Paleo & Arqueologia

Após mais de um século, cientistas descobrem idade de pinturas rupestres na França

Datação por radiocarbono revela que pinturas rupestres de Font-de-Gaume, descobertas em 1901, foram feitas entre 13 mil e 16 mil anos atrás

Por Éric Moreira

Pela primeira vez, pesquisadores conseguiram determinar a idade de algumas pinturas rupestres encontradas há mais de um século na caverna de Font-de-Gaume, no sudoeste da França. A descoberta, baseada na identificação inesperada de vestígios de carvão nos pigmentos, permitiu aplicar a datação por radiocarbono em obras que, durante décadas, eram consideradas impossíveis de analisar por esse método.
O sítio arqueológico, conhecido desde sua descoberta em 1901 por um professor local, abriga centenas de pinturas pré-históricas que retratam animais como bisontes, cavalos, renas e mamutes, além de figuras humanas, formas geométricas e impressões de mãos. Inserida no vale do Vézère — reconhecido como Patrimônio Mundial pela Unesco desde 1979 — a caverna é considerada um dos mais importantes conjuntos de arte rupestre da região.
Ao longo de mais de um século, cientistas estimaram a idade dessas obras com base em análises estilísticas, sugerindo que teriam sido produzidas entre 16 mil e 18 mil anos atrás, durante o Paleolítico. No entanto, a ausência de carbono nos pigmentos — tradicionalmente associados a compostos minerais como óxidos de ferro e manganês — impedia a confirmação dessas estimativas por meio de testes laboratoriais.

Esse cenário começou a mudar a partir de 2023, quando pesquisadores identificaram traços de carvão em algumas áreas de pigmento preto. A presença desse material, uma forma de carbono, abriu a possibilidade de realizar análises mais precisas. Com autorização especial, a equipe coletou amostras microscópicas, invisíveis a olho nu, para evitar danos às pinturas.
Os resultados, publicados em 9 de março na revista PNAS, indicam que partes de duas obras foram produzidas entre cerca de 13 mil e 16 mil anos atrás. Em uma das amostras, referente à pintura de um bisão, a datação apontou um intervalo entre 13.162 e 13.461 anos, segundo comunicado. Já uma figura de máscara abstrata apresentou datas variadas: duas áreas foram datadas entre 14.246 e 15.981 anos, enquanto uma terceira revelou um período significativamente mais recente, entre 8.590 e 8.993 anos.

Novas hipóteses
A diferença temporal observada em partes da mesma figura levanta hipóteses entre os pesquisadores. Uma possibilidade é que a obra tenha sido retocada por grupos humanos posteriores. Outra explicação considerada é a contaminação do material por carbono mais recente, o que poderia alterar os resultados da análise. De modo geral, os cientistas avaliam que os dados confirmam, ao menos em parte, as estimativas anteriores baseadas no estilo artístico, ao mesmo tempo em que sugerem uma cronologia mais complexa para a produção dessas pinturas. O estudo também reforça a ideia de que a ocupação e o uso da caverna podem ter ocorrido ao longo de períodos distintos.

Qualquer oportunidade que tenhamos de obter datas é realmente importante, porque nos ajuda a situar a obra em períodos de tempo específicos”, afirmou Inés Domingo Sanz, arqueóloga da Instituição Catalã de Pesquisa e Estudos Avançados que não participou do estudo, à Chemical & Engineering News. Apesar do avanço, a pesquisadora ressalta a necessidade de mais análises para consolidar as conclusões: “precisamos de mais dados para podermos confiar nos resultados obtidos até agora”.

Os autores do estudo também destacam que a descoberta de carvão nos pigmentos pode ter implicações mais amplas. A presença desse material em Font-de-Gaume sugere que outros sítios arqueológicos da região — conhecida por sua abundância de arte rupestre — podem conter vestígios semelhantes, abrindo caminho para novas datações por radiocarbono, repercute a Smithsonian Magazine. “Essa descoberta não é apenas significativa para a caverna, mas também representa um achado notável para toda a região”, escreveram os pesquisadores no artigo.
Com as análises ainda em andamento, os cientistas esperam que o método possa ampliar o entendimento sobre quando e como essas obras foram produzidas, oferecendo uma visão mais detalhada das práticas culturais e simbólicas de grupos humanos que viveram na região há milhares de anos.

Fonte: Aventuras na História

Luzimara Fernandes

Jornalista MTB 2358-ES

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