Paleo & Arqueologia

Carta de 400 anos no Sudão prova existência de rei lendário

Com base em estudo recente, pesquisadores confirmaram que o mítico rei núbio Qashqash seria figura histórica real

Por Letícia Lima

Até pouco tempo atrás, o rei núbio Qashqash era considerado por grande parte dos historiadores apenas uma lenda local. Contudo, escavações arqueológicas recentes na antiga cidade de Dongola, localizada no norte do Sudão, mudaram essa perspectiva de forma definitiva. Os pesquisadores desenterraram um pequeno fragmento de papel, datado dos séculos 16 ou 17, que finalmente comprova a existência real desse governante.
A descoberta monumental ocorreu nas ruínas da conhecida “Casa de Mekk”, uma estrutura imponente que outrora servia de residência para os líderes da cidadela. De acordo com informações da revista Popular Mechanics, nesse local escavado, além de joias luxuosas e sapatos de couro, a equipe encontrou mais de vinte fragmentos de papel preservados. Entre essas dezenas de registros, destacou-se o documento contendo um édito administrativo direto do monarca.

Segundo o estudo recente publicado na revista Azania: Archaeological Research in Africa, a análise cruzou a datação por radiocarbono com moedas antigas achadas nas proximidades. Por consequência, foi possível atestar a veracidade temporal do material e confirmar a atuação política concreta do rei. Assim, uma figura anteriormente restrita à literatura hagiográfica e às tradições orais ganhou materialidade inquestionável.
O texto recuperado do papel é surpreendentemente simples, mas possui um peso acadêmico gigantesco para a história do continente. Escrito no idioma árabe pelo escriba Hamad, o pequeno édito foi enviado pelo governante a um subordinado de nome Khidr. Em resumo, a correspondência exigia que ele recebesse e supervisionasse uma troca comercial rotineira de mercadorias.
A ordem determinava a entrega de uma ovelha e sua cria, provenientes de uma pessoa chamada Abd al-Jabir, em troca de três peças têxteis fornecidas por Muhammad al-Arab. Para os especialistas envolvidos, essa transação ia muito além de uma simples troca econômica do dia a dia. Tratava-se, na verdade, de um firme exercício de autoridade governamental e de uma estratégia para a construção de relações sociais.

Dessa forma, o frágil documento de apenas 10 por 9 centímetros ilustra perfeitamente a complexa rede de conexões micropolíticas na antiga capital do reino de Makuria. Além de validar definitivamente o período de reinado de Qashqash, a rara carta ilumina as transformações culturais e linguísticas que moldaram a Núbia ao longo do tempo.

Fonte: Aventuras na História

Luzimara Fernandes

Jornalista MTB 2358-ES

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