Cultura

Miguel Bakun, o artista paranaense considerado o ‘Van Gogh brasileiro’

Nascido em 1909, no Paraná, Miguel Bakun foi comparado a Van Gogh já em 1948 pelo importante crítico de arte Sérgio Milliet

Por Giovanna Gomes

A vida e obra de Miguel Bakun, pintor paranaense nascido em 1909, foram, por diversas vezes, comparadas à trajetória do gênio holandês Vincent van GoghMarcada pelo predomínio de tons de amarelo, azul e branco, a obra de Bakun foi, já em 1948, aproximada pelo crítico e tradutor Sérgio Milliet à produção do mestre europeu, que apontou semelhanças tanto na paleta de cores quanto na intensidade emocional presente em suas telas.
Essa associação voltou a ganhar força em 2019 com a exposição “Aprendendo com Miguel Bakun: Subtropical”, que expôs, no Instituto Tomie Ohtake, 35 pinturas feitas por Bakun. Com curadoria de Luise Malmaceda e Paulo Miyada, a mostra propôs uma releitura da importância do paranaense dentro da arte brasileira.
Dividida em três núcleos, a exposição colocava Bakun em diálogo tanto com autores de paisagens do sul do país quanto com grandes nomes do modernismo brasileiro, entre eles Alfredo AndersenAlberto da Veiga GuignardAlfredo VolpiJosé Pancetti e Iberê Camargo. As informações partem de uma matéria do Correio Braziliense publicada na época.

Aspectos biográficos
A comparação com Van Gogh também atravessa aspectos biográficos. Assim como o pintor holandês, Bakun enfrentou depressão ao longo da vida e morreu tragicamente: cometeu suicídio em seu ateliê aos 53 anos. Além disso, ambos demonstravam fascínio pelo amarelo intenso, cor frequentemente associada ao estado emocional de Van Gogh e até a hipóteses médicas envolvendo xantopsia, nome dado a uma condição visual que altera a percepção das cores.
Filho de imigrantes eslavos, Bakun teve uma vida marcada por dificuldades financeiras e isolamento. Ele trabalhou como alfaiate e, aos 17 anos, ingressou na Marinha. Infelizmente, nesse mesmo período, sofreu um grave acidente: caiu do mastro de um navio, o que fez com que ele mancasse pelo resto da vida. Talvez a melhor parte do tempo da marinha tenha sido a amizade que cultivou com Pancetti, que o incentivou a pintar.
De volta a Curitiba, Bakun trabalhou como fotógrafo lambe-lambe e pintor de letreiros enquanto desenvolvia sua produção artística. No entanto, apesar de seu enorme talento, viveu de forma modesta, mesmo durante sua fase mais produtiva, nos anos 1950, e terminou a vida em condições precárias.

Características
Uma característica marcante do trabalho de Bakun é que, ao contrário das representações tropicais luminosas comuns na pintura brasileira do século 20, as paisagens do referido pintor carregam um clima sombrio e introspectivo. Como destaca a fonte, no universo do pintor, as paisagens ignoram a perspectiva para construir uma dimensão espacial própria. Nessa dimensão, é o avesso da natureza que se destaca — e esse avesso é a própria alma dos bosques, lagos e praias representados, imprimindo a visão panteísta do autor. A própria curadora Luise Malmaceda argumentou na época que a obra do artista acabou marginalizada justamente por se afastar da ideia de um Brasil quente e ensolarado.
Vale destacar que suas obras mais tardias, que passaram a incorporar formas quase espirituais na natureza, levaram alguns críticos a identificar aproximações com o surrealismo. Ainda assim, sua pintura permaneceu profundamente ligada a uma visão mística e emocional do mundo. Com o passar do tempo, cresceu o interesse pela obra de Miguel Bakun, tanto entre pesquisadores quanto no mercado de arte, e, nos últimos anos, o artista vem sendo redescoberto como um dos nomes mais singulares da pintura brasileira do século 20.

Fonte: Aventuras na História

Luzimara Fernandes

Jornalista MTB 2358-ES

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