Comportamento & Equilíbrio

Epstein em franquias e a modalidade de estupro coletivo

O tráfico internacional de pessoas, bebês, crianças, adolescentes, e jovens adultos, nunca ficou tão escancarado como agora

Os Documentos de Epstein que estavam ocupando, quase totalmente, o espaço midiático, foi derrubado por uma guerra precipitada pela premência de escancaramento do envolvimento de uma figura que usa a paleta alaranjada no cabelo e na pele, e que aparecia em milhares de fotos, vídeos, e comunicações com Epstein, o Rei da Ilha da Orgia, com crianças e adolescentes, meninas e meninos.
Mas esse protagonista que abriu várias frentes, atropelou o explosivo monte de documentos, tenebrosamente horripilantes, parece que, encurralado pelas evidências dos crimes cometidos com estupros múltiplos de crianças, deflagra uma guerra de grandes proporções e consequências imprevisíveis. Esse, aliás, é o traço predominante de seu perfil: o desprezo pelo outro em todas as condições que se apresentem. Traço esse que é inerente aos predadores sexuais. A obsessão pelo Poder infinito é tão explícita e tão inegável quanto sua cor do rosto e cor do cabelo. Mas é, inegavelmente, exímio na compra e venda. Se começou e cresceu usando coisas inanimadas, hoje reina comprando e vendendo vidas humanas.
Epstein também era expert na comercialização de corpos de crianças, vivos ou mortos, transformando-os em moeda que lhe permitiu acumular aos milhões e milhões. O apelo à barbárie oferecida à casta mais Poderosa, fosse no seleto mundo financeiro, ou no mundo das cúpulas da Política, ou das celebridades midiáticas, de tal maneira amarrada, que o grupo restava refém dos registros de áudio e vídeo, armas das chantagens. Uma engrenagem sofisticada, mas ao mesmo tempo de uma simplicidade desconfortável. Uma isca podre, mas dourada era o suficiente para encarcerar. Essa isca era raríssima pela sua perversidade, um ímã perfeito para pessoas sem caráter. Lembrando que a perversão é infinita, mesmo.

Mas a guerra veio, implacável. E os escombros tomaram todos os espaços. Os mortos, os feridos. As crianças perdidas, em vulnerabilidade extrema, presas fáceis para alimentar os reservatórios dos pequenos escravos sexuais internacionais. O tráfico internacional de pessoas, bebês, crianças, adolescentes, e jovens adultos, nunca ficou tão escancarado como agora. Lamentável que, como o conteúdo horrendo da mais recente guerra, todas essas barbaridades entrarão em estado de hibernação, logo, logo.

(Foto: YouTube)

O caso de Dominique Pelicot, o marido francês que explorou sexualmente sua esposa por mais de 10 anos, dopando-a com anestésicos, e compartilhando-a com uma lista de 83 homens, que estupravam a sua carcaça, sob o olhar, o registro em vídeo, e a administração da “checklist” de homens, de 20 a 55 anos, tudo por decisão sua, dentro do quarto e da cama do casal, já sumiu na poeira dos ventos. É um caso horripilante! Difícil imaginar como Dominique conseguia conciliar e costurar esse câncer mental à sua mente social, gentil, responsável, atenciosa. Temos tendência a pensar que são dois pedaços inconciliáveis. Penso que são sim. Talvez ajude evocar aquela ideia rasa de avaliar alguma pessoa como sendo duas caras, ou tendo dupla personalidade. Parece-me que pudéssemos pensar que são duas pessoas em um só corpo, em um permanente “splitting”, (termo técnico da psicopatologia que se refere à esquizofrenia severa), sem nenhum sistema cerebral de empatia, nem de arrependimento, nenhum sentimento de humanicidade. Vale ressaltar que, mesmo tendo similitude com um sintoma essencial de uma doença mental, a perversão, estupradores, predadores, sádicos bárbaros, não são doentes, não são tratáveis. Outra ilusão é a de determinar a castração química para abusadores de crianças. É preciso entender que esses crimes são cometidos no campo da sexualidade, mas não são sexuais para o adulto, são a busca e o exercício do Poder. E essas pessoas não têm resquício de sistema de autoavaliação, de arrependimento, de culpa.

Não à toa, um dos criminosos que cometeram, com planejamento e comemoração de resultado quase morte da menina, quando se apresentou à delegacia, após o tempo de flagrante, claro, vestia uma camiseta com o lema: “arrependimento nenhum”. Esse é um princípio de grupos de ódio a mulheres, que dão instruções, inclusive, como fazer quando ela disser um não. Demonstração de golpes, pontapés e uso de faca são encenados para a formação de bárbaros que distribuem “carteirinha de identidade” com a estúpida brutalidade.
A modalidade do Estupro Coletivo foi a mesma usada pelo Dominique Pelicot, por mais de uma década, usando sua esposa, a mãe de seus três filhos. “Família Feliz”, “família de bem”, “um homem acima de qualquer suspeita”, são, quase sempre, apenas cenografia de primitivismo subanimal.

(Foto: Reprodução Facebook)

Fomos surpreendidos pelo horror de quatro homens e um adolescente de 17 anos, ex-ficante da menina de 17 anos, estuprada por todos. Foi o adolescente ex que armou a cilada para atrair a menina para um apartamento/matadouro em Copacabana, se aproveitando da confiança que ela tinha nele. Quando essa barbárie ocupou espaço no noticiário, outras meninas decidiram fazer a denúncia de seus estupros, também coletivos. E tomamos conhecimento que já aconteciam há mais de três anos, que aconteceram várias vezes, sempre seguindo o mesmo modus operandi e, ainda, que há plataformas na internet que ensinam essa barbárie estúpida, abertamente.
Na ilusão de ser “mais macho” que os outros, esses criminosos usam o campo da sexualidade, momento que deixa a mulher, a menina, o menino, o bebê, na extrema vulnerabilidade pela discrepância da força física natural, com o objetivo de obter um gozo de Poder. É uma experiência de desumanização, que, quanto mais absoluta, mais sensação de gozo. Por isso, não é suficiente só a penetração, é preciso espancar, causar dor intensa, deixar marcas concretas. Exibicionismo e vouyerismo, chutes, socos, fazem a performance que ganha o apelido relativo a sexo. Mas, não é.

Ana Maria Iencarelli

Psicanalista Clínica, especializada no atendimento a Crianças e Adolescentes. Presidente da ONG Vozes de Anjos.

Related Posts

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *