Liderança e ruído: o custo da comunicação contaminada

Todo engenheiro é programado para ser perfeccionista; lidar com isso é difícil, mas nos agrega muito valor
Na década de 2000, durante a graduação de engenharia elétrica eu tinha, na grade curricular, muitas práticas de laboratório para estudar sinais de ondas e suas aplicações reais em circuitos elétricos, visando entender melhor o funcionamento dos componentes elétricos. Uma obsessão dos alunos (e dos professores) era calibrar corretamente o aparelho que fornecia o sinal a ser estudado, e este sinal deveria ser limpo, sem ruídos. Isso era essencial, pois tal cuidado nos aproximava o máximo possível da realidade do sistema elétrico, o que era vital para compreender o seu comportamento. Este esforço era parte importante daquilo que todos buscam: ser profissionais competentes que entregam soluções de qualidade, no estado da arte da ciência, sem ruídos.
Durante toda minha vida profissional (do primeiro emprego à fundação da minha empresa), percebi que aquela necessidade pelo sinal elétrico limpo, sem ruído, se expandiu de outras formas (feedbacks, negociações, gestão de conflitos) e para outras áreas (vendas, marketing, financeiro, RH). Felizmente eu já trazia a prática na engenharia. A forma (“como”) já me era conhecida; restava agora trabalhar o conteúdo (“o quê”) de cada novo sinal.
E aí a ficha caiu para algo que não me era conhecido: como o ruído pode ser sedutor! A análise não é mais realizada em um laboratório asséptico, e sim durante uma tempestade eletromagnética de informações. Artigos da moda no LinkedIn, jargões de consultorias, pressão do conselho por resultados trimestrais, a “rádio peão”, fake news e vieses ideológicos do debate público… Essa oferta de ideias vem de todos os lados e, sem os devidos cuidados, pode se transformar em um ruído que contaminará sua gestão em todas as áreas.
Com a pressão absurda por resultados, muitos líderes costumam abraçar alguns ruídos para suportar a demanda e avançar em seu trabalho, e, provavelmente, eles não sentirão nenhum desconforto no curto prazo. Afinal, soluções que parecem tão atrativas (“precisamos de ninjas na equipe”) e com dados que batem com uma visão específica de mundo (“vi uma pesquisa que diz que a Geração Z não se engaja”) são sedutoras. E assim começa a transmissão do ruído para a equipe.
E no curto prazo ele vai ver resultado. Toda gambiarra traz resultados imediatos. Quando a equipe de vendas é incitada a melhorar seu rendimento baseada em análises rasas (“nosso concorrente está muito melhor do que nós, eu vi em um post do Twitter / X”), imediatamente ela vai fazer aquele esforço pontual e fechar no positivo, por alguns meses, talvez.

A tendência, entretanto, é que a repetição dessa prática simule o comportamento de um sistema elétrico com ruídos:
- os componentes (equipe) recebem o sinal principal (necessidade de vendas);
- este vem misturado com distorções (meias-verdades, pânico moral, estatísticas infladas, metáforas e analogias frágeis);
- os componentes se deterioram e operam de forma inadequada (perda de conexão humana, inércia diante de objetivos, perda de confiança);
- o sistema não consegue mais operar diante de um sinal limpo (a equipe vai hesitar diante de uma situação verdadeiramente urgente ou importante).
Na engenharia não transmitimos qualquer sinal, nós o medimos com um aparelho chamado osciloscópio e avaliamos sua forma. Se o líder não vive o sinal que quer transmitir e nem o analisa criticamente para identificar sua veracidade, ele não cumpre seu papel. Saber a fonte, qual é o interesse por trás da mensagem principal, escolher a melhor forma de transmissão, identificar analogias coerentes e de fácil assimilação… Tudo isso é fundamental para que a equipe entenda a importância do que é transmitido e consiga “operar” adequadamente. Isso não é academia, é engenharia de gestão. É garantir que o “componente” (a equipe) para a qual você está enviando o “sinal” (mensagem) não vá danificar o “sistema” (empresa).
Muitos confundem liderança com potência de transmissão. Acham que é falar mais alto, ser mais carismático, repetir os slogans do momento. Minha experiência na indústria e no empreendedorismo me mostrou o oposto: liderança robusta não é sobre potência, é sobre clareza. É ser o responsável por limpar o canal. Uma conexão verdadeira com a equipe não sobrevive em bases frágeis, contaminadas por ruído, fake news ou vieses. Ela exige uma base de verdade. A função mais nobre do líder não é motivar com sinais distorcidos, mas sim proteger a equipe do ruído ambiente, oferecendo um sinal limpo, claro e honesto. No final, o líder-engenheiro sabe que o único caminho sustentável não é o do ruído de curto prazo, mas o do sinal limpo. O resto é apenas estática.











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