sinais de esgotamento de sua hegemonia unipolar, surgida após a Segunda Guerra Mundial. A “ordem liberal internacional” que sustentou o domínio americano está sendo desafiada por múltiplos polos de poder — e a China, com seus cinco milênios de história, oferece um modelo alternativo que ressoa em partes do mundo ex-colonizado.
Ignorar esse retorno como mera “ameaça comunista” é não entender a natureza cíclica da história. É reduzir milênios a manchetes. O que estamos vendo não é uma novidade, mas uma restauração histórica. A China está voltando para o centro — o lugar de onde ela raramente saiu.