Comportamento & Equilíbrio

Por que a depressão afeta cada vez mais adolescentes?

Atendimentos do SUS aumentaram 3300%. Apesar de crescimento dos casos estar relacionado à maior conscientização e diagnósticos mais precisos, isso não explica tudo

Por Vanessa Lima

A adolescência é uma fase de crescimento, descobertas, busca pela própria identidade, conquista de autonomia… Por outro lado, é também um momento de confusão — de transformações corporais, hormonais e emocionais, inseguranças e muita pressão — que vem de todos os lados. Tudo isso somado aos efeitos do excesso de telas e de atividades e à diminuição do tempo livre, com conexões reais, pode explicar o crescimento nas taxas de depressão em um público cada vez mais jovem.
Os números são estarrecedores. Entre 2014 e 2024, o atendimento a crianças de 10 a 14 anos com transtornos mentais como ansiedade e depressão no Sistema Único de Saúde (SUS) aumentou quase 2500%. Entre os jovens de 15 a 19 anos, o índice é ainda mais preocupante, chegando a 3300%. A pandemia teve um papel significativo nessa explosão de casos, mas há muitos outros fatores envolvidos, já que o aumento começou bem antes disso.

Para a psiquiatra e psicoterapeuta Jackeline Giusti (SP), especialista no atendimento a crianças e adolescentes, trata-se de um fenômeno multifatorial. “Há mudanças reais na prevalência da doença, alterações nos fatores de diagnóstico e maior conscientização do problema por parte da população”, aponta. Assim, mais pessoas são diagnosticadas. O sistema de diagnóstico também passou por mudanças, que ampliaram a definição de transtornos afetivos, o que permite que mais casos sejam identificados, em idades mais precoces, o que, segundo a especialista, é muito importante para melhorar as chances de tratamento. Mas isso não é tudo.

Há evidências cientificas que sugerem um aumento genuíno nos sintomas e transtornos depressivos entre adolescentes, especialmente em certas populações e períodos. Alguns estudos, por exemplo, relatam um aumento notável nas taxas de depressão entre jovens, particularmente meninas, na última década”, afirma. “Enquanto parte do aumento é atribuível a uma maior conscientização e mudanças nas práticas diagnósticas, também há um aumento real da depressão entre adolescentes, particularmente no contexto das recentes mudanças sociais e tecnológicas”, acrescenta.

Algumas dessas mudanças são:
Estressores sociais: maior exposição a bullying e conflitos familiares.
Puberdade precoce: início mais cedo da puberdade.
Tecnologia digital e mídias sociais: o uso intenso de tecnologia e a redução da interação face a face tem sido associados a um maior risco de depressão.

Esses fatores tornaram-se mais proeminentes a partir de 2011, coincidindo com o aumento observado na depressão, automutilação e tentativas de suicídio entre adolescentes”, diz a especialista.

Depressão ou ansiedade?
Existe diferença entre depressão e ansiedade? A dúvida é bastante comum. Vamos por partes. Primeiro, é importante saber que a depressão é diferente de tristeza, uma emoção normal, que todos nós sentimos, de vez em quando. O que separa a doença do sentimento é a intensidade e a duração. A tristeza passa, enquanto a depressão perdura e afeta o bem-estar e a capacidade da pessoa ao longo do dia. “É causada por uma mistura de fatores biológicos, genéticos, psicológicos e ambientais, como eventos estressantes, define a psiquiatra.

A depressão também é diferente de outro transtorno comum, que é a ansiedade, mas os sintomas podem ocorrer juntos e isso acontece com certa frequência em adolescentes. “Às vezes, uma condição pode levar à outra”, explica Jackeline.

Uma ansiedade prolongada e intensa, com preocupações constantes e medo, pode esgotar a pessoa e levá-la a desenvolver um quadro depressivo. Da mesma forma, uma pessoa deprimida, que se isola e perde o interesse em atividades sociais, pode começar a sentir muita ansiedade em situações de interação ou ao tentar retomar suas rotinas”, detalha.

Para simplificar:
Ansiedade: é uma resposta normal do nosso corpo ao perigo ou estresse, nos preparando para lutar ou fugir. Quando se torna um transtorno, a ansiedade é uma preocupação excessiva e constante com o futuro. Na criança e no adolescente, são comuns medos como: dormir sozinho, escuro, de eventos da natureza como trovões, chuva, vento, do desempenho na prova…
Muitas vezes há recusa a ir à escola, preocupações excessivas com o futuro. Alguns têm preocupações inadequadas para a idade, como a situação financeira da família. A ansiedade, principalmente nas crianças pode se manifestar como sintomas físicos como dor de cabeça, dor de barriga. Outros sintomas físicos da ansiedade são dores no estômago, náuseas e diarreia.

Depressão: é uma doença do humor marcada por um sentimento de tristeza profunda e persistente ou irritabilidade, acompanhada de perda de interesse ou prazer nas atividades do dia a dia. A pessoa se sente sem energia, vazia, desesperançosa em relação ao presente e ao futuro, pode ficar ruminando sobre o passado. Sente-se culpada por eventos passados, e sem esperanças quanto ao futuro. A vida fica sem sentido. Em crianças é possível apresentarem as mesmas queixas somáticas da ansiedade.

(Foto: Freepik com IA)

Depressão em adolescente x depressão em adultos
A adolescência é uma fase desafiadora, em que decisões importantes, que podem impactar o restante da vida, são tomadas, como a escolha da profissão.

O adolescente sofre pressões da escola, do grupo de amigos e colegas, da família… Tudo isso em um cérebro que está ainda em desenvolvimento”, reforça Jackeline. Isso sem falar nas transformações corporais e hormonais. “Por tudo isso, os adolescentes são mais vulneráveis a transtornos mentais. O uso excessivo de telas pode piorar ainda mais estes sintomas”, diz a especialista.

A doença se manifesta de maneiras distintas em crianças, adolescentes e adultos. Embora a essência da doença seja a mesma, a forma como os sintomas aparecem pode mudar, conforme o desenvolvimento.
Na infância: tem sintomas físicos e irritabilidade. “As crianças costumam se queixar de dores físicas como dores de barriga e dores de cabeça. Elas podem ficar mais hiperativas, mais irritadas, com comportamentos desafiadores. “É raro observar tristeza como no adulto, mas podem aparecer frases autodepreciativas como: ‘sou burro mesmo’ ou ‘ninguém gosta de mim’”, diz psicoterapeuta.

Na adolescência: as características são mais semelhantes ao dos adultos, mas alguns sintomas são mais intensos como dificuldade para dormir ou dormir demais, alterações no apetite ou peso, falta de energia. É comum, nesta fase, que a depressão venha acompanhada por ansiedade. Aumenta também o risco de problemas com uso de substâncias. Alguns encontram nas drogas uma forma de automedicação, pois encontram nelas uma forma de amenizar o incomodo dos sintomas depressivos. Por isso, o diagnóstico e o tratamento precoce são tão importantes.
Na vida adulta: o foco está na perda de prazer e em sintomas cognitivos, que incluem perda de interesse ou prazer, dificuldade de concentração, isolamento social.

Quatro causas importantes de depressão na adolescência

1. REDES SOCIAIS E VIDA DIGITAL
Hoje, não é possível ignorar o quanto a vida dos adolescentes é profundamente impactada pela internet e pelas redes sociais. Alguns pontos que merecem atenção são:

Vida perfeita — nas redes, tudo parece perfeito, divertido e glamouroso. Ninguém posta sobre a festa que não foi ou o final de semana chuvoso em casa sem ter o que fazer. “As pessoas estão sempre em festas, com muitos amigos, felizes…”, diz Jackeline. Segundo ela, tudo isso gera comparações constantes, o que piora ainda mais os sintomas de quem já está triste, não foi convidado para a festa ou tem poucos amigos. Sentir que a própria vida não é tão emocionante ou que não se encaixa nesses padrões — muitas vezes, irreais — pode levar a sentimentos de inadequação e baixa autoestima.

Cyberbullying — infelizmente, o bullying não fica só na escola. No ambiente digital, a prática pode ser ainda mais intensa. No cyberbullying, as mensagens agressivas, a exclusão de grupos e as fofocas virtuais acontecem 24 horas por dia, sete dias por semana, impactando profundamente a saúde mental dos adolescentes. “Sem contar os desafios que aparecem de tempos em tempos nos jornais e são responsáveis até pelo suicídio de adolescentes”, destaca a médica.
“FOMO” (Fear Of Missing Out – Medo de Ficar de Fora) — a necessidade de estar sempre conectado e o medo de perder eventos sociais ou informações importantes levam a uma ansiedade constante, o que pode afetar o sono, a concentração e a capacidade de aproveitar o momento presente.

2. PRESSÃO POR DESEMPENHO
A vida do adolescente é cheia de expectativas, o que pode ser uma grande fonte de estresse, com itens como:
Pressão escolar e acadêmica — é comum crianças ou adolescentes se exigirem notas máximas, e esta pressão nem vir dos pais. “Também pode aparecer a incerteza em relação a que profissão escolher, o medo de não passar no vestibular”, indica a psiquiatra. Segundo ela, são pressões presentes em toda a vida escolar, mas que pioram muito no ensino médio e podem levar à ansiedade.

Excesso de atividades — muitos adolescentes estão sobrecarregados, com uma agenda cheia: escola, aulas de reforço, esportes, aulas de idiomas e por aí vai. “É importante que o adolescente tenha um tempo livre para lazer, descanso”, aponta a especialista. Mas atenção: ficar nas telas não conta como descanso. Pelo contrário! Pode piorar os sintomas.

3. MENOS TEMPO PARA CONEXÕES REAIS
O medo da violência nas ruas, entre outros fatores, leva os adolescentes para as telas, o que acaba reduzindo a chance de conviver com os amigos, off-line.
Menos brincadeiras livres — as queixas de tédio são frequentes. Como se habituaram às telas, aos estímulos rápidos, aos feeds infinitos e vídeos que começam e terminam em looping, as crianças e adolescentes têm dificuldade de ficar sem fazer nada ou de criar uma brincadeira ou atividade, fora desse universo. O relacionamento com os colegas, durante as férias ou dias livres, acontece por mensagens e jogos on-line. “É importante estimular a interação física entre eles, porque isso é essencial para o desenvolvimento emocional e a regulação do humor”, alerta Jackeline.

Sono prejudicado — o uso de celular também acaba sendo um vilão neste ponto, afetando a qualidade e a quantidade de sono. “É comum receber adolescentes com queixas de insônia”, aponta a psicoterapeuta. Segundo ela, é raro encontrar quem desligue a tela para reduzir o estímulo ao cérebro. Nos finais de semana e férias, é como se o fuso horário se alterasse e os adolescentes trocassem o dia pela noite, o que atrapalha muito.

Quando questionados sobre o horário que desligam o celular, geralmente a resposta é: ‘quando me dá sono’”, diz a médica, que explica que a falta do sono reparador é um dos maiores gatilhos para problemas de humor, incluindo a depressão.

Mudanças na dinâmica familiar — com pais sobrecarregados ou ausentes devido ao trabalho, ou com famílias em reestruturação, os adolescentes podem sentir-se menos conectados ou com menos suporte emocional, o que impacta em sua resiliência.

É importante que pais deixem um tempo para fazer alguma atividade com os filhos e que também controlem o uso de telas nestes momentos entre família”, indica a médica.

4. FATORES BIOLÓGICOS E GENÉTICOS
A depressão também tem um componente biológico e, por isso, não dá para dizer que é um transtorno totalmente prevenível.

Desenvolvimento — “durante a adolescência, o cérebro está desenvolvimento e pode haver desequilíbrios de neurotransmissores (substâncias químicas que afetam o humor). Por isso, os adolescentes costumam sentir e reagir com maior intensidade as adversidades que surgem neste período”, diz Jackeline. De acordo com ela, eles são mais suscetíveis aos sintomas depressivos e ansiosos.

Predisposição genética — se há casos de depressão ou outros transtornos mentais na família, o adolescente pode ter uma predisposição maior a desenvolver a doença. Isso não significa que ele vai ter, mas é um fator de risco a ser considerado.
Mudanças hormonais — a puberdade traz uma “revolução” hormonal que, para alguns, pode impactar o humor de forma mais intensa.

Sinais e diagnóstico de depressão em adolescentes, que merecem atenção e avaliação profissional, segundo a psiquiatra:
✅ Isolamento social marcante.
✅ Recusa em sair do quarto ou de casa.
✅ Negligência da higiene pessoal.
✅ Perda significativa de peso devido à má alimentação ou crenças anormais sobre comida.
✅ Tristeza generalizada constante.
✅ Irritabilidade frequente.
✅ Perda de interesse em atividades que antes eram prazerosas.
✅ Mudanças significativas no sono ou apetite.
✅ Queda no desempenho escolar.
✅ Qualquer expressão de ideia suicida (passiva ou ativa), comportamentos de automutilação ou ameaças de causar dano a outros — exigem encaminhamento imediato para avaliação.

Passar por avaliação com um profissional especializado em crianças e adolescentes, deve ser a primeira opção quando algum destes sinais aparecerem”, indica a psiquiatra.

Ela explica que não existe um exame específico para diagnosticar a depressão e que isso é feito por meio de entrevistas, feitas pelo médico, tanto com a criança ou adolescente, como com os pais ou outros profissionais, como os da escola, por exemplo, dependendo do caso.

Como acolher o adolescente com depressão?
Se você suspeita que seu filho adolescente sofra de depressão ou mesmo quando já tem o diagnóstico, o pior erro é dizer, por exemplo, que ele “quer chamar atenção”. “Costumo dizer que, se o adolescente está precisando de algum comportamento como autolesão para ‘chamar a atenção’ é porque não está mesmo recebendo a atenção de que precisa”, afirma Jackeline.

Ela afirma que é fundamental que a família seja orientada a manter uma comunicação aberta e a ajudar na adesão ao tratamento, transmitindo segurança e oferecendo apoio. “A família é responsável pela administração da medicação e pelos cuidados para evitar desfechos graves, como o suicídio, quando este risco está presente”, aponta. “É importante ressaltar que a disposição dos pais em aceitar o diagnóstico e participar do processo de tratamento está associada a um melhor engajamento e a melhores resultados. Por outro lado, a negação dos pais ou a disfunção familiar podem ser barreiras significativas para um tratamento eficaz”, acrescenta.

Como tratar depressão na adolescência?
Depois do diagnóstico, é preciso seguir a recomendação do especialista, que será dada de acordo com a avaliação individual. Algumas das possibilidades são:
Psicoterapia (Terapia conversacional): é o primeiro passo e consiste em ensinar o adolescente a lidar com sentimentos e desafios. A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), terapia dialético-comportamental (TDC) e a Terapia Interpessoal (TIP) são muito eficazes.
Medicação: para casos moderados a graves, um médico (psiquiatra infantil) pode recomendar antidepressivos, que devem ser usados com monitoramento médico.

Combinação de terapia e medicação: muitas vezes, a junção das duas terapias é a abordagem mais eficaz.
Mudanças no estilo de vida: hábitos saudáveis (sono, alimentação, exercícios) e um bom suporte familiar e escolar são cruciais para a recuperação.
Internação psiquiátrica: pode ser a indicação em casos mais específicos, como quando há um risco muito alto de suicídio.

Depressão na adolescência: dá para prevenir?
É possível prevenir a depressão na adolescência ou, pelo menos, reduzir muito o risco e a gravidade. Para a psiquiatra, os pais têm um papel importante nesse processo. “Eles atuam como a principal rede de apoio e influência”, afirma. Não é uma garantia em 100%, até porque, como você já sabe, existem fatores biológicos e genéticos. Mas dá para ajudar, com alguns cuidados, que devem começar ainda na infância, como:

Crie um espaço onde seu filho se sinta seguro para falar sobre qualquer coisa, sem medo de ser julgado, minimizado ou criticado. Evite usar exemplos de perfeição e prefira contar algo que aconteceu com você nesta fase e que foi difícil. Pode ser algo que se assemelhe às dificuldades que ele está passando. Tente entender o ponto de vista dele, mesmo que seja diferente do seu.
Mesmo na adolescência, quando os filhos parecem querer mais distância, reservem momentos para estar juntos. Pode ser um jantar em família, um passeio, um filme ou uma atividade que todos gostem. O importante é a presença e a interação.
Valide os sentimentos. Em vez de dizer “Isso não é nada!”, quando seu filho expressar tristeza ou frustração, diga algo como “Entendo que você esteja se sentindo assim, é difícil passar por isso.” Isso vai ajudar o adolescente a entender que é normal sentir e que ele pode contar com você.
Fique atento aos sinais. Se notar que seu filho está mais isolado, irritadiço, com problemas para dormir ou comer, ou perdendo o interesse em atividades, converse. É importante dizer o que observa nele. Diga que você notou que ele parece mais triste e ofereça-se para conversar. Mesmo quando ele nega, é importante dizer que, caso queira conversar, você vai estar ali.
Em vez de resolver tudo por ele, ajude-o a pensar em soluções para os próprios problemas. Isso constrói confiança e autonomia.
Dê a ele tarefas e responsabilidades adequadas para a idade. Sentir-se útil e capaz aumenta a autoestima
Garanta que seu filho tenha um sono de qualidade e em quantidade suficiente. Adolescentes precisam de oito a 10 horas de sono. Limitem o uso de telas antes de dormir.
Incentive a prática regular de esportes ou atividades físicas. O exercício é um poderoso aliado contra o estresse e a depressão.
Estabeleça limites de tempo para telas e incentive atividades off-line.
Seja um bom modelo. Seu filho te observa.
Não hesite em procurar ajuda profissional. Se os sinais de depressão persistirem, busque ajuda de um psicólogo ou psiquiatra o mais rápido possível.

Fonte: Crescer

Luzimara Fernandes

Luzimara Fernandes

Jornalista MTB 2358-ES

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