Relaxe, é só inveja (e pode te ajudar)
Acredito que podemos falar abertamente neste espaço seguro: todo mundo sente inveja. Seja daquele amigo curtindo férias maravilhosas em uma praia renomada, seja daquele conhecido que comemora uma premiação com um post no LinkedIn, ou seja daquele profissional (que você nem acha tudo isso) que foi promovido… Aconteceu, acontece, acontecerá.
Você pode até não ter nomeado o sentimento na hora, mas se você sentiu inveja, também já experimentou os sintomas físicos (o nó no estômago, a falta de energia) e emocionais (a raiva da pessoa, o desânimo momentâneo). Se você sente isso, pare de fingir que é um monge superior. Você é humano e isso é um dado importante. Seu problema não é sentir, é negar o sentimento e racionalizar uma desculpa que não te ajuda a aproveitar as oportunidades que este sentimento te proporciona. Negar a inveja te deixa cego; aceitá-la te dá visão.
Afinal, nós não sentimos inveja daquilo que não queremos ou com o que não nos identificamos. Como engenheiro, nunca senti inveja de um contador ou de um advogado. Seja qual for o motivo, a inveja é um sentimento que potencializa ou minimiza seu estado mental a partir de como você lida com isso.
O segredo para lidar com inveja é entender que ela é o resultado de uma construção social, ou seja, é uma expressão legítima e coerente de um sentimento que valora mais ou menos aquilo que entendemos como importante na sociedade. O problema é que tendemos a sentir culpa quando ela aparece, o que demonstra que não foi aplicada racionalidade sobre aquilo que está sendo sentido. Esse aspecto moral (que faz o sentimento ser tratado como pecado) paralisa uma tomada de decisão produtiva para aproveitar o que você está sentindo: que existe ali um gap de competência que você percebeu ter sido alcançado por outra pessoa. Se ele conseguiu, por que não eu? Como fazer? A inveja é a prova de que você se importa com aquele resultado, mas ainda não teve competência ou coragem para alcançá-lo.
Lidar com inveja requer resiliência, pois você trabalha o tempo inteiro como um equilibrista em uma corda que, em caso de queda, te leva para lugares diferentes:
- O primeiro caminho, mais fácil, nos coloca na posição de vítima que não consegue encarar o mérito alheio e sempre entrega uma desculpa confortável que alivia o ego instantaneamente (“ele teve sorte”, “é puxa-saco”, “o sistema é injusto”). O destino é a estagnação e a falta de evolução (como pessoa, como profissional);
- O segundo caminho, incrivelmente complexo, transforma a dor em curiosidade (“o que ele fez que eu deixei de fazer?”). Incomoda muito, gera outros sentimentos (tristeza, raiva), mas garante tração emocional para pavimentar o seu crescimento.
Procuramos o tempo inteiro por exemplos de sucesso para nos inspirar. Então vamos utilizar a fonte da sua inveja (seu amigo, seu colega premiado, seu conhecido promovido) como um estudo de caso. Sem julgamento ou adjetivos, somente estudo e métricas. Qual habilidade técnica ele usou? Qual risco ele correu que eu evitei? Qual rede ele construiu enquanto eu ficava na minha mesa? Além disso, é importante valorizar a oportunidade que apareceu para você: o sucesso do seu objeto de estudo validou o mercado. Ele provou que é possível. Agora basta a você criar a sua realidade.
Crescer dói. Admitir que estamos um passo atrás dói mais ainda. Mas entenda: essa é a única dor que traz retorno real sobre o investimento da sua carreira. A inveja, no fundo, nada mais é do que a “dor do crescimento” batendo na sua porta antes da hora, exigindo que você mate sua velha versão para dar lugar a uma nova. Da próxima vez que o “bichinho” morder, não o reprima e nem destile veneno no corredor da empresa. Use a dor como alavanca. Pergunte-se honestamente: “o que esse incômodo está tentando me ensinar sobre o meu próximo passo?”.
Líderes pequenos tentam apagar o brilho dos outros para que o seu pareça maior na escuridão. Líderes grandes usam o brilho alheio para iluminar o caminho que ainda precisam percorrer.
(Foto: Gemini IA)






