Economia

Mineração ameaça parar em cidade de MG

Audiências e decisões judiciais colocam oito mil empregos em risco deixando moradores em alerta e a expansão da CSN Mineração em Congonhas sob escrutínio

Por Geovane Souza

A possibilidade de pausa na mineração em Congonhas (MG) ganhou força nas últimas semanas com o avanço de ações judiciais e o atraso no licenciamento ambiental de projetos considerados essenciais pela empresa e pelo governo estadual. Em audiência recente, a Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) registrou que a ampliação da pilha de estéril do Batateiro e a abertura de uma nova lavra na Serra do Esmeril são apontadas como necessárias para manter a produção da Mina Casa de Pedra, operada pela CSN Mineração. Sem essas estruturas, cresce o risco de paralisação parcial ou total da atividade.
O tema mobiliza autoridades, moradores e movimentos sociais. Na Justiça, liminares que permitiam desapropriações em comunidades rurais vinculadas à expansão foram suspensas, o que adiciona incerteza ao cronograma da empresa. Ao mesmo tempo, o prefeito Anderson Cabido defende reduzir a “minero-dependência” do município e diversificar a economia com turismo e novos investimentos.

Enquanto o debate avança, a cidade segue no fio da navalha. A mineração sustenta milhares de empregos e grande parte da arrecadação local, mas a população cobra garantias ambientais, transparência e diálogo efetivo antes de qualquer ampliação. Congonhas está no coração do Quadrilátero Ferrífero e abriga a Casa de Pedra, um dos pilares da produção de minério de ferro da CSN. Estimativas públicas e reportagens especializadas indicam que a cadeia mineral ali sustenta milhares de postos de trabalho, com dados históricos que variam de seis mil a oito mil empregos entre diretos e indiretos ao longo dos últimos anos. Em 2018, por exemplo, a CSN mencionava cerca de seis mil empregos diretos e dois mil indiretos ligados às operações no município.

Em entrevistas recentes, o prefeito Anderson Cabido tem reiterado que a cidade precisa reduzir a dependência econômica da mineração e ampliar frentes como turismo e serviços, de modo a amortecer choques de oferta e de preço do minério, além de impactos de licenciamento. A pauta ganhou tração em 2025 com a série “Minas S/A”, do jornal O Tempo.

Uma eventual paralisação atingiria não apenas as vagas na mina e nas contratadas, mas todo o ecossistema de comércio e serviços que gravita em torno da atividade. Por isso, sindicatos, prefeitura e moradores acompanham cada passo das licenças e das ações judiciais com atenção redobrada. Para fins de planejamento público, a sinalização de “minero-dependência” funciona como alerta. Diversificar a base produtiva é visto como uma forma de proteger empregos em Congonhas e reduzir a volatilidade fiscal.

O que trava a operação: pilha de estéril do Batateiro e lavra no Esmeril
O licenciamento ambiental da pilha de estéril do Batateiro — Fase 4 e da lavra no corpo Esmeril é o principal gargalo. Documentos e notas da ALMG afirmam que tais estruturas são necessárias para garantir a continuidade da produção da Casa de Pedra, sem aumento de capacidade, segundo a empresa. O Relatório de Impacto Ambiental descreve 152,3 milhões de m³ de material disposto e altura máxima de 350 m, dimensões que explicam o alto escrutínio técnico.

O projeto enfrenta contestação social. Moradores denunciam poeira, risco a nascentes e instabilidade de solo, além de questionarem a inexistência de legislação específica para pilhas de rejeitos a seco. O jornal O Tempo descreveu a estrutura como equivalente a um prédio de 115 andares, reforçando a escala do empreendimento que seria instalado na Serra do Esmeril.

A empresa argumenta que a lavra no Esmeril suprirá o minério necessário para manter o nível atual de produção e que a pilha do Batateiro assegurará o descarte dos estéreis “de forma segura”. Ainda assim, o processo segue em análise na Secretaria de Meio Ambiente de Minas, com audiências e pedidos de informação. Em síntese, se as licenças não avançarem, a própria documentação pública da ALMG sustenta que a continuidade operacional fica sob risco, o que alimenta o debate sobre uma possível pausa e seus reflexos em emprego e arrecadação.

Justiça, desapropriações e incerteza jurídica em Santa Quitéria
No front jurídico, a expansão esbarrou no decreto estadual de 2024 que autorizou desapropriações em áreas rurais de Congonhas para viabilizar estruturas ligadas à CSN. Em julho de 2025, decisões do TJMG e despachos subsequentes suspenderam despejos e retomadas de posse em Santa Quitéria, determinando análise pela Justiça Federal após provocações do MPF e de entidades.

A suspensão das desapropriações não encerra o processo, mas adiciona incerteza ao cronograma da mineradora e reforça a necessidade de mediação entre comunidade, empresa e governo. Organizações locais e movimentos socioambientais seguem pressionando por transparência e estudos independentes. Esse contexto jurídico, somado ao licenciamento ainda incompleto, ajuda a explicar por que a pauta da paralisação voltou ao centro do noticiário regional neste semestre.

A leitura do caso Congonhas exige contexto. Minas Gerais segue como líder do faturamento mineral no país. Em 2024, o estado registrou R$ 108,3 bilhões e manteve a dianteira em 2025, conforme balanços do IBRAM e da Agência Brasil. O minério de ferro responde pela maior fatia do setor. O Quadrilátero Ferrífero concentra parte relevante das reservas e da produção nacional. O Serviço Geológico do Brasil (SGB) aponta que a região é responsável por cerca de 60% da produção brasileira de minério de ferro, além de ouro e manganês, o que reforça a sensibilidade de qualquer intervenção regulatória ou judicial na área.

No primeiro semestre de 2025, o faturamento mineral brasileiro somou R$ 139,2 bilhões, com Minas respondendo por quase 40% do total, o que amplia o impacto estadual de dificuldades locais de licenciamento. Em outras palavras, decisões sobre Congonhas transcendem o município e têm efeitos sistêmicos na malha produtiva e logística do minério de ferro.

Caminhos para evitar a paralisação: diversificação, contrapartidas e transparência
Enquanto a pauta corre em licenciamento e tribunais, a Prefeitura propõe contrapartidas socioambientais, diálogo permanente e projetos de diversificação econômica. Em nota oficial e em falas públicas, o município cobrou um novo modelo de relação entre empresas do setor e a cidade, com foco em segurança, arrecadação estável e qualidade de vida.

A equação inclui medidas de controle de poeira, proteção hídrica, monitoramento independente, rotas de transporte menos impactantes e programas de qualificação profissional, além da definição transparente de compensações. Essas exigências estão no centro das audiências públicas na ALMG, que seguirão pautando a decisão técnica sobre as licenças.

Para a população, o objetivo é claro, equilibrar economia e sustentabilidade. Para a empresa, a urgência é garantir a continuidade da produção dentro de parâmetros aceitos pelos órgãos ambientais. Para o estado, a meta é preservar a liderança mineral sem repetir erros do passado. O desfecho dos próximos meses dirá se Congonhas conseguirá evitar a paralisação e preservar empregos, com mais transparência e segurança.

Fonte: Click Petróleo e Gás

Luzimara Fernandes

Luzimara Fernandes

Jornalista MTB 2358-ES

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