Entrevista com Edval Furieri, presidente do Sindifrio ES

Desde 1976, o Sindicato da Indústria do Frio do Estado do Espírito Santo (Sindifrio), vem reunindo empresas que executam atividades voltadas aos fins de abatedouros, frigoríficos e indústrias do frio, nas operações de abates em geral de aves, suínos e bovinos. Representando o setor frigorífico capixaba, o Sindifrio engloba empreendimentos distribuídos por todo o Estado, fortalecendo a representatividade e a competitividade do segmento.
Unido em prol de melhores condições para as indústrias de proteína animal, com o propósito de buscar conexões e parcerias estratégicas, fomentando a inovação, o desenvolvimento tecnológico e a qualidade dos produtos, tem também como prioridade aproximar os empresários do segmento, promovendo o diálogo, a troca de experiências e a busca conjunta por soluções. Assim, consolida-se como uma entidade representativa e atuante, dedicada a fortalecer o setor frigorífico capixaba e a promover o desenvolvimento sustentável da indústria do frio no Estado.
Para entender um pouco mais, a Alimentos & Negócios traz, nessa edição, uma entrevista exclusiva com Edval Furieri, presidente do Sindifrio ES e Diretor Administrativo e Recursos Humanos do Frigorífico Rio Doce S.A. (Frisa), para falar de mercado, de projeções, de saúde, entre outros assuntos que envolvem o nicho da proteína animal no Estado.

Diante das variações de um ‘teste sutil’ ou desafios na exportação de carne bovina em 2026, quais são as projeções do sindicato para o volume de abate e exportações no ES?
Diante dos desafios previstos para 2026, projetamos estabilidade ou nível de ajuste no volume de produção, acompanhando o ciclo produtivo e a oferta de animais. Os volumes destinados ao mercado externo devem ser mantidos positivos ou com crescimento moderado, apoiados pela diversificação de mercados. O sindicato seguirá atuando para preservar a competitividade da carne capixaba e mitigar riscos externos.
Como o possível retrocesso na demanda chinesa deve afetar a capacidade ociosa dos frigoríficos capixabas?
A China segue sendo um dos principais destinos das proteínas brasileiras, com grande relevância para o setor. No entanto, a partir deste ano começamos a conviver com a adoção de cotas por parte desse mercado, o que exige ajustes estratégicos imediatos. Nesse cenário, avançamos na abertura de novos mercados compradores e no fortalecimento de mercados já consolidados, ampliando a diversificação e diminuindo a dependência de um único destino.

Quais as principais ações do sindicato para mitigar o aumento dos custos operacionais e da matéria-prima (boi gordo/suínos) no ES?”
Nosso compromisso é atuar na articulação por políticas públicas de crédito e financiamento para reduzir o custo financeiro da produção. Incentivamos contratos e parcerias de médio e longo prazos, buscando maior previsibilidade nos preços do boi gordo e suínos. Promovemos orientação técnica e ações de gestão de custos para aumentar a eficiência operacional. Também apoiamos o uso de mecanismos de proteção de preços e seguros, diminuindo a exposição à volatilidade do mercado. Além disso, ganhamos institucionalmente por reduções tributárias e estímulo à compra coletiva de insumos.
Há estratégias focadas em fortalecer a presença da carne capixaba no mercado interno, buscando superar a dependência exclusiva da exportação?
Sim. Há estratégias voltadas para o fortalecimento da proteína capixaba no mercado interno, com foco no incremento de qualidade, padronização e rastreabilidade. Também há maior atenção às demandas do consumidor, com investimentos em diferenciação, transparência e construção de valor, com dependência exclusiva das exportações.

Como o setor patronal tem trabalhado para adequar as empresas às exigências de conforto térmico e pausas da NR-36, garantindo a produtividade?
A NR-36 é a norma que trata especificamente da segurança e saúde no trabalho nas organizações de abate e processamento de carnes e derivados. Trata-se de uma norma voltada à proteção do trabalhador, considerando as particularidades ambientais e operacionais desse setor.
No entanto, as empresas associadas ao Sindifrio/ES têm tratado a NR-36 não apenas como uma obrigação legal, mas como um verdadeiro instrumento de gestão empresarial. A evolução tecnológica dos frigoríficos capixabas, aliada aos investimentos recentes, tem priorizado o cuidado extremo com a saúde do trabalhador e a melhoria contínua das condições ambientais de trabalho.
Como o sindicato está orientando os frigoríficos capixabas em relação às novas exigências de sustentabilidade e ESG (Ambiental, Social e Governança) na cadeia produtiva?
O Sindifrio/ES tem atuado para que os frigoríficos capixabas compreendam a sustentabilidade e o ESG como elementos estratégicos para a continuidade e a competitividade do negócio, e não apenas como um tema regulatório. A atuação do sindicato tem se concentrado no esclarecimento das novas questões ambientais, no apoio ao correto cumprimento da legislação e, principalmente, na prevenção de riscos regulatórios e reputacionais.
Além disso, o sindicato estimula a incorporação do ESG à gestão e à governança das empresas, por meio da adoção de políticas internas, controles e indicadores simples, porém eficazes. Também promove capacitações e a troca de boas práticas, reforçando a visão de que sustentabilidade pode representar eficiência operacional, acesso a mercados e ganho de competitividade — e não apenas custo.

A logística de transporte no ES tem atendido à necessidade de agilidade na exportação de carne? Quais gargalos precisam ser resolvidos?
A logística de transporte do Espírito Santo tem apresentado avanços relevantes nos últimos anos, porém ainda não atende plenamente às necessidades de agilidade exigidas pela exportação de carnes, especialmente em razão do caráter perecível do produto e das exigências do mercado internacional. Apesar da posição geográfica estratégica do Estado e da existência de importantes complexos portuários, persistem limitações que impactam a eficiência e a competitividade do setor.
Entre os principais gargalos, destacam-se a capacidade operacional dos portos que, em determinados períodos, enfrenta restrições de janelas de atracação, disponibilidade de contêineres refrigerados e custos adicionais decorrentes de atrasos. Soma-se a isso a elevada dependência do modal rodoviário, que encarece o transporte e aumenta a exposição a riscos de atraso, além da ainda limitada integração com modais ferroviários e soluções multimodais.
Outro ponto sensível é a necessidade de ampliação e modernização da infraestrutura de armazenagem frigorificada e dos corredores logísticos, de modo a garantir maior fluidez no escoamento da produção desde as plantas industriais até os terminais portuários.
O setor tem sentido escassez de mão de obra qualificada para funções específicas? O sindicato prevê convênios de capacitação?
Sim — o setor de frigoríficos, tanto no Espírito Santo quanto no Brasil, em geral, tem percebido dificuldades relacionadas à disponibilidade de mão de obra para todas as funções, especialmente em um momento de forte demanda por produção para atendimento ao mercado interno e exportação de carnes, com as empresas relatando escassez de trabalhadores para preenchimento de suas vagas.
Para mitigar essa escassez, destacamos a importância de investimentos em qualificação profissional, parcerias com instituições de ensino técnico e programas de treinamento interno, de modo a formar e reter trabalhadores com as competências exigidas pelo setor exportador de carnes.
Quais inovações tecnológicas têm sido adotadas pelos frigoríficos, no Estado, para melhorar o rendimento e reduzir despesas?
Os frigoríficos do Espírito Santo têm adotado inovações tecnológicas voltadas à melhoria do rendimento produtivo e à redução de perdas ao longo do processo industrial. Entre as principais iniciativas destacam-se a automação de etapas produtivas, a utilização de sistemas informatizados de gestão e controle de produção, o monitoramento em tempo real da cadeia do frio e a modernização de equipamentos de corte e desossa, que permitem maior precisão e melhor aproveitamento da matéria-prima.
Adicionalmente, o fortalecimento dos sistemas de controle de qualidade e a integração de dados operacionais têm contribuído para a redução de desperdícios, maior eficiência operacional e melhor tomada de decisão, alinhando o setor às exigências sanitárias e de competitividade do mercado interno e externo. O setor produtivo está atento ao que acontece no Brasil e no mundo, buscando sempre o que há de melhor na cadeia produtiva e na busca incessante pela redução de custos e eficiência operacional.





