O tempo não para


Detecto, meio atônito,
Que me vão os dias,
Percebo que me escoa
O tempo, constato que
Me mina o sangue e
Pressinto que, aos poucos,
Me escapa o espírito
Noto, meio perplexo,
Que me fogem as horas,
Verifico que me
Escasseiam os momentos,
Que me deixam as pessoas,
Que me esmagam os fatos
E que rareiam as falas

Afiro, meio surpreso,
Que me espremem as
Contas e que me cobram
As dívidas do passado
Infantil e desarrazoado
Vejo claro na minha frente
O edito hostil a ser publicado,
Ele segue o rito e contém o
Requisito, conforme previsto
Na lei de causa e efeito

Me parece justa a sentença,
Embora eu tenha embargado,
Sem esperança no mérito,
Mas crente tenha ao menos
Obtido o efeito meramente
Procrastinador desejado
Não que eu critique
A fonte criadora ou o Juiz,
Ou mesmo que eu conteste
O carma, nem ao menos
Que não aceite a ementa ou
A máxima a ser declarada

Mas, como amante da vida
E da letra, além de causídico
Combatente e romântico
Incorrigível eu gostaria ao
Menos de protestar e de
Deixar consignado
Que eu amo a vida,
Que sou feliz e grato,
E digo mais, vistos e etc.,
Que parafraseando o poeta
Suassuna, o menestrel do
Agreste

Que eu não tenho medo
Da morte, na verdade eu
Tenho é pena de desembarcar
Da vida, ao menos por agora
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