O sacrifício das cinzas: por que nos recusamos a enterrar o que já morreu?
Nós temos uma tendência insalubre de nos apaixonarmos pelas nossas próprias correntes. Fingimos que o processo lento, a planilha redundante ou a reunião que não resolve nada são “partes essenciais da cultura empresarial”, quando, na verdade, são apenas esconderijos para a nossa insegurança. O sistema está em colapso, o oxigênio estratégico está acabando e nós continuamos ali, operando a máquina do mesmo jeito, abraçados ao cadáver de rotinas que já morreram. Relutamos em mudar não por zelo, mas por um vício profundo no conforto do caos conhecido.
Admitamos: a nossa desorganização é uma forma de covardia. É muito mais fácil nos mantermos ocupados com as cinzas de um hábito antigo do que enfrentarmos o vazio e o esforço de construir algo novo. A dor que sentimos ao pensar em abdicar de certas práticas não é um sinal de que elas são importantes; é o nosso ego reagindo à perda de controle. Sentimos o “vão” que o descarte provoca e, em vez de preenchê-lo com eficiência, corremos de volta para o erro que nos é familiar. Mas não há como organizar uma empresa ou uma vida sem aceitar que vamos sangrar no processo.
A organização real não é um exercício de etiqueta ou decoração; é uma cirurgia de emergência. Se não somos capazes de demitir nossos próprios hábitos, seremos escravos deles até o fim. Mantemos rotinas insustentáveis acreditando que estamos “preservando o método”, mas a verdade é que estamos apenas permitindo que a gangrena se espalhe. Cada dia que sustentamos o obsoleto, estamos roubando tempo e energia do nosso próprio futuro. É uma negligência disfarçada de tradição.
Por que essa conscientização é tão dolorosa? Porque abdicar exige que assumamos o erro. Exige que olhemos para o que construímos até ontem e tenhamos a coragem de dizer: “Isso aqui não serve mais para quem precisamos nos tornar”. É um luto de identidade. Se não dói ao abrir mão, é porque não havia valor ali; se dói, é porque estamos arrancando um pedaço de nós mesmos para que o resto do corpo sobreviva. Não existe crescimento sem poda, e não existe poda sem uma ferida aberta.
Muitas vezes, nos pegamos defendendo o “como” e esquecendo completamente o “porquê”. Criamos uma lealdade cega às ferramentas — as rotinas, os horários, os processos — e perdemos o alvo de vista. Se a ferramenta perdeu o corte, ela vira lixo. Se a rotina que defendemos hoje é a mesma que nos impede de respirar amanhã, ela deixou de ser um método e se tornou uma âncora. E nós sabemos que, no mar, quem não solta a âncora quando a maré sobe acaba indo para o fundo com ela.
Precisamos, portanto, ressignificar esse desconforto. A dor do sacrifício é o preço do ingresso para o próximo nível. Não há atalho. Se queremos um sistema novo e organizado, precisamos suportar o silêncio e a instabilidade de desligar o antigo. O vazio temporário não é falta de ordem; é o espaço indispensável para a nova estrutura.
A pergunta que precisamos nos fazer ao olhar para a agenda de amanhã não é o que vamos “melhorar”, mas o que vamos efetivamente matar. O que estamos mantendo apenas por hábito, medo ou ego? A dor de soltar será aguda, mas a recompensa de finalmente caminhar leve é a única forma de sobrevivência. Precisamos ter a bravura de ser os auditores do nosso próprio esforço. No fim das contas, a nossa grandeza não será medida pelo que colocamos para dentro, mas pelo que tivemos o peito de deixar para trás.
(Foto: Gerada por IA)






