Justiça atrasou operação contra Banco Master
PF agiu para evitar fugas em série, diz Folha
De acordo com o jornal Folha de S. Paulo, o plano inicial da Polícia Federal e dos órgãos de controle financeiro era claro: deflagrar as duas fases da Operação Compliance Zero de forma simultânea, em novembro de 2025, para atingir com força máxima o esquema bilionário liderado por Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. No entanto, o atraso da Justiça Federal de São Paulo comprometeu o plano, forçando a separação das etapas e abrindo margem para fugas, manobras e, depois, uma interferência direta do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF).
A primeira fase da operação foi executada em 17 de novembro, com a prisão de Vorcaro, exatamente no mesmo dia em que o Banco Central aprovou a liquidação do Banco Master, oficializada no dia seguinte, antes da abertura do mercado. Já a segunda fase, que mirava a rede de fundos operada pela gestora Reag — usada, segundo os investigadores, para simular lucros e lavar recursos —, só foi realizada dois meses depois, em 14 de janeiro de 2026.
Sem tempo para esperar a autorização de São Paulo, a PF decidiu seguir com a primeira fase após identificar três tentativas de viagem ao exterior por parte de Vorcaro. No dia 17 de novembro, ele foi preso no Aeroporto de Guarulhos, momentos antes de embarcar. A manobra da corporação foi decisiva para evitar o desaparecimento do principal investigado. Mas os atrasos da segunda fase provocaram consequências operacionais — e políticas.
No meio do processo, o ministro Dias Toffoli decidiu, em 3 de dezembro, que todas as medidas relacionadas ao caso passariam a tramitar diretamente no STF, tirando a investigação da primeira instância. O pedido partiu da defesa de Vorcaro, após a apreensão de documentos que citavam o deputado João Carlos Bacelar (PL-BA).
Além de assumir o controle, Toffoli impôs o nível máximo de sigilo sobre o processo: nomes, iniciais, movimentações e até decisões estão fora de acesso público — medida que gerou críticas e acendeu o alerta entre investigadores.
Ao autorizar a segunda fase, já sob sua relatoria, o ministro acusou a PF de não cumprir os prazos. Em despacho, cobrou explicações formais do diretor-geral da corporação, Andrei Rodrigues, que respondeu apontando questões operacionais, como a atualização de endereços dos alvos.
Em gesto político, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, visitou a sede da PF no mesmo dia, posou de mãos dadas com o diretor da corporação e sinalizou apoio à instituição diante das críticas do STF. Na segunda fase da operação, um novo episódio no Aeroporto de Guarulhos reforçou o padrão: Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, foi preso enquanto embarcava para Dubai. O objetivo da prisão temporária, segundo investigadores, era resguardar o sigilo da operação e evitar vazamentos. Ele foi solto ainda na manhã do mesmo dia.
A coincidência com a tentativa frustrada de fuga de Vorcaro não passou despercebida pela PF. Um investigador afirmou à Folha, sob anonimato, que não há dúvidas sobre o modus operandi recorrente dos investigados ao se verem na mira da Justiça. A segunda fase teve como foco os fundos da Reag, empresa que já havia sido apontada como peça central no esquema de movimentações artificiais para inflar resultados e lavar dinheiro. As fraudes com esses fundos, conforme a PF, ocorreram antes mesmo do escândalo dos R$ 12,2 bilhões em carteiras falsas vendidas ao BRB, o banco do governo do Distrito Federal.
No entanto, o descompasso entre os pedidos — um feito à Justiça de Brasília e outro à de São Paulo — forçou a divisão das operações. Investigadores afirmam que a atuação fragmentada comprometeu o impacto inicial planejado, embora a segunda fase tenha recuperado parte da narrativa com novas prisões e apreensões.
O caso escancarou a crescente tensão entre PF, STF e Banco Central. A tentativa de blindar investigações, as sucessivas concessões de habeas corpus, e o sigilo total imposto por Toffoli levantam questionamentos entre membros da cúpula do Judiciário e da segurança pública.
Ao manter o material apreendido sob guarda da Procuradoria-Geral da República, e não da PF, Toffoli também alterou o trâmite tradicional das operações, aumentando ainda mais a insatisfação interna. Enquanto isso, Daniel Vorcaro cumpre prisão domiciliar sob monitoramento da PF, enquanto os bilhões evaporados por meio do Banco Master e da Reag seguem sendo rastreados por investigadores — que agora também precisam driblar o sigilo judicial e o tempo institucional.
(Foto: Reprodução/Hora Brasília)
Fonte: Hora Brasília






