A indústria de base no Espírito Santo
Entrevista publicada na revista Aço5.0BR
O Espírito Santo possui um PIB industrial de R$ 44,4 bilhões, equivalente a 1,9% da indústria nacional. Emprega quase 272 mil trabalhadores somente na indústria. É o décimo quarto maior PIB do Brasil, com R$ 149,4 bilhões. Com 4,1 milhões de habitantes, é o 13.º estado menos populoso do país. Estes dados mostram que, embora pequeno em extensão e população, o Estado é gigante quando se trata de produção industrial e desenvolvimento econômico.
E a indústria de base capixaba é altamente relevante para o desempenho industrial, sendo referência no fornecimento de produtos e serviços para as indústrias de petróleo e gás, siderurgia, mineração, energia e celulose, segundo dados da Indústria da Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes) e do governo do Estado. Pesquisa Industrial Mensal (PIM-PF) do IBGE, realizada em 2024, revelou que a produção da indústria do Espírito Santo foi a que mais cresceu no país. O indicador teve alta de 2,4% e ficou bem acima da média nacional (1,1%).
Para falar sobre a relevância e os desafios do setor que envolve a fabricação metalmecânica, a montagem e manutenção industrial, a construção civil, a engenharia e gerenciamento de projetos, a Aço 5.0BR traz a entrevista com o executivo Antônio Falcão de Almeida, presidente da Câmara Setorial das Indústrias de Base e Construção, que representa as associações Sindicato da Indústria da Construção Civil no Estado do Espírito Santo (Sinduscon), Sindicato das Indústrias Metalúrgicas e de Material Elétrico do Estado do Espírito Santo (Sindifer) e o Sindicato da Indústria da Construção Pesada no Estado do Espírito Santo (Sindicopes).

Desafios e Oportunidades
< Como a indústria de base do Espírito Santo está lidando com a carência de mão de obra qualificada e quais estratégias estão sendo implementadas para atrair e reter talentos?
O desafio de capital humano qualificado impacta diretamente as 186 empresas representadas pela Câmara Setorial, que atendem cadeias estratégicas como siderurgia, mineração, papel e celulose e óleo & gás que, juntas, movimentaram mais de R$ 15 bilhões em faturamento em 2024.
O Brasil e o Espírito Santo apresentam um cenário de grandes oportunidades, mas enfrentam um apagão de mão de obra, e a maioria das indústrias tem dificuldade de contratar profissionais qualificados. Para enfrentar esse cenário, as empresas têm intensificado parcerias com a Findes, especialmente por meio do Senai, investindo em programas de qualificação e requalificação profissional voltadas às demandas reais da indústria e alinhadas às novas tendências de mercado. Essas ações buscam preparar trabalhadores para suprir a crescente necessidade do setor até 2027, ao mesmo tempo em que fortalecem a retenção de talentos por meio da valorização da carreira industrial, da incorporação da inovação no ambiente produtivo e da atualização constante de competências técnicas.
< Quais são os principais desafios internos e externos (como flutuações de preços de commodities, instabilidade econômica global) que a indústria capixaba vem enfrentando em 2025 e além?
Estamos vivendo, em 2025, um cenário global desafiador, que impacta diretamente a indústria capixaba, especialmente os segmentos de base e construção. A dependência de commodities voltadas à exportação, como minério de ferro, celulose e aço, torna o setor sensível às oscilações do mercado internacional, com reflexos diretos sobre o desempenho das empresas e a arrecadação estadual. A desaceleração da economia chinesa e as tensões comerciais e a imprevisibilidade tarifária envolvendo os Estados Unidos também afetam a demanda, os preços e a previsibilidade do setor produtivo, gerando maior cautela no planejamento de médio e longo prazos. Além disso, o mercado global tem elevado as exigências ambientais, principalmente relacionadas à descarbonização e à adoção de processos mais sustentáveis, o que exige investimentos constantes em modernização, tecnologia e eficiência produtiva.
No ambiente interno, o principal entrave segue sendo o Custo Brasil, que consome cerca de R$ 1,7 trilhão por ano — o equivalente a 20% do PIB nacional — e reflete o peso da burocracia, da infraestrutura deficiente e da falta de mão de obra qualificada. A isso, se somam o elevado custo do crédito, a taxa de juros ainda restritiva e a insegurança gerada pelas mudanças previstas com a reforma tributária, que provocam dúvidas sobre a composição de preços e a viabilidade econômica de novos projetos. Soma-se a isso a necessidade de maior estabilidade regulatória para garantir segurança jurídica e previsibilidade ao investimento.
Mesmo diante desses desafios, o setor segue investindo e se adaptando, reforçando a importância do diálogo entre indústria, poder público e entidades responsáveis pela infraestrutura para preservar a competitividade e assegurar um ambiente mais favorável ao desenvolvimento.
< De que forma a indústria de base está integrando tecnologias da Indústria 4.0 para aumentar a eficiência e a competitividade?
A Câmara Setorial das Indústrias de Base e Construção tem enfrentado esses desafios por meio da ampla divulgação de informações técnicas e da promoção constante da troca de experiências entre empresas contratantes e contratadas. Uma das principais frentes dessa atuação é a realização recorrente de seminários e encontros técnicos, em parceria com empresas do setor, voltados à disseminação de tecnologias, boas práticas e soluções inovadoras.
Esses eventos abordam temas atuais e estratégicos para a indústria, como aumento da produtividade, segurança do trabalho, modernização de processos, eficiência operacional e inovação aplicada às obras e à manutenção industrial. Esses encontros fortalecem o alinhamento entre os atores do segmento, contribuem para a qualificação técnica das equipes e impulsionam a adoção de práticas mais seguras, eficientes e competitivas.
< Além dos setores tradicionais (mineração, siderurgia, petróleo), quais são as oportunidades para diversificação e desenvolvimento de novas cadeias produtivas no Estado?
O Espírito Santo possui um cenário promissor para ampliar e fortalecer sua base produtiva, com oportunidades estratégicas em setores como energias renováveis, indústria alimentícia, turismo, agroindústria e logística. Essas áreas apresentam elevado potencial de crescimento, geração de empregos e agregação de valor, contribuindo para ampliar o dinamismo da economia capixaba.
Paralelamente, é fundamental avançar na modernização da indústria por meio do investimento em sistemas de automação, inteligência artificial e soluções digitais, que permitem otimizar processos, elevar a produtividade e aumentar a competitividade tanto dessas novas cadeias quanto dos setores já consolidados no Estado.
< A infraestrutura logística, de energia e comunicação do Estado é adequada para suportar o crescimento contínuo da indústria de base?
Avançamos em infraestrutura, com investimentos importantes no Porto de Vitória e na ampliação da capacidade aeroportuária para cargas. No entanto, persistem gargalos relevantes em rodovias, ferrovias e na infraestrutura de comunicação, que impactam a competitividade, elevam custos logísticos e reduzem a eficiência no escoamento da produção.
A expansão dos investimentos exige uma malha mais moderna, integrada e confiável. Segundo a Bússola do Investimento do OBSERVATÓRIO FINDES, o Estado possui uma carteira de cerca de R$ 113 bilhões em investimentos previstos, sendo mais de 60% vindo da indústria. Esse volume reforça a urgência de acelerar obras estruturantes e garantir infraestrutura logística e energética compatível com esse novo ciclo de crescimento.
Sustentabilidade e Meio Ambiente
< Quais são as principais preocupações ambientais relacionadas às operações da indústria de base e quais medidas estão sendo tomadas para mitigar esses impactos?
As principais preocupações ambientais da indústria de base envolvem o controle das emissões de gases de efeito estufa, a gestão de resíduos, o uso eficiente da água, a prevenção da poluição hídrica e o consumo responsável de recursos naturais. Para mitigar esses impactos, as empresas têm intensificado ações de descarbonização, eficiência energética, reúso da água, adoção de certificações ambientais e metas de neutralização de carbono, em consonância com iniciativas como o Selo Descarboniza-ES e o programa NetZero 2050.
Na indústria em geral, a Findes fortalece esse compromisso ao integrar iniciativas que orientam e estimulam práticas sustentáveis no setor. A adesão ao Pacto Global da ONU, em 2022, estabelece diretrizes baseadas em princípios relacionados a meio ambiente, direitos humanos, trabalho e combate à corrupção. Já o Pacto Brasil pela Integridade Empresarial, assinado em 2025, reforça a promoção de uma cultura de ética, transparência e responsabilidade nas empresas capixabas. O governo do Espírito Santo, por sua vez, lançou o Selo Descarboniza-ES e NetZero 2050 visando incentivar as empresas a reduzir emissões.
< Como as empresas do setor estão incorporando práticas sustentáveis em suas operações, especialmente em resposta a crescentes pressões regulatórias e sociais?
Nossas indústrias estão realizando investimentos em certificações ESG, em modernização de seus processos industriais e tratamento adequado de resíduos, por meio de convênios com empresas especializadas e utilização de energias renováveis e essas medidas têm resultado em maiores oportunidades de negócios, pois os compradores têm condicionado a manutenção de seus contratos a adoção de práticas sustentáveis, trazendo retorno imediato dos investimentos em processos sustentáveis.
Impactos Econômico e Social
< Qual a real contribuição da indústria de base para o produto interno bruto (PIB) do Espírito Santo e como ela se compara a outros setores como serviços e agronegócio?
A indústria de base é constituída por empresas dos setores de fabricação metalmecânica, montagem e manutenção industrial, construção civil e engenharia e gerenciamento de projetos, ela contribui de forma direta e indireta para o produto interno bruto (PIB) do Espírito Santo. Sua participação se dá tanto pela geração de receita própria quanto pelo forte efeito indutor sobre outros segmentos da economia, como transporte, comércio, alimentação, fornecimento de insumos e serviços especializados, movimentando toda a cadeia produtiva.
No contexto estadual, a relevância da indústria é bastante expressiva. O setor responde por 28,5% do PIB capixaba, concentra 79% do valor exportado pelo Estado e posiciona o Espírito Santo como o sexto estado mais industrializado do país. São mais de 20 mil indústrias representadas pela Findes, que geram quase 272 mil empregos formais, evidenciando seu papel estruturante para o desenvolvimento econômico e social.
Comparada aos setores de serviços e agronegócio, a indústria de base se destaca pelo seu elevado poder multiplicador — para cada emprego gerado diretamente, são criadas entre cinco e 10 vagas adicionais ao longo da cadeia de abastecimento, reforçando sua importância não apenas como atividade produtiva, mas como vetor de dinamização da economia capixaba.

< Quais são os grandes investimentos previstos para a indústria de base no Estado nos próximos anos, especialmente nas áreas de óleo e gás offshore e indústria naval?
Temos grandes investimentos previstos para o próximo ano. Na siderurgia, o projeto do LTF — Laminador de Tiras a Frio da ArcelorMittal Tubarão e a retomada das pelotizações 1 e 2 da Samarco. No setor de petróleo e gás, avançam as perfurações e a exploração offshore na região sul, além da fabricação de módulos para as plataformas da Petrobras, como P-83 e P-84.
< Como garantir que o crescimento da indústria de base beneficie de forma mais equitativa as diversas regiões e municípios do Estado?
A indústria de base está presente em diversos municípios, com empresas de referência nacional instaladas em regiões como Linhares, Aracruz, Cachoeiro de Itapemirim, Guarapari, Serra e Vila Velha. São organizações com forte atuação técnico-comercial, que conquistam contratos dentro e fora do Estado e que, de forma consistente, estimulam a participação de fornecedores locais das regiões onde estão instaladas. Essa dinâmica fortalece a economia regional, amplia oportunidades e consolida um ambiente de negócios mais integrado e competitivo.
< De que forma as grandes indústrias estão interagindo com as comunidades locais para garantir transparência, diálogo e desenvolvimento social?
A realização de feiras, encontros de negócios, seminários e outras iniciativas promovidas por entidades como o Sindifer, Sinduscon e Sindicopes e o Centro de Desenvolvimento Metalmecânico (CDMEC), com apoio da Findes e do governo do Estado, fortalece, de forma democrática, a integração entre empresas, fornecedores e toda a cadeia produtiva. Esses eventos ampliam o acesso a informações, aproximam oportunidades e garantem que todos os envolvidos participem ativamente do desenvolvimento do setor.
Além disso, contamos com o Programa de Fornecedores do ES (PDF), coordenado pela Câmara de Indústria de Base e Construção, que tem sido um importante catalisador dessa aproximação, facilitando conexões estratégicas e impulsionando a competitividade da indústria capixaba.
Políticas Públicas e Governança
< Os programas de incentivo fiscal e desenvolvimento, como o Compete-ES, são eficazes para atrair e manter as indústrias de base no Estado?
O Programa de Desenvolvimento e Proteção à Economia do Espírito Santo (Compete-ES), do governo do Estado, é um importante estímulo para as empresas da indústria de base. Ao reduzir a base de cálculo do ICMS, o programa reforça a competitividade do Espírito Santo, especialmente na região Sudeste. Seus incentivos diminuem custos operacionais e tributários, favorecendo a expansão de empresas já instaladas e impulsionando a geração de empregos e renda no Estado.
< A atual estrutura regulatória do Estado é suficientemente robusta para fiscalizar e garantir a operação segura e responsável das indústrias de base?
A estrutura regulatória do Espírito Santo é moderna e eficiente, apoiada por programas estratégicos como o Invest-ES e o Compete-ES. Essas iniciativas têm estimulado o desenvolvimento das empresas locais, promovendo crescimento econômico, geração de empregos e aumento da renda no Estado.
(Foto de capa: Gerada por IA)


















Comentários