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Linha reta não é a menor distância entre problemas e soluções reais

Platão descreveu uma caverna onde prisioneiros acorrentados veem apenas sombras projetadas na parede. Essas sombras são sua única realidade. Quando um prisioneiro é libertado e vê o mundo real, a luz o machuca. Ele quer voltar para a caverna, para o conforto das sombras que conhece. Essa metáfora, escrita há mais de 2.400 anos, descreve exatamente o que fazemos hoje nas organizações: preferimos as respostas prontas às sombras da caverna em vez de enfrentar a complexidade do mundo real.
A psicologia explica por quê. Nossa mente busca padrões para reduzir incerteza. Respostas prontas oferecem conforto cognitivo — eliminam a ansiedade do desconhecido. Um jargão bem colocado, uma metodologia enlatada, uma ferramenta que “funcionou lá” nos permitem agir sem questionar. É adaptativo em certos contextos, mas devastador quando a realidade é feita de pessoas. Nos negócios, essa limitação se manifesta de forma particularmente perversa. Gestores aplicam o mesmo processo em contextos completamente diferentes, como se a vida real fosse um manual de instruções. Copiam metodologias de empresas bem-sucedidas esperando os mesmos resultados. Usam jargões que mascaram a realidade humana: “resistência à mudança”, “alinhamento”, “engajamento”. Palavras que simplificam, que eliminam a necessidade de realmente conversar, de realmente compreender quem está do outro lado.

Os dados revelam o custo dessa negação. Segundo a McKinsey & Company, 70% dos projetos de transformação organizacional fracassam. As causas? Não faltam metodologias ou tecnologia. Faltam aspirações suficientemente altas, falta engajamento genuíno dentro da organização, falta investimento em construir capacidades para sustentar a mudança. Em outras palavras: falta diálogo. Pesquisadores da área de comunicação organizacional confirmam que quando há fracasso em mudança, a causa frequentemente atribuída é a falta de comunicação autêntica entre líderes e equipes. Implementações fracassam. Pessoas se sentem invisibilizadas — porque não são, de fato, consideradas em sua singularidade, em suas dificuldades reais de adaptação, em suas formas diferentes de aprender e de estar no mundo. Processos não funcionam porque foram desenhados para máquinas, não para seres humanos.
Mas há algo mais profundo aqui. Essa ilusão da simplicidade não é apenas um problema de gestão. É uma forma de enxergar o mundo que se estende por toda a nossa civilização. Na história, vemos civilizações que não conseguiram abraçar a complexidade entrarem em colapso. Na psicologia individual, pessoas que vivem presas a respostas prontas vivem em conflito permanente com a realidade. Nos negócios, organizações que não reconhecem a singularidade fracassam — e levam pessoas junto.

(Foto: WhatsApp Image)

A saída exige coragem genuína. A coragem de abandonar as respostas prontas. De aceitar que cada transformação é única, que cada pessoa é diferente, que cada contexto exige uma resposta criada, não copiada. De reconhecer que a complexidade não é um problema a ser eliminado, mas a realidade a ser abraçada.
E aqui volta o diálogo. Não a comunicação de cima para baixo, não os jargões que mascaram. O diálogo genuíno — aquele em que você realmente escuta, em que você reconhece que não tem todas as respostas, em que você está disposto a ser transformado pela conversa. Esse é o primeiro processo de qualquer transformação real. Porque é através do diálogo que você sai da ilusão da simplicidade e entra no mundo real, complexo, vivo, feito de pessoas com histórias.
A verdadeira transformação começa quando você reconhece que a realidade é complexa e que essa complexidade não é um defeito a ser corrigido, mas a essência do que significa trabalhar com seres humanos. Não é transmissão de respostas prontas. É construção conjunta de compreensão. A questão que fica é simples, mas não fácil: em que áreas da sua vida você ainda está preso à ilusão da simplicidade? Onde você ainda prefere as sombras da caverna ao mundo real, complexo, desafiador, mas autêntico?
Talvez seja hora de sair.

Fonte: https://duplofoco.com.br/por-que-a-retencao-de-talentos-e-tao-importante-para-a-sua-empresa/

Francisco Neto

Engenheiro eletricista da Conexa Engenharia Transformo soluções inteligentes em energia, eficiência e segurança Instagram: @eng.fneto

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