Turismo

Fazenda histórica que recebeu Dom Pedro I em 1822 pode se tornar hotel de luxo

Localizada em São José do Barreiro, no interior de São Paulo, a Fazenda Pau D’Alho recebeu Dom Pedro I em 1822, dias antes da Proclamação da Independência

Por Éric Moreira

Fazenda Pau D’Alho, situada em São José do Barreiro, interior de São Paulo, está sob análise para se tornar um hotel de luxo como parte de um projeto de concessão promovido pelo governo federal. O empreendimento, que incluirá 60 quartos e terá uma diária estimada em aproximadamente R$ 1,6 mil, busca integrar a história e o turismo na região.
Este conjunto arquitetônico é protegido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) desde 1968, e a construção do hotel está planejada para ocorrer fora da área tombada. No entanto, a iniciativa enfrenta resistência local devido à sua magnitude, que prevê uma área construída de cerca de 8.300 metros quadrados, abrangendo tanto estruturas históricas quanto novas edificações.
Atualmente, o projeto está em fase de consulta pública até o dia 6 de fevereiro, permitindo que a população se manifeste sobre suas implicações antes que o governo decida sobre a abertura da licitação. O Ministério do Turismo prorrogou este prazo no final de dezembro, antes da potencial formalização do contrato, cuja concessão deverá se estender por 45 anos. Erguida em 1818 com o propósito de produção cafeeira, a fazenda teve sua importância histórica reafirmada quando recebeu Dom Pedro I em 17 de agosto de 1822, durante sua viagem para São Paulo, poucos dias antes da Proclamação da Independência.

Oposição e preocupação
Porém, moradores expressam preocupações significativas quanto à viabilidade e adequação do projeto. Junior Meireles, advogado e presidente do Instituto Pau D’Alho — entidade dedicada à preservação do patrimônio histórico — ressalta que a proposta não considera a realidade do município, que conta com apenas 3.853 habitantes. Segundo ele, o fluxo previsto de visitantes seria insustentável para as infraestruturas locais já existentes.
“Podemos ter impactos ambientais e socioculturais. São José do Barreiro não comporta. A gente tem na região inteira do Vale Histórico um fluxo de 45 mil pessoas. Eles estão propondo dentro do estudo de viabilidade que só a fazenda vai receber 45 mil hóspedes. A gente não tem estrutura para esse fluxo de turistas. Como hospital, rede de água, estruturas sociais para receber um empreendimento desse tamanho”, afirma Meireles.
Ele ainda alerta para os riscos ambientais associados ao projeto, especialmente considerando a localização em área de mata atlântica e próxima a cursos d’água. “É uma área de mata atlântica e curso d’água. Estão propondo cinco intervenções no prédio tombado, e que são acessos a um calçamento do século 18. O fluxo de hóspedes vai danificar por causa do peso”, afirma. O Ministério do Turismo e o Iphan ainda não ofereceram esclarecimentos sobre as preocupações levantadas por moradores e especialistas.

Passado escravocrata
Outra questão levantada por críticos é a descontextualização da proposta em relação à história da fazenda, marcada pela escravidão. Segundo Meireles, construir um hotel no local seria uma forma de “apagamento” da memória histórica: “Dentro desse espaço, nessa atmosfera de luta, não cabe um hotel. É o apagamento da história do povo preto construir, por exemplo, uma loja de conveniência ali. Criar uma falsa imaginação de luxo em um lugar que foi de trabalho”. Sônia Dietrich Paes Leme, artista e residente na cidade há mais de três décadas, enfatiza que a fazenda deve ser preservada como um espaço dedicado à educação cultural e ambiental.

Para se ter uma ideia, hoje o município tem um hotel com 18 unidades, que não chega a 40% de ocupação. A proposta do governo prevê um hotel de luxo, cobrança de ingresso para entrar na fazenda e a transformação do antigo terreiro de café em estacionamento. Isso nos assustou. Nossa região não comporta ônibus de turismo, comporta vans. Não é um destino de turismo de massa”, argumenta Sônia.

A artista defende que o espaço deve continuar acessível ao público e voltado para atividades educacionais que valorizem a história local. “Temos medo de que, em 20 ou 40 anos, sobre apenas um esqueleto de obra, sem que nem a prefeitura nem o estado consigam assumir aquilo”, conclui.

Mais detalhes
O projeto integra o Programa Revive, inspirado em modelos internacionais que buscam revitalizar imóveis históricos através de parcerias com o setor privado. O contrato estipula que áreas destinadas ao uso cultural permanecem abertas ao público e que ao final da concessão o hotel será incorporado ao patrimônio público. O plano financeiro prevê investimentos totais estimados em R$ 63,1 milhões durante o período da concessão. Desse montante, aproximadamente R$ 10,9 milhões serão aplicados na restauração das edificações históricas. A maior parte dos recursos será direcionada à construção do hotel, repercute o g1.
De acordo com informações do Ministério do Turismo, a diária média no futuro hotel deve ser em torno de R$ 1.638,63 com uma taxa de ocupação esperada de 64%. Além disso, receitas adicionais devem surgir através de atividades como aluguel de espaços comerciais e serviços oferecidos aos visitantes. O BNDES atua como assessor técnico no projeto e projeta que até o décimo ano da concessão a receita anual possa alcançar R$ 34,5 milhões, sendo aproximadamente R$ 28,5 milhões gerados apenas pelo hotel. O contrato estabelece restrições rigorosas sobre intervenções nas áreas tombadas e proíbe ações que possam comprometer o valor arquitetônico do conjunto histórico.

(Foto: Reprodução/Ministério do Turismo/Domínio Público)

Fonte: Aventuras na História

Luzimara Fernandes

Jornalista MTB 2358-ES

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