Ciência

Cientista descobre atalho para Marte capaz de reduzir pela metade tempo de viagem

No futuro, astronautas poderão ir e voltar de Marte em um tempo muito menor do que o imaginado, de acordo com novo estudo

Por Giovanna Gomes

Astronautas poderão, no futuro, realizar uma viagem de ida e volta a Marte em menos de um ano, reduzindo quase pela metade o tempo estimado das missões atuais. Essa possibilidade surge de um novo estudo que se inspira em trajetórias observadas em asteroides próximos à Terra. Hoje, alcançar o planeta vermelho, que está cerca de 50% mais distante do Sol do que a Terra, leva de sete a dez meses. Além disso, como os dois planetas só se alinham de maneira favorável para transferências eficientes de combustível a cada 26 meses, uma missão completa exige longos períodos de espera. Na prática, isso faz com que viagens de ida e volta possam durar quase três anos.
Mas o estudo publicado em abril na revista Acta Astronautica propõe uma abordagem diferente. Ele sugere que estimativas iniciais, e muitas vezes imprecisas, das órbitas de asteroides próximos à Terra podem conter informações geométricas valiosas. Historicamente, esses cálculos eram usados para avaliar riscos de impacto, mas acabavam sendo descartados conforme dados mais precisos surgiam. Ainda assim, segundo o trabalho, essas primeiras estimativas podem revelar caminhos mais curtos entre planetas.
O autor da pesquisa, Marcelo de Oliveira Souza, da Universidade Estadual do Norte Fluminense, explicou que a ideia surgiu de forma inesperada. Em 2015, enquanto analisava asteroides, ele se deparou com um objeto específico, o 2001 CA21, cujas estimativas iniciais indicavam uma trajetória incomum, que cruzava as órbitas da Terra e de Marte. Embora observações posteriores tenham corrigido o caminho real do asteroide, sua geometria original — especialmente durante a oposição de outubro de 2020, quando Terra e Marte estavam alinhados e relativamente próximos — sugeria a possibilidade de rotas extremamente rápidas entre os dois planetas.

Foi uma surpresa pra mim”, afirmou Souza em entrevista ao Live Science. “Eu não estava procurando por isso”. Segundo ele, essas trajetórias iniciais costumam desaparecer à medida que novas medições refinam os dados orbitais. Por isso, outros pesquisadores talvez não tenham notado o mesmo padrão posteriormente. “Talvez eu estivesse no lugar certo na hora certa”, comentou.

Ao aplicar esses conceitos, Souza calculou que, em condições ideais como as de 2020, seria teoricamente possível viajar da Terra a Marte em apenas 34 dias. No entanto, esse cenário exigiria velocidades extremamente altas, de cerca de 32,5 quilômetros por segundo na partida, o que é muito além da capacidade dos foguetes atuais. Além disso, a chegada ao planeta ocorreria a aproximadamente 108 mil km/h, o que tornaria qualquer tentativa de pouso extremamente arriscada com a tecnologia disponível hoje.
Diante dessas limitações, o pesquisador decidiu explorar alternativas mais realistas, analisando futuras janelas de alinhamento entre os planetas, como as de 2027, 2029 e 2031. Utilizando a chamada análise de Lambert, um método clássico para calcular trajetórias espaciais, e restringindo os caminhos a uma inclinação semelhante à do asteroide estudado, ele concluiu que apenas a janela de 2031 oferece condições viáveis para missões significativamente mais rápidas com tecnologia de curto prazo.
Nesse cenário, uma missão completa poderia durar cerca de 153 dias — pouco mais de cinco meses. O plano hipotético prevê uma partida da Terra em 20 de abril de 2031, com velocidade de aproximadamente 27 quilômetros por segundo. A chegada a Marte ocorreria em cerca de 33 dias, seguida por uma estadia de aproximadamente um mês na superfície. Já o retorno começaria em 22 de junho, com chegada à Terra em 20 de setembro, após uma viagem de cerca de 90 dias.

O estudo também aponta uma alternativa energeticamente menos exigente dentro da mesma janela. Nesse caso, a nave partiria a cerca de 16,5 quilômetros por segundo, resultando em uma missão com duração aproximada de 226 dias — cerca de sete meses e meio — ainda assim consideravelmente mais curta do que os planos atuais.
Apesar do potencial, o conceito permanece essencialmente teórico, uma vez que sua viabilidade depende de diversos fatores, como o design da espaçonave, a massa transportada e, principalmente, os avanços em sistemas de propulsão. Esses elementos determinarão se trajetórias tão rápidas poderão, de fato, ser utilizadas em missões tripuladas.
Ainda assim, o método proposto pode ser útil para orientar futuras pesquisas, ao ajudar a restringir o número de trajetórias possíveis a serem analisadas. As velocidades envolvidas, embora elevadas, não são totalmente inéditas. Missões como a New Horizons já atingiram marcas impressionantes e a sonda foi lançada em 2006 rumo a Plutão a mais de 16 quilômetros por segundo, tornando-se o objeto mais rápido já enviado da Terra na época.

Fonte: Aventuras na História

Luzimara Fernandes

Jornalista MTB 2358-ES

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