Economia

Sustentabilidade, os desafios ambientais das indústrias de base capixaba e nacional

Matéria publicada na revista Aço5.0BR

Por décadas, as indústrias de base foram tratadas como sinônimo de impacto inevitável. Mineração, siderurgia, metalmecânica e logística cresceram sob a lógica do volume, da escala e da urgência. O Brasil — e o Espírito Santo em particular — construiu competitividade ancorado nesse modelo. Hoje, porém, o jogo mudou. Sustentabilidade deixou de ser discurso aspiracional e passou a ser critério de sobrevivência.
Não se trata mais de escolher entre produzir ou preservar. A equação atual exige produzir melhor, com menos desperdício, menos emissões e mais inteligência operacional. E isso só é possível com disciplina. Disciplina técnica, operacional e estratégica. É aqui que a liberdade aparece: liberdade para competir, acessar mercados, reduzir custos e atrair capital.

O peso ambiental das indústrias de base
As indústrias de base concentram alguns dos maiores desafios ambientais do país. Consumo intensivo de energia, uso massivo de recursos naturais, geração de resíduos e emissões atmosféricas elevadas fazem parte da realidade cotidiana. No Espírito Santo, polo relevante de siderurgia, pelotização, metalmecânica e logística portuária, esses desafios ganham contornos específicos. A proximidade entre plantas industriais, áreas urbanas e ecossistemas sensíveis aumenta a pressão por controles rigorosos, transparência e diálogo com a sociedade.
No cenário nacional, o desafio é ainda mais amplo: infraestrutura energética desigual, gargalos logísticos, dependência de combustíveis fósseis e um marco regulatório que avança, mas ainda carece de previsibilidade. O resultado é um ambiente onde eficiência ambiental e eficiência econômica precisam caminhar juntas — ou a conta não fecha.

Energia: o centro da equação
A energia é, talvez, o ponto mais crítico. Siderurgia e metalmecânica são intensivas em eletricidade e combustíveis térmicos. Reduzir emissões passa, inevitavelmente, por rever matrizes energéticas, aumentar eficiência e incorporar fontes renováveis.
O Brasil tem uma vantagem competitiva clara: uma matriz elétrica majoritariamente renovável. Mas essa vantagem só se materializa quando há investimento em modernização, contratos inteligentes de energia, autoprodução e gestão fina do consumo. Disciplina energética não é instalar um painel solar para a foto institucional. É mapear processos, eliminar perdas, recuperar calor, digitalizar medições e tomar decisões baseadas em dados. Quem faz isso reduz emissões e, ao mesmo tempo, ganha competitividade.

Água, resíduos e circularidade
Outro desafio central é a gestão da água e dos resíduos industriais. O modelo linear — extrair, produzir, descartar — está com os dias contados. Indústrias de base já entenderam que água é insumo estratégico. Reuso, circuitos fechados, tratamento avançado e monitoramento em tempo real deixaram de ser diferenciais e passaram a ser pré-requisitos. O mesmo vale para resíduos sólidos e coprodutos.
Escória, lama, pó, sucata metálica: tudo isso pode ser problema ou ativo. A diferença está no projeto, na parceria com a cadeia e na disciplina de execução. Economia circular não nasce de slogans, nasce de engenharia, contratos bem estruturados e metas claras.

Logística: eficiência que reduz impacto
Pouco se fala, mas a logística é uma das grandes alavancas ambientais da indústria de base. Transporte ineficiente gera custo, atraso e emissões. No Espírito Santo, com sua vocação portuária e logística, há espaço enorme para ganhos: melhor integração entre modais, uso intensivo de ferrovia e cabotagem, digitalização de fluxos e redução de filas e tempos mortos.
Cada tonelada movimentada com menos quilômetros rodados, menos paradas e mais previsibilidade representa menos CO₂ na atmosfera e mais margem no resultado. Sustentabilidade logística é, antes de tudo, disciplina operacional.

(Foto: Freepik)

ESG: do discurso à execução
O tema ESG amadureceu. O mercado já separa quem comunica de quem entrega. Relatórios bonitos não compensam indicadores fracos. Para as indústrias de base, o desafio é transformar ESG em sistema de gestão, não em departamento isolado. Isso significa metas ambientais integradas à estratégia, liderança técnica envolvida e indicadores acompanhados com a mesma seriedade de custo, segurança e produção.
Empresas disciplinadas não têm medo de auditoria, metas públicas ou cobrança. Pelo contrário: usam isso como ferramenta de melhoria contínua.

O fator humano e tecnológico
Nenhuma transição ambiental acontece sem pessoas capacitadas e tecnologia aplicada com propósito. Automação, inteligência artificial, sensores, manutenção preditiva e digital twins não são modismos — são instrumentos para produzir mais com menos impacto.
Mas tecnologia sem cultura vira desperdício. Sustentabilidade exige liderança que cobre padrão, rotina, método e aprendizado constante. Disciplina não é rigidez; é clareza de processo e responsabilidade distribuída.

Disciplina é liberdade
A indústria de base brasileira está diante de uma escolha clara. Resistir à mudança ou liderá-la. Quem insiste em enxergar sustentabilidade como custo perderá mercado, financiamento e relevância. Quem entende sustentabilidade como eficiência ganhará liberdade.
Liberdade para exportar, para financiar projetos, para operar com previsibilidade e para crescer com legitimidade social. No fim, sustentabilidade não é um destino, é uma prática diária. E como toda prática que gera resultado consistente, exige disciplina. Disciplina é liberdade. Também na indústria.

(Foto: Gerada por IA)

Milena Rohr

Milena Rohr Sócia e diretora do MasterMind (Fundação Napoleon Hill), Gestora Empresarial, Embaixadora do BNI, Palestrante, Escritora, Colunista e Mentora FRST do Grupo Falconi

Related Posts

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *