Rota da Seda: cidade submersa é encontrada sob lago no Quirguistão
Expedição arqueológica subaquática no Lago Issyk-Kul revela tragédia que pode ser comparada à história de Pompeia
Por Bruna Barone
Cientistas descobriram vestígios de um cemitério medieval, grandes vasos de cerâmica e partes de uma construção de tijolos cozidos que confirmam a existência de uma antiga cidade no complexo submerso de Toru-Aygyr, um importante ponto da Rota da Seda. A expedição arqueológica subaquática internacional ocorreu nas águas noroeste do Lago Issyk-Kul, no Quirguistão.
No início do século XV, em consequência de um terremoto devastador, a cidade foi submersa pelas águas do lago. Segundo nossa avaliação, na época do desastre, os moradores já haviam abandonado o assentamento”, explica Valery Kolchenko, pesquisador do Instituto de História, Arqueologia e Etnologia da Academia Nacional de Ciências da República Quirguiz, chefe da expedição do país anfitrião. “A tragédia pode ser comparada à história de Pompeia, que não é tão conhecida do público em geral. Após o terremoto, a população da região mudou drasticamente e a rica civilização medieval sedentária deixou de existir. Os nômades tomaram seu lugar”, acrescenta.
A missão também teve participação de especialistas da Sociedade Geográfica Russa (RGS) e do Instituto de Arqueologia da Academia Russa de Ciências (RAS). Os arqueólogos exploraram quatro seções do lago a uma profundidade de um a quatro metros. No primeiro local, encontraram construções feitas de tijolos cozidos projetadas para moer grãos em farinha ou fubá.
Elementos arquitetônicos indicam que ali existia uma construção social com decoração externa: uma mesquita, um banheiro público ou uma madraça (casa de estudos islâmicos). As amostras já foram enviadas para análise dendrocronológica e datação para determinar a idade de materiais orgânicos. Os cientistas descobriram um segundo sítio arqueológico, uma necrópole muçulmana dos séculos XIII e XIV.

Foram encontrados sepultamentos em uma área de 300 por 200 metros, que preservam vestígios de rituais islâmicos tradicionais: os esqueletos estão voltados para o norte, com os rostos voltados para a Qibla, a direção da sagrada Caaba em Meca (Arábia Saudita). Os restos mortais de duas pessoas, um homem e uma mulher, foram recuperados. Um estudo antropológico completo dos esqueletos será realizado.
Vale lembrar que a época da Rota da Seda começou no século I a.C. e floresceu até a era das Grandes Descobertas Geográficas (séculos XIV e XV). No século X, formou-se o Estado Caracânida na região onde foi realizada a expedição. Era uma dinastia turca. As pessoas praticavam várias religiões: o paganismo tengrianismo, o budismo e o cristianismo nestoriano. A elite governante frequentemente se convertia ao islamismo durante seu domínio, mas essa religião só se difundiu na Ásia Central no século XIII.
“Antes disso, o islamismo era principalmente a religião da nobreza e da população envolvida em atividades econômicas ativas. Isso se deve ao fato de ser necessário prestar juramentos: geralmente havia mais confiança no comércio com correligionários”, disse Maksim Menshikov, chefe da expedição e funcionário do Instituto de Arqueologia da Academia Russa de Ciências. A população nômade continuou a seguir tradições pagãs ou a praticar formas sincréticas complexas de religião, onde o paganismo se entrelaçava com o islamismo.

Território complexo
O terceiro sítio arqueológico, localizado ao sul do complexo principal, revelou aos pesquisadores achados de cerâmica medieval e um grande khum (vaso) inteiro. Os arqueólogos planejam desenterrá-lo na próxima temporada. Três sepulturas foram encontradas nas proximidades. Os cientistas sugerem que elas pertencem a um cemitério mais antigo, o que indica uma história complexa de desenvolvimento do território.
“O trecho da Rota da Seda na área do Lago Issyk-Kul estava sob o controle dos Caracânidas”, acrescentou Maksim Menshikov. “Os chineses consideravam esse território uma zona de seus interesses, mas não conseguiam controlá-lo. No entanto, vemos que essa localização é mencionada em fontes chinesas. Isso nos dá esperança de correlacionar materiais históricos com os resultados de nossas escavações arqueológicas. No século XIII, sob a influência da Horda Dourada, o Islã se difundiu na região. Provavelmente, a necrópole que descobrimos no fundo do lago está relacionada a esse período”.
No quarto sítio arqueológico, na parte oeste do complexo, os especialistas examinaram os vestígios de estruturas arredondadas e retangulares e realizaram perfurações subaquáticas. O objetivo era coletar amostras de paredes de barro e solos enterrados. No futuro, isso possibilitará a reconstrução das etapas de desenvolvimento do assentamento e ajudará a preservar o patrimônio subaquático de Issyk-Kul.
(Foto de capa: Reprodução/Academia Russa de Ciências)
Fonte: Olhar Digital










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