Estudo revela prática culinária complexa da Idade da Pedra

Novo estudo detalha como os caçadores da Idade da Pedra combinavam plantas e peixes, revelando uma dieta complexa e diversa
Por Letícia Lima
Uma nova pesquisa publicada na revista científica PLOS One reescreve o que se sabia sobre a alimentação humana entre 6000 e 3000 a.C. Ao analisar resíduos em panelas pré-históricas, cientistas descobriram que caçadores-coletores do norte e leste da Europa preparavam refeições altamente elaboradas. Com isso, a dieta não se restringia apenas ao consumo básico de carne, incluindo uma seleção cuidadosa de plantas, peixes e até frutos tóxicos que precisavam de preparo especial.
Para chegar a essas conclusões, a equipe liderada pela arqueobotânica Lara González Carretero, da Universidade de York, examinou 85 vasos de cerâmica. Primeiramente, a pesquisadora explicou em entrevista à revista Discover que estudos anteriores eram tendenciosos por focarem quase exclusivamente em vestígios animais. Contudo, ao aliar análises químicas a exames microscópicos rigorosos, foi possível identificar estruturas celulares de diversas plantas em 58 desses recipientes.
Descobrimos que os caçadores-coletores-pescadores não viviam apenas de peixe; eles processavam e consumiam ativamente uma grande variedade de plantas”, afirmam os pesquisadores em comunicado.
Os artefatos, provenientes de 13 sítios arqueológicos localizados entre a Dinamarca e a Rússia, revelaram misturas específicas de ingredientes. Embora houvesse sinais evidentes de peixes e laticínios, a presença de gramíneas, leguminosas e raízes demonstrou um preparo intencional e complexo. De acordo com informações da revista Smithsonian, esses grupos pré-históricos possuíam um conhecimento botânico profundo, como destacou o cientista Oliver Craig à CNN.
Dieta complexa
Além de identificar os ingredientes no microscópio, os pesquisadores decidiram recriar as receitas ancestrais cozinhando em fogo aberto. Utilizando panelas de barro semelhantes às da época, a equipe preparou ensopados de peixe com plantas da família Amaranthaceae e geleias de bagas de viburno. Surpreendentemente, essas bagas são levemente tóxicas e possuem um cheiro e sabor bastante desagradáveis quando estão cruas.
Ainda assim, Carretero notou que o processo de cozimento junto com o peixe transformava o sabor amargo da baga em algo doce e muito mais agradável. Atualmente, esse ingrediente continua presente nas tradições culinárias da Europa Oriental, evidenciando uma herança cultural que sobreviveu aos milênios. Por fim, o arqueólogo Dimitri Teetaert, que não participou diretamente do estudo, avalia que o desejo de criar novos sabores e texturas pode ter impulsionado a adoção da tecnologia da cerâmica. Sendo assim, a alimentação no período Mesolítico ia muito além da mera sobrevivência calórica, mostrando uma tradição gastronômica.
Fonte: Aventuras na História





