Os transtornos causados pela municipalização do trecho urbano da BR-101 na Serra
Por Luzimara Fernandes e Haroldo Filho
A municipalização do trecho urbano da BR-101 no município da Serra, consolidada em dezembro de 2025, já está causando transtornos às empresas de transportes de carga e logística localizadas no município. Com a municipalização do trecho de, aproximadamente 35 km, o fluxo de veículos pesados e de longa distância fica comprometido, o que tem levado empresários e entidades do setor a questionarem a viabilidade do projeto para a região.
A municipalização impactará diretamente no movimento de carretas e veículos pesados, provocando uma paralisação nos momentos de maior tráfego na região, provocando prejuízos a empresas que utilizam a via para fazer o transporte de cargas. Ao todo, serão seis horas de trânsito interditado, o que poderá refletir sobremaneira na economia do município.
Para o presidente do Sindicato das Empresas de Transportes de Cargas e Logística no Estado do Espírito Santo (Transcares), Luiz Alberto Teixeira, é uma surpresa o que estão tentando fazer. “As empresas estão sendo ouvidas agora. Já tivemos quatro reuniões, o Transcares esteve presente em todas, mantendo nossa opinião de que, da forma como o projeto nos foi apresentado, somos totalmente contra. Para se ter uma ideia, só a Biancogrês movimenta 700 carretas diariamente, no trecho de Laranjeiras até o trevo de Carapina, nem eu fazia ideia disso”, explica Luiz Alberto.

Ele traz números impactantes sobre a importância do setor de transportes e logística para a economia serrana, citando o grande volume de arrecadação de impostos na Serra, que geram desenvolvimento e centenas de empregos no município.
A Serra é o município com mais armazéns logísticos no Espírito Santo, possui belas vias, tudo com pista dupla e bem organizado. Agora vem essa surpresa de interditar o trânsito num horário crucial para nós, das 6h às 9h e das 17h às 20h”, argumenta ele, deixando claro que a categoria está buscando uma solução viável a todas as partes. “Não somos contra o progresso, estamos pedindo uma boa alternativa”.
Quem é empresário, alerta Teixeira, sabe os riscos dessa intervenção, tanto para a empresa quanto para o município. “Imagine essas carretas paradas nesses intervalos? É praticamente inviável! E o desenvolvimento da Serra estará sendo colocado em risco”, ressalta. Após comentar que o Transcares fez um ofício para a prefeitura da Serra, citando as preocupações quanto aos problemas que a medida pode gerar, Teixeira lembrou dos veículos em trânsito da Bahia para o Sudeste, ou seja, mais um impacto negativo.
Isso vai virar um caos! Mais de 40% das empresas instaladas na Grande Vitória estão na Serra. Não tem como nosso sindicato concordar com uma coisa dessa. Nosso posicionamento não é político nem contra o desenvolvimento, apenas técnico, pois a medida vai prejudicar muito o setor e a economia”, alerta.

Teixeira lembra, ainda, que a prefeitura apresentou, como uma possível solução, um desvio. Entretanto, segundo ele, são 50 km a mais. “Isso não é um desvio, é uma viagem! Uma carreta faz 2 km por litro, olhe o custo disso! Não vamos conseguir repassar esse valor no frete.
Empresários e representantes da Suzano, Arcelor Mittal, Vale, Biancogrês, Gontijo Distribuidor, grandes atacadistas que estão na BR-101, se reuniram nessa luta, pois todos eles, além de Assaí e o BH, utilizam a via para descarregar. “E esse descarregamento tem que ser feito nos dois períodos de maior movimento de carretas, que são os horários ‘proibidos’. Por isso precisamos de novas alternativas”, frisa.
Na opinião do presidente do Transcares, uma possível solução seria tirar os canteiros centrais e fazer mais duas pistas, construindo alternativas para depois interditar. “Sugerimos a indenização das áreas laterais e a construção de mais duas pistas para as carretas, mas dizem que é caríssimo. A Serra está vivendo um dos melhores momentos econômicos em desenvolvimento logístico. Atualmente, ela é vista como a menina dos olhos da logística e as rodovias de alimentação que cortam o município levam a grandes portos, como Imetame, Portocel, o Parklog. Esse é um caminho sem volta! O posicionamento do Transcares é que tal restrição, imposta pela municipalização no melhor momento de crescimento da Serra, é uma decisão equivocada”.
Questionada sobre o que a gestão municipal tem pensado para minimizar os impactos, visto que essa decisão pode provocar uma debandada de empresas para municípios vizinhos, pela equipe de reportagem do jornal Fatos & Notícias, a assessoria de comunicação da prefeitura da Serra, em nota, disse que tem mantido um diálogo com o setor, ouvindo as demandas e apresentando propostas para garantir a viabilidade necessária.


Confira a íntegra da nota da prefeitura:
A Prefeitura da Serra informa que mantém diálogo com o setor empresarial, ouvindo as demandas dos empresários e apresentando propostas para garantir a mobilidade necessária na Avenida Mestre Álvaro. A prefeitura, inclusive, já iniciou ações para ampliar a segurança viária em toda a extensão da avenida, que está em processo de municipalização desde dezembro de 2025.
Entre as medidas em andamento estão:
👉 Modernização e interligação dos controladores semafóricos à central municipal, com previsão de sincronização total dos sinais;
👉 Reforço da fiscalização com bases móveis e ampliação do efetivo do Departamento de Operações de Trânsito (DOT), incluindo a nomeação de 29 novos agentes;
👉 Intensificação da sinalização vertical e horizontal;
👉 Serviços contínuos de manutenção, como tapa-buracos, limpeza, roçada e manutenção da drenagem;
👉 Modernização da iluminação pública com tecnologia LED, postes mais seguros e sistema de telegestão.
Além disso, também com base em diálogo com aa frentes interessadas, estão previstos projetos estruturantes, como corredor exclusivo para ônibus, ciclovias, calçadas acessíveis, intervenções de engenharia em pontos de estrangulamento e implantação do sistema “Avenida Inteligente”, nos moldes do modelo adotado na Avenida Eldes Scherrer, com controle eletrônico de tráfego para melhorar a fluidez e reduzir riscos de acidentes.
Fecomércio-ES, Fetransportes, Findes e Ases se posicionam sobre a restrição ao tráfego de caminhões na Avenida Mestre Álvaro, Serra
Procuradas pelo Fatos & Notícias, a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Espírito Santo (Fecomércio-ES), a Federação das Empresas de Transportes do Espírito Santo (Fetransportes), a Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes) e a Associação dos Empresários da Serra (Ases), representantes do setor produtivo do município, enviaram uma nota de posicionamento institucional conjunta informando que encaminharam ofício ao prefeito da Serra, Weverson Meireles, solicitando a paralisação imediata do projeto que prevê a restrição do tráfego de veículos de carga na Avenida Mestre Álvaro (antiga BR 101), entre 6h e 9h e das 17h às 19h.
No documento, assinado pelos presidentes Idalberto Moro (Fecomércio-ES), Renan Chieppe (Fetransportes), Paulo Baraona (Findes) e Leonelle Lamas (Ases), as entidades reconhecem a importância da mobilidade urbana e a busca do poder público por soluções que promovam fluidez no trânsito e bem-estar à população. Contudo, manifestam preocupação com os impactos econômicos e logísticos decorrentes da medida, que podem afetar diretamente a dinâmica produtiva do município.
Na avaliação do setor produtivo, restrições operacionais dessa natureza tendem a:
⚠️ Gerar impacto logístico e econômico, com interrupção do fluxo de abastecimento e escoamento, além de ociosidade forçada em centros de distribuição e unidades industriais;
⚠️ Comprometer a viabilidade operacional, considerando que o desvio proposto, de aproximadamente 50 quilômetros, eleva significativamente custos de combustível, manutenção e tempo de transporte, com reflexos diretos ao consumidor final;
⚠️ Reduzir a competitividade local, ao encarecer a logística, desestimular novos investimentos de empresas responsáveis pela geração de emprego e renda no município.
O posicionamento conjunto resulta de reunião realizada no dia 11 de fevereiro, conduzida pela presidente da Ases, Leonelle Lamas, com a participação de lideranças empresariais e representantes do setor produtivo. As entidades reforçam a importância da abertura de um canal permanente de diálogo técnico com a administração municipal, com o objetivo de construir, de forma conjunta, alternativas que conciliem mobilidade urbana, eficiência logística e desenvolvimento econômico. As instituições permanecem à disposição para contribuir tecnicamente com soluções equilibradas e sustentáveis para o município da Serra.
(Foto de capa: Pulsar Imagens)



