Comportamento & Equilíbrio

Uso precoce de telas pode deixar marcas duradouras no cérebro

A partir de estudos, pediatra comenta como a exposição excessiva a telas altera o desenvolvimento cerebral e cria padrões de uso difíceis de reverter

As férias escolares costumam alterar a rotina das famílias, e um dos primeiros hábitos a sair do controle é o tempo de tela das crianças. Com mais horas livres em casa e pais nem sempre disponíveis, o uso de TVs, celulares e tablets tende a aumentar de forma significativa.
O problema é que esse excesso não é temporário nem inofensivo. Estudos científicos publicados em 2025 mostram que o uso precoce e intenso de telas pode provocar efeitos duradouros no desenvolvimento infantil, com repercussões que se estendem da infância à adolescência e possivelmente à vida adulta.

Alterações cerebrais ligadas ao uso precoce de telas
Um dos principais estudos sobre o tema foi publicado em 2025 na revista The Lancet. A pesquisa acompanhou 168 crianças desde os primeiros anos de vida até os 13 anos de idade, analisando o tempo de tela entre um e dois anos, fase em que a recomendação é exposição zero.
Os resultados mostraram uma média de 2,17 horas diárias de tela nesse período. Exames de ressonância magnética, realizados entre os quatro e sete anos, identificaram alterações no desenvolvimento das redes cerebrais, associadas a tomada de decisão mais lenta na infância e a níveis mais elevados de ansiedade na adolescência.

A tela precoce não é inócua. O cérebro em formação é altamente sensível aos estímulos do ambiente, e o excesso de telas nessa fase pode levar a mudanças que não são facilmente revertidas”, afirma a pediatra Dra. Anna Dominguez Bohn.

Mais tempo de tela, pior desempenho cognitivo
Outro estudo relevante, publicado em 2025 pela Elsevier, acompanhou mais de duas mil crianças entre três e cinco anos de idade. O objetivo foi avaliar o impacto do tempo de tela sobre funções executivas essenciais, como foco, atenção, autocontrole e organização emocional.
A relação encontrada foi direta e linear. Quanto maior o tempo de exposição às telas, piores os indicadores cognitivos. Um dos achados mais importantes foi a constatação de que quanto mais cedo e mais intenso é o uso de telas, maior a chance de esse padrão se manter ao longo dos anos. Em outras palavras, crianças que usam muito tendem a continuar usando muito.
O estudo também derruba um mito comum: não são crianças com menor autocontrole que buscam mais as telas. O que ocorre é o oposto, o excesso de tela prejudica a maturação do autocontrole. Como reforça a especialista: “não é algo que dá para compensar mais tarde. O cérebro infantil ainda não tem capacidade de se autorregular diante da tecnologia. Quem define o tempo de tela são os adultos e o ambiente”.
Os estudos também apontam fatores de proteção importantes. Crianças com maior envolvimento parental, especialmente com a presença ativa do pai, e aquelas inseridas em contextos socioeconômicos mais favoráveis apresentaram menor tempo de tela e melhores desfechos cognitivos.

Exposição excessiva a telas altera o desenvolvimento cerebral (Foto: Freepik)

A boa notícia é que o antídoto está dentro de casa: interação real, brincar livre, movimento e vínculo funcionam como um verdadeiro escudo para o cérebro em formação”, salienta a Dra. Anna.

Limitar telas = prevenção em saúde mental infantil
Os dados reforçam a necessidade de conscientização das famílias e de políticas públicas que priorizem a infância. O debate sobre telas precisa ganhar o mesmo peso que outras estratégias de prevenção já consolidadas.

Assim como já discutimos amplamente os prejuízos do tabaco, hoje precisamos falar, com a mesma seriedade, sobre o impacto das telas. Limitar o tempo de uso e priorizar relações presenciais é uma estratégia real de prevenção em saúde mental e de promoção do desenvolvimento infantil”, conclui a pediatra.

(Foto de capa: Freepik)

Fonte: CicloVivo

Luzimara Fernandes

Jornalista MTB 2358-ES

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